segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Teorias da conspiração e a pós-verdade

Agradeço a Sérgio Queiroz pelos comentários durante a formulação deste texto.

Desde o seu surgimento a filosofia e as demais áreas do conhecimento tem dedicado a investigar e compreender um dos conceitos mais difundido e utilizado pela sociedade, que é o conceito de verdade. Cotidianamente a verdade é evocada pelo indivíduo ou certos grupos sociais. Mesmo sendo um conceito difundido regularmente, não há um consenso do que é e identificamos como verdade/verdadeiro. Por não haver consenso sobre o que é verdade é possível afirmar que é a verdade é uma entidade abstrata. Deste modo, o conceito de verdade é objeto de estudo da epistemologia e também da metafísica.
No discurso político, a noção de verdade também é mencionada rotineiramente, em algumas ocasiões até banalizada. Em tempos de teorias da conspiração, fake news são difundidas com frequência através da mídia e redes sociais e o discursos alinhados à pós-política e  pós-verdade é pertinente comentar sobre o que é a verdade e os seus desdobramentos.  
Na contemporaneidade podemos ver a deturpação do conceito verdade nas teorias da conspiração, as séries estadunidenses televisivas The X-Files (1993-2018) e Project Blue Book (2019-2020) contribuem para compreendermos como funciona a construção das teorias da conspiração e seus desdobramentos no campo político e nas massas.
Tanto em The X-Files quanto em Project Blue Book, percebemos que a teoria da conspiração surge a partir da desconfiança/paranoia e descrença na ciência e na narrativa histórica oficial, percebemos estas atitudes em personagens como Os Pistoleiros Solitários e Fox Mulder (The X-Files) e Dr. J. Allen Hynek (Project Blue Book). Em ambas as séries a trama se passa em torno da questão sobre a ufologia, isto é, estamos sozinhos no universo? Se sim, por que o governo (estadunidense) oculta a existência de alienígenas do grande público? Em ambas as tramas percebemos que a narrativa oficial, isto é, a verdade que conhecemos não passa de uma manipulação orquestrada por um grupo ultrassecreto, sendo este grupo mais poderoso e influente do que os líderes das grandes potências mundiais. A partir desta constatação, cabe aos protagonistas confrontar este grupo e expor a verdade para o grande público. Embora a proposta das séries seja apenas de entreter o espectador, ambas as séries contribui para situar e compreender o debate sobre o revisionismo*/negacionismo que visa deturpar o que chamamos de verdade e narrativas oficiais. 
Para darmos  prosseguimento recorreremos a algumas definições sobre verdade**:

Dicionário de Filosofia Nicola Abbagno. Verbete Verdade.
Validade ou eficácia dos procedimentos cognoscitivos. Em geral, entende-se por verdade a qualidade me virtude da qual um procedimento cognoscitivo qualquer torna-se eficaz ou obtém êxito. Essa caracterização pode ser aplicada tanto às concepções segundo as quais o conhecimento é um processo linguístico ou semiótico. Ademais, tem a vantagem de prescindir da distinção entre definição de verdade e critério de verdade. Essa distinção nem sempre é feita, nem é frequente; quando feita, representa apenas a admissão de duas definições de verdade. Por exemplo, quando se faz a distinção entre teoria da correspondência e critério de verdade, este é definido como evidência recorrendo-se ao conceito de verdade como revelação, e a teoria da verdade como conformidade a uma regra apresentada por Kant como critério formal ao lado do conceito de verdade como correspondência, torna-se então uma definição da própria verdade. 

Dicionário Oxford de filosofia. Verbete Teoria da verdade como coerência.
Perspectiva de que a verdade de uma proposição consiste em pertencer a um certo conjunto apropriadamente definido de outras proposições: um conjunto consistente, coerente e possivelmente ainda dotado de outras virtudes, desde que não sejam definidas em termos de verdade. Esta teoria, apesar de surpreendente à primeira vista, tem dois pontos fortes: (I) é verdade que testamos  as crenças quanto à sua luz de outras crenças (entre elas crenças perspectivas); (II) não podemos sair do nosso melhor sistema de crenças, para ver como está ele se saindo em termos de sua correspondência com o mundo. 

Dicionário Oxford de filosofia. Verbete Verdades necessárias/contingentes.

Uma verdade necessária é aquela que não poderia ser outra coisa. É uma verdade que é sempre verdadeira sob quaisquer circunstâncias. Uma verdade contingente é aquela que é verdadeira, mas que poderia ter sido falsa. Uma verdade necessária é a que tem de ser verdadeira; uma verdade contingente é a que acontece de ser verdadeira, ou que é verdadeira tal como as coisas são, mas que não tinha de ser verdadeira.

Ao longo da história percebemos o papel que as teorias da conspiração tiveram em certos grupos políticos, antes da ascensão do nazismo na Alemanha, os judeus foram alvos das teorias da conspiração. O filme alemão Nosferatu (1922) de modo subjetivo, através do personagem do Conde Orlok e a cena do navio com os ratos contribuiu para denegrir ainda mais a reputação dos judeus. Outra obra que contribui grandemente para a fomentação de teorias da conspiração contra o povo judeu é o texto Os Protocolos dos Sábios de Sião (1903). Deste modo, percebemos a relevância do negacionismo e a propagação das teorias da conspiração para os regimes autoritários que surgiram ao longo da história, como o fascismo e o nazismo, damos mais destaque ao último pois as propagandas e o discursos do nazismo são "fundamentados" em teorias da conspiração.                                                            Ainda sobre as teorias da conspiração, é possível relacionarmos com o conceito de pós-verdade. Em poucas palavras podemos definir pós-verdade como uma extrapolação da verdade, em outras palavras, com a verdade é relativa, não existe verdade. Entretanto, se aceitarmos tais premissas: que a verdade é relativa ou que a verdade se resume a retórica, estaremos aceitando o discurso anticientífico, consequentemente estaremos contribuindo para o obscurantismo da ciência. Deste modo, ao invés do futuro da humanidade ser próspera, o futuro da humanidade estaria fadada a regressão. Ou seja, a pós-política e a pós-verdade são instrumentos subjetivos que contribui para a consolidação de uma sociedade do controle. Uma sociedade que se voluntariou para ser um detento, isto é, a sociedade contemporânea vive em uma prisão ao ar livre.                                                                                                               Para concluir cabe fazer a seguinte questão: com todo o avanço científico/tecnológico estaria a humanidade condenado a catástrofe como foi retratado no final do filme  Planeta dos Macacos (1968) ou a um futuro distópico como retratado no livro de George Orwell 1984?

*Sobre o revisionismo cabe fazer o seguinte ressalto: ao longo da história o revisionismo é usado para avançarmos, seja conceitualmente, seja no sentido prático da coisa. A crítica que pretendemos fazer ao revisionismo é o mal uso do conceito.
** Por questão de espaço foram selecionados trechos dos verbetes.

Para assistir:


Para assistir (séries):

The X-Files (1993-2018)
Project Blue Book (2019-2020)

Para ler:


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

One Piece, anarquismo e liberdade

O mangá de Eiichiro Oda, One Piece (1997- ) certamente é um dos mangás mais difundido e longevo da atualidade, o mangá ganhou uma adaptação animada em 1999, que também está no ar até o momento. One Piece pertence ao gênero shounen, comumente este gênero é voltado ao publico adolescente masculino, o shounen basicamente segue a seguinte formula: acompanhamos o desenvolvimento do personagem principal (jornada do herói) e lutas entre personagens masculinos fortes.
Em One Piece, acompanhamos  as aventuras de um jovem pirata Monkey D. Luffy e sua tripulação, os Piratas do Chapéus de Palha, além de enfrentar outros piratas e a marinha (Estado), Luffy possui o objetivo de tornar-se o maior pirata de todos os tempos, o Rei dos Piratas, título que pertenceu ao lendário Gold D. Roger. Entretanto, se analisarmos a obra de Eiichiro Oda, perceberemos que One Piece não é apenas um produto de entretenimento, a obra de Oda possui algumas provocações, isto é, instiga o leitor/telespectador.
One Piece aborda temas como autoritarismo, gênero e racismo. Aqui daremos atenção ao debate político que a mangá/anime proporciona, abordaremos a relação entre anarquia e liberdade.
Em One Piece personagens como Gold D. Roger, Monkey D. Dragon, Monkey D. Luffy, Sabo e até mesmo Marshall D. Teach  prezam a liberdade mais do que qualquer coisa, para eles, toda forma de autoritarismo é reprovável, pois limita a liberdade. O grupo comandado por Dragon, os revolucionários, tem como principal objetivo derrubar o Governo Mundial (Estado) e devolver a liberdade a população, deste modo, os revolucionários comandados por Dragon podem ser interpretados como uma alusão aos anarquistas.
Para dar prosseguimento, recorreremos ao verbete anarquismo do Dicionário de Política, do Norberto Bobbio.
O termo Anarquismo, ao qual frequentemente é associado o de "anarquia", tem uma origem precisa do grego anarkhia, sem Governo: através deste vocábulo se indicou sempre uma sociedade, livre de todo o domínio político autoritário, na qual o homem se afirmaria apenas através da própria ação exercida livremente num contexto sócio-político em que todos deverão ser livres. Anarquismo significou, portanto, a libertação de todo o poder superior, fosse ele de ordem ideológica (religião, doutrinas, políticas, etc.), fosse de ordem política (estrutura administrativa hierarquizada), de ordem econômica (propriedade dos meios de produção), de ordem social (integração numa classe ou num grupo determinado), ou até de ordem jurídica (a lei). A estes motivos se junta o impulso geral para a liberdade. Daí provem o rótulo de libertarismo, atribuído ao movimento, e de libertário, empregado para designar o que adere ao libertarismo. 
Precisados os termos, por Anarquismo se entende o movimento que atribui, ao homem como indivíduo à coletividade, o direito de usufruir toda a liberdade, sem limitação de normas, de espaço, de tempo, fora dos limites existenciais do próprio indivíduo: liberdade de agir sem ser oprimido por qualquer tipo de autoridade, admitindo unicamente os obstáculos da natureza, da "opinião", do "senso comum" e da vontade da comunidade geral - aos quais o indivíduo adapta se constrangimento, por um ato livre de vontade. Tal definição genérica, avaliada de diversas maneiras  por pensadores e movimentos rotulados de anárquicos, pode ser sintetizada através das palavras retomadas em nosso século, por volta dos anos 20, pelo anárquico Sebastien Faure na Encyclopédie anarchiste: "A doutrina anárquica resume-se numa única palavra: liberdade"
Deste modo, percebemos a relação entre anarquismo e liberdade são intrínsecos. Mesmo sendo um conceito metafísico, a noção de liberdade possui desdobramentos na política, ao longo da história da civilização ocidental percebemos que a noção de liberdade foi modificada ao longo do tempo e também pelos grupos políticos (progressista ou reacionária). 
Partindo da concepção tradicional da filosofia, isto é, a partir do verbete liberdade tentaremos definir o que é liberdade*.
 Liberdade como autodeterminação ou autocausalidade, segundo a qual a liberdade é a ausência de condições e limites. II liberdade como necessidade, que se baseia no mesmo conceito da precedente, a auto determinação, mas atribuindo-a à totalidade a que o homem pertence (Mundo, Substancia, Estado); III liberdade como possibilidade de escolha, segundo a qual liberdade é limitada e condicionada, isto é, finita. Não constituem conceitos diferentes as formas que a liberdade assume nos vários campos, como por exemplo liberdade metafísica, liberdade moral, liberdade política, liberdade econômica e etc. A disputas metafísicas, morais políticas, econômicas, etc, em torno da liberdade são dominadas pelos três conceitos em questão, aos quais, portanto, podem ser remetidas as formas específicas de liberdade sobre as quais essas disputas versam.
Entretanto cabe fazer a seguinte questão: o que significa liberdade segundo uma concepção anarquista?
Assim como a maioria dos personagens de One Piece, ao refletir o que entendemos como liberdade, perceberemos que o que chamamos de liberdade não passa de uma construção social, ou um instrumento de controle do sistema capitalista. 
A partir da perspectiva anarquista é possível compreender a concepção de liberdade proposta pela democracia/capitalista como mera retorica, isto é, além de ser insuficiente e um instrumento da alienação a liberdade não é emancipatória. Segundo a perspectiva anarquista, a liberdade só é possível através de alguma revolução social, a partir disso é possível articular novos meios de vida.
Ao longo da trama de One Piece percebemos os impactos das revoluções/batalhas nos arcos da história, personagens como Gold. D. Roger Monkey D. Luffy, Monkey D. Dragon  e Kozuki Oden são personagens que expressam o ideal anarquista, além disso, percebemos qual arriscado é almejar a liberdade em sua totalidade, entretanto, os personagens não desistem de seus objetivos, deste modo, vale destacar a importância da proposição "determinação de..." na obra de Oda. 
Assim como as demais vertentes políticas, o anarquismo propõem um modo de vida, cabe ao individuo/sociedade decidir a manter o status quo, isto é, continuar a ter uma vida relativamente cômoda ou aderir aos modos de vidas alternativos... 

*o trecho (incompleto) do verbete Liberdade foi retirado do Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano.

Para Assistir:



Para ler:
Caio Túlio Costa. O que é anarquismo.
George Woodcock. Os grandes escritos anarquistas.
Noam Chomsky. Notas sobre o anarquismo.


terça-feira, 21 de julho de 2020

Superman e Übermensch

Existe alguma relação entre o super-homem da DC Comics com o super-homem proposto por Nietzsche? De um lado temos um dos maiores ícones da cultura pop e de outro um filósofo pop, entretanto, tentar traçar uma relação entre o personagem das HQs com o personagem do filósofo é equivocado, mas nada impede tomar como ponto de partida este tópico e expor as divergências destes personagens ou até mesmo servir como pretexto para conhecer um pouco da filosofia nietzschiana.
O personagem super-homem, criado pelos jovens Jerry Siegel e Joe Shuster na revista Action Comics nry 01, junho de 1938, é considerado um marco nas histórias em quadrinhos estadunidense, é o primeiro quadrinho de super-herói, ou seja, o super-homem é o primeiro super-herói dos quadrinhos, deste modo, inaugurando a Era de Ouro dos quadrinhos. O personagem criado pela dupla é uma tentativa de entreter o leitor, isto é, fazer o leitor esquecer da crise financeira na qual a população estadunidense se encontrava, além das sequelas da crise de 29, a probabilidade dos EUA de participar na guerra na Europa vinha aumentando.
O super-homem surge como o ultimo sobrevivente de seu planeta (Krypton), ao ser encontrado pelo casal Kent, o alienígena, aparentemente semelhante a um humano, é criado com os preceitos humanos, isto é, o jovem Clark Kent é influenciado pelos ensinamentos morais de seus pais, com o passar do tempo, o garoto descobre haver habilidades sobre-humanas e decide usar elas em prol da humanidade, desse modo, o filho de Krypton se torna o guardião da Terra, o defensor dos fracos e oprimidos.
Mesmo sendo um alienígena, o super-homem é influenciado pelas características humanas, ou seja, o filho de Krypton pode ser considerado um aristotélico. Mesmo possuindo habilidades sobre-humanas, quase divina, Superman não é egoísta, seu objetivo é proteger a humanidade, além disso, incentiva a humanidade a fazerem o bem sem esperar nada em troca, ou seja, Superman é altruísta. 
Deste modo, chegamos na conclusão que o super-homem das HQs diverge com o super-homem de Nietzsche.
Übermensch de Nietzsche, pode ser traduzido como super-homem ou além-do-homem, devido a essa dualidade na tradução é compreensível haver uma alusão/confusão entre os dois super-homem, a dos quadrinhos e a do bigodudo. 
O Übermensch não corresponde a moralidade imposta pelo cristianismo, ou seja,  para o além-do-homem não faz sentido se prender a ética cristã, de algum modo, o personagem de Nietzsche superou o cristianismo. A partir desta brevíssima apresentação sobre o super-homem de Nietzsche, percebemos que super-homem proposto pelo filósofo alemão é uma critica a ética e a metafísica cristã, enquanto o super-homem de Joe Shuster e Jerry Siegel, mesmo sendo judeus, enaltece a ética cristã e também contribui para uma idealização de um ser benevolente, isto é, um ser divino, com as mesmas qualidades de Deus, em varias ocasiões, principalmente no filme Superman: O Retorno (2006), o personagem é retratado como uma alusão cristianismo, isto é, o kryptoniano se sacrifica para salvar a humanidade, ou seja, enquanto o Übermensch superou o cristianismo, Kal-El pode ser interpretado como uma alusão ao cristianismo.
Embora devido a nomenclatura dos personagens serem semelhantes, existe uma divergência filosófica, isto é,  mesmo possuindo nomenclaturas semelhantes, a filosofia que ambos representam convergem em seus desdobramentos, entretanto, ambos servem para introduzir-se a filosofia. 

Para assistir:


Para ler:

Gelson Weschenfelder: Filosofando com os super-heróis.
William Irwin (org.). Superman e a filosofia.
 

domingo, 5 de julho de 2020

O determinismo é pop

O que faz o determinismo ser tão instigante?  Produções de entretenimento como Dark (2017-2020), Exterminador do Futuro (1984), Matrix (1999) e Os 12 Macacos (1995) de algum modo instiga o espectador a refletir sobre o determinismo. O que faz o determinismo, um conceito filosófico, ser tão abordado na literatura da ficção científica? Seria o livre-arbítrio uma ilusão social e tudo já está determinado?
Constantemente o conceito de determinismo é mencionado por diferentes áreas do conhecimento como filosofia, física e teologia.Mas ao falarmos sobre determinismo, outros conceitos surgem, são eles: livre-arbítrio e tempo. Neste momento recorreremos a definição destes conceitos*.

Determinismo: Doutrina segundo qual tudo que acontece tem uma causa. A explicação habitual dessa ideia consiste em defender que, para qualquer acontecimento, existe um estado anterior relacionado a ele de tal maneira que não poderia (sem violar uma lei da natureza) existir, sem que existisse o acontecimento.
Livre-arbítrio:  O problema consiste em reconciliar a consciência cotidiana de nós mesmos como agentes, com a melhor teoria que a ciência oferece sobre nós.
Tempo: A natureza do tempo tem sido um dos maiores problemas filosóficos  desde a Antiguidade. Concebemos bem o tempo quando o concebemos como um fluxo? Se é esse o caso, o tempo flui do futuro para o passado, mantendo-nos como barcos presos no meio de um rio? Ou flui do passado para o futuro, transportando-nos com ele?
No passado, filósofos como Espinosa, Leibniz, Pierre -Simon Laplace e Santo Agostinho foram cruciais para o debate sobre os conceitos mencionados. Na contemporaneidade, influenciados ou não por estes pensadores, filósofos e físicos como Albert Einstein, Daniel Dennett, John Searle, Michio Kaku, Sam Harris  e Sean Carroll contribuem para os estudos e o debate. Mesmo com o avanço científico/tecnológico não há um consenso sobre o determinismo e o livre-arbítrio, ou seja, é possível que a humanidade se sobressaia perante o determinismo e consiga legitimar que há livre-arbítrio ou seria o livre-arbítrio uma armadilha do determinismo?
Tanto na graphic novel, na adaptação cinematográfica e de certa maneira, na minissérie televisiva Watchmen, o personagem Dr. Manhattan nos faz refletir sobre o livre-arbítrio ser uma ilusão, nem mesmo um ser quase divino como o Dr. Manhattan pode fugir ou alterar o que já está determinado.

Dr. Manhattan: A minha percepção de tempo a incomoda?
Laurie: Pra que a pergunta? Você já sabe a resposta. É tão absurdo. Quando eu te larguei... E a NOVA  EXPRESS fez as denuncias, você ficou surpreso. Por que... se já sabia que ia acontecer?
Dr. Manhattan: Tudo é predeterminado. Até as minhas reações.
Laurie: E você só segue a partitura, executando as notas? Então isso é você? O ser mai poderoso do universo e não passa de uma marionete seguindo um roteiro?
Dr. Manhattan: Todos nós somos, Laurie. Eu apenas sou uma marionete que vê as cordas**.

Mesmo que o livre-arbítrio seja um conceito atrelado a  metafísica, há implicações diretas na vida cotidiana da sociedade, tal implicação pode ser vista na política e na ética, a liberdade de escolhas do indivíduo desencadeia uma série de eventos que ira repercutir em pequenos grupos ou perante a sociedade como um todo.   
Sendo assim, podemos concluir que um conceito tão abstrato, amplo e complexo pode acarretar diretamente em nossas vidas, mesmo parecendo algo tão obscuro. A reflexão sobre o determinismo pode ser encontrado em diversos veículos da cultura pop e no debate científico/filosófico, na qual pode render horas de provocações.

*Os verbetes mencionados são trechos que são facilmente encontrados no Dicionário Oxford de filosofia.
** Trecho do diálogo de Watchmen, ed. n 09.

Para Assistir (filmes e séries):

Dark, 2017-2020.
Exterminador do futuro, 1984.
Exterminador do futuro 2, 1991.
Exterminador do futuro: As Cronicas de Sarah Connor, 2008-2009.
Matrix, 1999.
Matrix Reload, 2003.
Lost, 2004-2010.
Os 12 Macacos, 1995.
Os Agentes do Destino, 2011.

Para assistir (youtube):


Para ler:


sábado, 27 de junho de 2020

Nietzche, um filósofo pop

Comumente os filósofos são famosos por serem antiquados e avessos à popularidade, certamente não é o que acontece com o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900).
Embora durante a sua vida o filósofo não fosse reconhecido como um grande expoente da filosofia, após a sua morte ganhou grande destaque, cabe neste momento fazer um destaque, comumente Nietzsche é relacionado ao nazismo, tal relação é um equívoco, pois em vida o filósofo combateu o antissemitismo, infelizmente a sua irmã  Elisabeth Förster-Nietzsche (1846-1935) contribui para a deturpação de suas obras, tal deturpação fica claro no livro A Vontade de Poder.
Mas o que leva ao filósofo alemão ser tão influente? Lido e relido nos cursos de filosofia, lido por estudantes secundaristas, ser abordado em longas-metragens ( Dias de Nietzsche em Turim, de 2001; O dia que Nietzsche chorou, de 2007), animações como BoJack Horseman (2014-2020); Love, Death & Robots (2018-) e Rick and Morty (2013-), também é possível diagnosticar a sua influencia na literatura, mais especificamente, na literatura de horror cósmico, como nas obras de H.P. Lovecraft (1890-1937), além disso, ter influenciado músicos como Belchior (1946-2017) e Legião Urbana?
Uma resposta plausível para tal questão é a subversão proposta por Nietzsche. Nietzsche inicia a sua carreira como filósofo rompendo com a academia, mas principalmente rompendo com a filosofia grega, Nietzsche também é conhecido por ter dito frases impactantes como "Deus esta morto"; "E o homem, em seu orgulho, criou Deus à sua imagem e semelhança."; "Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar." A partir destas sentenças podemos ver que Nietzsche é um filósofo do incomodo, sentenças como essas também contribuíram para que o filósofo fosse mal compreendido por seus contemporâneos e leitores, deste modo gerando a futilidade. O pensador alemão também é notoriamente reconhecido pela a sua sagacidade na escrita, isto é, Nietzsche escreve os seus textos nas mais diversas formas, sendo o aforismo o seu estilo mais conhecido dentre elas.
Mesmo assim, é legitimo afirmar que a popularidade do bigodudo é justamente devido o incomodo provocado por ele, assim como a sua rebeldia/genialidade, deste modo, contribuindo para a disseminação de sua filosofia, consequentemente o leitor terá contato com os demais filósofos, deste modo, o leitor acaba se aventurando nos mares intempestivos da filosofia.


Para assistir:


Para ler:

João Evangelista Tude de Melo Neto. 10 lições sobre Nietzsche.
Roberto Machado. Nietzsche e a Verdade.
Scarlett Marton. Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos.
Scarlett Marton. Nietzsche, filósofo da suspeita.
Vinicius de Figueiredo. Filósofos na Sala de Aula, vol. 02.

Para ouvir:

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Superman: justiça, verdade e liberdade

Kal-El, o último kryptoniano vivo, erradicado no Planeta Terra e criado pelos Kents em Smallville, uma cidade do interior no Kansas, na sua adolescência o jovem Clark Kent (Kal-El) descobre que não é humano, além disso, possui habilidades sobre-humanas como superforça, supervelocidade, visão de raio x e visão de calor.
Mesmo com tais habilidades o jovem Clark Kent decide usar as suas habilidades em prol da humanidade, isto é, de fazer o bem para as pessoas, deste modo, tornando-se o Superman. Mas o que leva um ser tão poderoso, em algumas ocasiões sendo até considerado como um deus, proteger a humanidade?
Em diversas ocasiões o filho de Krypton também é chamado como o guardião da justiça, verdade e liberdade. Qual é o entendimento do Superman sobre estes conceitos? Quais os desdobramentos destes conceitos a partir das ações tomadas pelo herói para a humanidade?
Desde a antiguidade filósofos como Platão e Aristóteles investigam esses conceitos (justiça, verdade e liberdade) e quais são os impactos destes conceitos na vida cotidiana de uma determinada sociedade. Uma das mais importantes obras de Platão, A República, o personagem Sócrates debate com os seus interlocutores o que é a justiça e quais são os seus desdobramentos. Aristóteles também dedica a sua reflexão sobre estes conceitos.
No Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagno é possível encontrar os verbetes destes conceitos*. 

Justiça: Em geral, a ordem das relações humanas ou as conduções de quem se ajusta a essa ordem. Podem -se distinguir dois significados principais: 1)Justiça como conformidade da conduta a uma norma , 2) como eficiência de uma norma (ou de um sistema de normas), entendendo-se por eficiência de uma norma certa capacidade de possibilitar as relações entre os homens. 
Liberdade: 1) Liberdade como autodeterminação ou autocausalidade, segundo a qual a liberdade é a ausência de condições e limites. 2) liberdade como necessidade, que se baseia no mesmo conceito da precedente,a auto determinação, mas atribuindo-a à totalidade a que o homem pertence (Mundo, Substancia, Estado); 3) liberdade como possibilidade de escolha, segundo a qual liberdade é limitada e condicionada, isto é, finita. Não constituem conceitos diferentes as formas que a liberdade assume nos vários campos, como por exemplo liberdade metafísica, liberdade moral, liberdade política, liberdade econômica e etc. A disputas metafísicas, morais políticas, econômicas, etc, em torno da liberdade são dominadas pelos três conceitos em questão, aos quais, portanto, podem ser remetidas as formas específicas de liberdade sobre as quais essas disputas versam.
Verdade: Validade ou eficácia dos processos cognoscitivos. Em geral, entende-se por verdade a qualidade em virtude da qual um processo cognoscitivo qualquer torna-se eficaz ou obtém êxito. Essa caracterização pode ser aplicada tanto às concepções segundo as quais o conhecimento é um processo mental quanto às que consideram um processo linguístico ou semiótico.
Ainda sobre a justiça, na República, Trasímaco (personagem da obra de Platão), define para Sócrates o conceito de justiça como instrumento do mais forte, isto é, o mais forte pode faz o que bem entender em nome da justiça. Partindo deste pressuposto, sabemos que Superman é o ser mais forte do planeta, mesmo assim, notamos que o kryptoniano não usa a sua força para o seu bel prazer, ao contrário, Superman usa os seus poderes em prol da humanidade, deste modo transformando-o em um altruísta.
Ao tomar combate ao crime e proteger os fracos e oprimidos, Superman intensifica cada vez mas como representante da justiça, verdade e liberdade . Mas tendo o Superman como guardião da humanidade, seria a humanidade de fato livres? Partindo da perspectiva do seu principal antagonista, Lex Luthor, não. Pois, ao aceitar Superman como protetor da Terra, a humanidade não atingira o seu potencial, deste modo, cabe a Lex a superar Superman. Ainda sobre a liberdade, é legitimo afirmar que Superman também pode ser manipulado para fins políticos, isto é, por parte do governo estadunidense, Superman pode ser usado como arma contra as demais nações, deste modo a liberdade mundial é posto em cheque**.
Superman é tido como um dos heróis mais íntegros dos quadrinhos, é possível validar tal afirmativa? Por muito tempo Superman escondeu a sua identidade de Lois Lane, isto é, por muito tempo, Clark Kent excitou em revelar a sua identidade secreta para a jornalista, mesmo sendo esta a sua paixão. Mesmo assim o personagem é tido como virtuoso, pois mesmo sendo uma alienígena, o último de sua raça e sendo superior a humanidade, Superman escolhe proteger o humanidade.
Deste modo, concluímos que Superman, o íconico personagem das HQs e da cultura pop não é um mero personagem que possui inúmeras aventuras para entreter o consumidor, o personagem também pode ser interpretado como um personagem que instiga quem tem contato com ele, pois molda a moralidade e trás a esperança para a humanidade.

*Devido a falta de espaço serão expressos apenas fragmentos destes verbetes (justiça, verdade e liberdade), também é possível encontrar os mesmos verbetes em outros dicionários como o Dicionário de Política, de Norberto Bobbio e Dicionário Oxford de filosofia, do Simon Blackburn.

Para assistir:

O Homem de Aço, 2013.
Superman O Filme, 1978.

Para  ler:

Alan Moore e Curt Swan. Superman: O que aconteceu com o homem de aço?
Aristóteles. Política.
Willian Irwin (org.). Superman e a filosofia.

domingo, 21 de junho de 2020

Filosophiczine

Fanzine produzido pelos alunos do Colégio Estadual Antônio de Castro Alves de Alvorada - Rio Grande do Sul. Sob a orientação do Professor Denilson Reis. Boa leitura...

Filosophiczine 01