domingo, 12 de julho de 2026

O sobre-humano no trans(h)umanismo (TRADUÇÃO)

 
 
 

Essa divulgação de tradução deve ser compreendida como uma continuação informal da pesquisa de mestrado (2024-2026) em filosofia realizada no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Paraná, intitulado “Nietzsche e o trans(h)umanismo: considerações sobre a equivocada interpretação do conceito de Übermensch” sob a orientação da Profa. Dra. Luciana Zaterka.

 

Para Débora de Sá Ribeiro Aymoré (in memoriam) e Tawana Tábata.

 

Max More - Filósofo e consultor. Fundador da Extropy Institute, CEO da Alcor Life Extension Foundation (2020), membro da Humanity+ e investidor da Singularity University, Califórnia, EUA.

 

Publicado originalmente em: https://jetpress.org/v21/more.htm.

O mesmo texto também pode ser encontrado como capítulo do livro Nietzsche and transhumanism: precursor or enemy? (2017).


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Transhumanismo - a ideia mais perigosa do mundo? (TRADUÇÃO)

Esta divulgação de tradução é resultado da pesquisa em desenvolvimento ao lado da minha pesquisa de mestrado em filosofia intitulado: "A controversa interpretação sobre o conceito de Übermensch na filosofia transhumanista" na universidade Federal do Paraná. 
Para Tawana Tábata.
  
Nick Bostrom - Filósofo e consultor. Professor na Universidade de Oxford (2005-2024).
 
Publicado originalmente em: https://nickbostrom.com/papers/dangerous
 

“Que ideia, se implementada, representaria a maior ameaça ao bem-estar da humanidade?” Esta foi a pergunta feita pelos editores da revista Foreign Policy na edição de setembro/outubro a oito proeminentes intelectuais da área política, entre eles Francis Fukuyama, professor de economia política internacional na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e membro do Conselho Presidencial de Bioética.

A resposta de Fukuyama? O transhumanismo, “um estranho movimento de libertação” cujos defensores têm objetivos muito mais ambiciosos do que os ativistas dos direitos civis, feministas ou defensores dos direitos homoafetivos. Segundo ele, esse movimento quer “nada menos do que libertar a espécie humana de suas limitações biológicas.”

Mais precisamente, os transhumanistas defendem um investimento maior em pesquisas para aumentar radicalmente a expectativa de vida saudável e favorecem o desenvolvimento de métodos médicos e tecnológicos para aprimorar a memória, a concentração e outras capacidades humanas. Os transhumanistas propõem que todos tenham a possibilidade e a liberdade de usar esses procedimentos para aprimorar as várias dimensões do seu bem-estar cognitivo, emocional e físico.

Contudo, segundo os transhumanistas, a escolha de se valer ou não dessas opções de aprimoramento deve, em geral, caber ao indivíduo. Os transhumanistas estão preocupados com o fato de que o prestígio do Conselho Presidencial de Bioética esteja sendo usado para promover uma agenda bioconservadora limitadora, a qual é diretamente hostil ao objetivo de permitir que as pessoas (como indivíduos e não grupo social) melhorem suas vidas por meio do aprimoramento de suas capacidades biológicas.

Por que Fukuyama considera o projeto transhumanista, de trabalhar para tornar as opções de aprimoramento universalmente disponíveis, a ideia mais perigosa do mundo? Sua animosidade contra a posição transhumanista é tão forte que ele chega a desejar a morte de seus adversários: “os transhumanistas”, escreve ele, “são praticamente o último grupo que eu gostaria de ver viver para sempre.” Por que exatamente é tão perturbador para Fukuyama contemplar a sugestão de que as pessoas usem a tecnologia para se tornarem mais inteligentes ou para viverem vidas mais longas e saudáveis?

Resistências intensas têm acompanhado frequentemente avanços tecnológicos ou médicos que nos obrigam a reconsiderar alguns aspectos da nossa visão de mundo. Assim como a anestesia, os antibióticos e as redes globais de comunicação transformaram fundamentalmente nossa percepção da condição humana, também podemos antecipar que nossas capacidades, esperanças e problemas mudarão se as tecnologias mais especulativas discutidas pelos transhumanistas se concretizarem. Além de um vago sentimento de inquietação, que todos podemos compartilhar em diferentes graus, que argumento específico Fukuyama apresenta para justificar a renúncia aos muitos benefícios de permitir que as pessoas melhorem suas capacidades básicas?

A objeção de Fukuyama é que a defesa da igualdade de direitos legais e políticos é incompatível com a aceitação do aprimoramento humano. “Subjacente a essa ideia de igualdade de direitos está a crença de que todos possuímos uma essência humana que supera as diferenças manifestas na cor da pele, na beleza e até mesmo na inteligência. Essa essência, e a visão de que os indivíduos têm, portanto, um valor inerente, está no cerne do liberalismo político. Mas modificar essa essência é o cerne do projeto transhumanista.”

O seu argumento consiste, portanto, em três pressupostos: (1) existe uma “essência humana” única; (2) apenas os indivíduos que possuem essa essência misteriosa podem ter valor intrínseco e merecer direitos iguais; e (3) as melhorias defendidas pelos transhumanistas eliminariam essa essência. A partir daí, ele conclui que o projeto transhumanista destruiria a base dos direitos igualitários.

O conceito de “essência humana” é, obviamente, profundamente problemático. Os biólogos evolucionistas observam que o patrimônio genético humano está em constante mudança e dizem que nossos genes dão origem a um “fenótipo ampliado” que inclui não apenas nossos corpos, mas também nossos artefatos e instituições. Nos últimos vinte anos, os etólogos revelaram o quanto somos semelhantes aos nossos grandes parentes primatas. Um conceito denso de essência humana tornou-se, sem dúvida, um anacronismo. Mas podemos deixar essas dificuldades de lado e nos concentrar nas outras duas premissas do argumento de Fukuyama.

A afirmação de que apenas as pessoas que possuem a essência humana podem ter valor intrínseco é equivocada. Somente os mais insensíveis negariam que o bem-estar de alguns animais não humanos é importante, pelo menos até certo ponto. Se um visitante do espaço sideral chegasse à nossa porta e tivesse consciência e capacidade moral, assim como nós, humanos, certamente não negaríamos seu status moral ou valor intrínseco apenas porque ele não possui a tal da “essência humana.” Da mesma forma, se algumas pessoas modificassem sua própria biologia de uma forma que alterasse o que Fukuyama considera ser sua “essência”, será que realmente gostaríamos de privá-las de sua posição moral e direitos legais? Excluir pessoas do círculo moral simplesmente porque elas possuem uma “essência” diferente “do resto de nós” é semelhante a excluir pessoas com base em seu gênero ou etnia.

O progresso moral nos últimos dois milênios consistiu, em grande parte, em aprendermos gradualmente a superar nossa tendência de fazer discriminações morais com base em motivos fundamentalmente irrelevantes. Devemos ter em mente essa lição duramente apreendida quando abordamos a perspectiva de pessoas tecnologicamente modificadas. As democracias liberais falam de “igualdade humana” não no sentido literal de que todos os seres humanos são iguais em suas diversas capacidades, mas que são iguais perante a lei. Não há razão para que os seres humanos com capacidades alteradas ou aprimoradas não sejam igualmente iguais perante a lei, nem há motivo para supor que a existência dessas pessoas deva minar séculos de refinamento jurídico, político e moral.

A única abordagem defensável para basear o status moral na essência humana é definindo “essência” de forma muito ampla; digamos, como “possuir a capacidade de agir moralmente”. Mas se usarmos essa interpretação, a terceira premissa de Fukuyama deixa de se sustentar. Os aprimoramentos defendidos pelos transhumanistas — maior longevidade saudável, melhor memória, maior controle sobre as emoções, etc. — não privariam as pessoas da capacidade de agir moralmente. Na verdade, esses aprimoramentos protegeriam e expandiriam o alcance da ação moral.

Portanto, o argumento de Fukuyama contra o transhumanismo é equivocado. Entretanto, Fukuyama está certo em chamar a atenção para as implicações sociais e políticas do uso crescente da tecnologia para transformar as capacidades humanas. De fato, precisamos nos preocupar com a possibilidade de estigmatização e discriminação, seja contra ou a favor de indivíduos tecnologicamente aprimorados. A justiça social também está em jogo e precisamos garantir que as opções de aprimoramento sejam disponibilizadas da forma mais ampla e acessível possível. Esse é um dos principais motivos que levaram ao surgimento dos movimentos trans(h)umanistas. De maneira geral, os trans(h)umanistas buscam promover as ideias de liberdade morfológica, cognitiva e reprodutiva, com amplo acesso a opções de aprimoramento. Apesar dos exageros retóricos ocasionais de alguns de seus defensores, o transhumanismo possui uma visão positiva e inclusiva de como podemos abraçar eticamente novas possibilidades tecnológicas para levar uma vida mais do que boa.

O único perigo real representado pelo transhumanismo é que tanto a esquerda quanto a direita possam considerá-lo muito mais atraente do que o bioconservadorismo reacionário defendido por Fukuyama e alguns outros membros do Conselho Presidencial.

 
 
 
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Ex Machina e a filosofia: a não ficção dos horizontes da IA

 Divulgação do artigo "Ex Machina e a filosofia: a não ficção dos horizontes da IA"  escrito pelos Professores e mestrandos em filosofia Leonardo Gomes (UFPR) e Leonardo Silveira Maika (UFPR), publicado no Cadernos Pet de Filosofia (UFPR).

Meus agradecimentos ao Leonardo Maika, por aceitar escrever em conjunto, pelos comentários e sugestões e a amizade.
Para Tawana Tábata.
 

Nós, Ciborgues: tecnologias de informação e subjetividade humano-máquina

 
Divulgação da resenha "Nós, ciborgues: tecnologias de informação e subjetividade humano-máquina", escrito pelo Professor, mestrando em filosofia Leonardo Gomes (UFPR) publicado no Cadernos Pet de Filosofia (UFPR)
Meus agradecimentos à  Profa. Dra. Débora Aymoré, pelo apoio, pela confiança e a amizade.
Para Tawana Tábata.
 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Redescobrindo um filósofo híbrido: Georges Canguilhem

 Divulgação da tradução do artigo "Redescobrindo um filósofo híbrido: Georges Canguilhem", truduzido pelo Professor e mestrando em filosofia Leonardo Gomes (UFPR) publicado no Cadernos Pet de filosofia.
Meus agradecimentos ao autor, Prof. Dr. Francisco Vázquez García (Universidad de Cádiz - Espanha) e a Prof. Dra. Débora Aymoré pelas sugestões.
Para Tawana Tábata
 

domingo, 27 de julho de 2025

Do programa baconiano à tecnociência

 
Divulgação do artigo "Programa baconiano à tecnociência", escrito pelo Professor, mestrando em filosofia Leonardo Gomes (UFPR) publicado na Revista paranaense de filosofia ( UNESPAR).
Meus agradecimentos à  Profa. Dra. Luciana Zaterka (UFABC/UFPR) e à Péricles do Prado. 
Para Tawana Tábata.
 

domingo, 20 de julho de 2025

Democracia e transumanismo (TRADUÇÃO)

 
Esta divulgação de tradução é resultado da pesquisa em desenvolvimento ao lado da minha pesquisa de mestrado em filosofia intitulado: "A controversa interpretação sobre o conceito de Übermensch na filosofia transhumanista" na universidade Federal do Paraná. 
Meus agradecimentos ao Rodrigo Mickus pela amizade e pelo incentivo.
Para Tawana Tábata.
 
Max More - Filósofo e futuristafilósofo transumanista (vertente extropiana), ex CEO da ALCOR Life Extension (2010-2020).
 
Publicado originalmente em: http://www.cryonet.org/cgi-bin/dsp.cgi?msg=22861
 

Seriam os transumanistas democratas? Os transumanistas devem estar comprometidos e conduzidos pela democracia?

Voltemos ao Séc. XVIII, na qual a monarquia era a forma de governamentalidade vigente no período e no Ocidente (Europa). Imaginemos que um determinado grupo de humanistas progressistas de seu período pretendesse relacionar suas visões sobre a condição humana (visões revolucionárias para a época), no entanto, são as melhores ordens políticas para a época. Este grupo poderia fazer a seguinte declaração: “o humanismo moderno do século XVII é uma filosofia monarquista constitucional.” Tal declaração revela como este grupo progressista rejeita modelos ultrapassados, monarquia ilimitada ou teocracia.

Em nossos dias, consideraríamos engraçada uma promessa tão rapidamente ultrapassada. “O que o humanismo tem a ver, em essência, com a monarquia constitucional?”, poderíamos nos questionar. O humanismo defende o valor do progresso. Relacioná-lo ao sistema político de seu tempo (mesmo que fosse o melhor do período) iria confundir os fins (dignidade humana, autonomia individual, etc.) com os meios.

As organizações trans(h)umanistas que se autodeclaram como “transhumanistas democráticos” cometem um erro ainda maior. As vertentes trans(h)umanistas vão mais além, vislumbrando mudanças muito mais drásticas na condição humana. Associar o trans(h)umanismo a qualquer sistema político atual é míope e limitado para alguns. Para outros, pode simplesmente parecer uma tentativa evidente de se posicionar - como dizer aos estadunidenses que o trans(h)umanismo tem tudo a ver com “maternidade e a torta de maçã” ou como dizer aos europeus que o trans(h)umanismo está comprometido com a saúde universal fornecida pelo governo?

Uma organização trans(h)umanista não deve descrever seus comprometimentos básicos como “democráticos”, bem como não deve se considerar como um “grupo da internet” quando, na prática, e em suas aspirações, a organização interage por meio de qualquer meio de comunicação eficaz.

O que significa democracia e por que devemos valorizá-los?

Em um sentido amplo, democracia significa: “governo do povo, pelo povo e para o povo”.

Em outro sentido, a democracia é usada para significar um direito (quase) universal de votar em questões e/ou representantes. Por vezes, a democracia direta é tida como “a mais democrática” do que a democracia representativa.

Um terceiro sentido, inclusive, muito popular, a democracia é compreendida como uma combinação dos procedimentos eleitorais (como no segundo sentido de democracia) e dos procedimentos políticos e jurídicos específicos do país do interlocutor. Nos EUA, tais procedimentos referem-se principalmente às proteções constitucionais das liberdades individuais consagradas na Declaração de Direitos e na Constituição. No caso da Grã-Bretanha, argumenta-se que tal república constitucionalmente limitada existe em grande parte, de uma forma não escrita (no qual a Magna Carta é o principal documento escrito).

Em que medida estes significados se relacionam com as mais variadas filosofias trans(h)umanistas? O primeiro e mais amplo sentido de “democracia” visa eliminar, em princípio, o governo do “povo” por uma oligarquia.

Na prática, muitas pessoas não têm direito a voto (presos, residentes permanentes que pagam impostos, mas não são tidos como cidadãos de alguma nação). Aqueles que possuem o direito ao voto podem não possuir um conhecimento ou alguma motivação suficiente para votar. Aqueles que votam podem não possuir nenhuma opção de candidato, cargo ou um conjunto de políticas que represente suas preferências. O funcionamento complexo das democracias reais (e o envolvimento amplo do governo nas atividades comerciais) faz com que uma pequena porcentagem da população exerça a maioria da influência.

O segundo sentido de democracia possui uma conexão frágil com os valores trans(h)umanistas de autodeterminação, autotransformação e progresso. Uma democracia ausente de limites poderá oprimir grandes segmentos da população. É preciso lembrar que Adolph Hitler (1889-1945) foi eleito democraticamente. O sufrágio universal pouco tem a ver com liberdade (liberdade individual) ou outros valores que são caros aos trans(h)umanistas, principalmente quando votar não custa nada ao eleitor e não requer nenhum conhecimento. Como disse o grande jurista inglês Lord Acton (1834-1902): “É desagradável ser oprimido por uma minoria, mas é ainda pior ser oprimido por uma maioria. Pois existe uma reserva de poder latente nas massas que, se for acionada, a minoria raramente consegue resistir. Mas da vontade absoluta de todo um povo não há apelação, nem redenção, nem refúgio.”

É somente em alguns casos do terceiro sentido de democracia que encontramos uma relação mais forte com o trans(h)umanismo. Uma república constitucionalmente limitada que consegue proteger a liberdade e a responsabilidade defende uma ordem jurídica com duas características essenciais:

Em primeiro lugar, funcionários públicos possuem responsabilidade, pois suas ações oficiais estão sujeitas ao escrutínio público e a críticas irrestritas, e seu mandato oficial pode ser encerrado por aqueles governados por procedimentos gerenciáveis, como eleições populares ou o voto da maioria legislativa.

Em segundo lugar, o direito penal limita-se a proibir questões relacionadas com fraude, roubo e agressão. A lei e a política pública reforçam, em vez de reduzirem, a liberdade individual.

O valor da democracia, no sentido constitucionalmente limitado, reside na sua tentativa de reconhecer a soberania do indivíduo (um governo legítimo requer o consentimento dos governados), na sua intenção de limitar as oportunidades de abuso da autoridade centralizada.

A democracia é, ou deveria ser, um método de governar visando criar e aplicar um sistema de leis que proteja a liberdade de seus cidadãos. Os arranjos democráticos são somente um meio para alcançar o fim de proteger a liberdade individual. Um déspota benevolente poderia alcançar o mesmo fim (talvez até de forma mais eficaz e com menos inconvenientes) sem procedimentos democráticos. Seria dogmático insistir que a democracia seja a única maneira ou a melhor maneira para todas as sociedades, em todos os lugares e em todos os momentos, protegerem sua soberania individual.

Como Richard Taylor (1919-2003) afirmou em seu livro Freedom, Anarchy, and the Law (1973) “As formas e os procedimentos democráticos não são, como se pensa amplamente, preciosos em si mesmos e, portanto, uma meta apropriada para todas as nações. Pelo contrário, quando estabelecidos sobre uma base de ignorância e analfabetismo, eles podem ser profundamente perniciosos. Tais formas democráticas só são desejáveis quando oferecem a promessa de promover a liberdade por meio, entre outras coisas, da criação de leis penais segundo o princípio da liberdade. Caso contrário, são meras formas, sujeitas a todos os abusos e sem qualquer benefício para seu povo. São os fins ou propósitos de uma ordem jurídica que são importantes, não sua forma. Portanto, a crítica a qualquer governo de que ele é antidemocrático em sua forma tem, por si só, pouco peso ou significado” (p. 128-9).

Não é meu objetivo estabelecer uma estrutura abrangente para arranjos democráticos favoráveis aos objetivos e ideais trans(h)umanistas. Em termos dos objetivos desejáveis da democracia, então, irei me limitar a observar que poderíamos conceder extensões do governo democrático além da adesão clara e estrita ao princípio da liberdade para somente um outro objetivo geral: a de garantir os benefícios de uma organização em grande escala que não podem (em nenhum período específico da história) ser garantidos sem coação legal.

É muito fácil abusar do poder governamental (interesses particulares, engano, corrupção, custos ocultos, sede de poder). Qualquer passo além da proteção da liberdade e em direção à promoção do “bem comum” é extremamente perigoso. Tornar a democracia é demasiado fácil (votação direta, eleições muito frequentes) pode tornar os abusos mais frequentes. Incluir governadores no sistema de poder (limites constitucionais ao governo, requisitos de maioria qualificada, etc.) limita-se, em um certo sentido, o “governo pelo povo”, ao mesmo tempo que o protege de um “governo do povo” excessivo.

Não é possível que façamos algo melhor?

Trans(h)umanistas de todas as vertentes concordam o seu compromisso com melhorias contínuas e fundamentais na condição humana. Aqueles que identificam o trans(h)umanismo com a democracia prestam um desserviço ao nos prender a um arranjo historicamente transitório. Winston Churchill (1874-1965) é famoso pelo comentário “a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras formas que já foram experimentadas.” As palavras de Churchill expressavam um racionalismo crítico saudável (uma atitude crucial para o transumanismo extropiano), enquanto enfatizam que os arranjos democráticos não possuem valores intrínsecos, eles possuem os valores de que somente enquanto nos permitem alcançar objetivos comuns, ao mesmo tempo, em que protegem nossa liberdade. Certamente, à medida que nos esforçamos para transcender as limitações biológicas da natureza humana, também podemos melhorar a política dos macacos?

Considere algumas das deficiências das formas existentes de democracia: a democracia indireta/representativa abre diversas oportunidades para interesses especiais. Corrupção e falta de compromisso em traduzir os valores dos cidadãos em políticas públicas.

Os cidadãos elegeram seus representantes somente a cada poucos anos e precisam escolher entre uma gama extremamente limitada de opções, nenhuma das quais representa suas opiniões de forma completa ou precisa. Podemos dizer “sim” ou “não” às questões altamente complexas.

As atividades governamentais, uma vez financiadas, são extremamente difíceis de reduzir ou encerrar. A lógica do governo é a de crescer. Não existe um mecanismo eficaz para desencorajar a votação em projetos e ações indesejáveis, inviáveis, prejudiciais e que restrinjam a liberdade individual.

Os benefícios da ação governamental são concentrados, enquanto os custos são distribuídos, criando uma tendência inerente à expansão da ação governamental e, ao mesmo tempo, piorando a situação geral de todos.

Mesmo sem tentar alterar a estrutura principal desse sistema falho, não é preciso muito para encontrar sugestões para melhorar a democracia. Aqui estão algumas soluções possíveis (não necessariamente recomendadas): retornar a uma adesão mais rigorosa aos limites constitucionais do governo - procedimentos especiais ou maiorias qualificadas necessárias para ampliar os poderes, por exemplo, a Declaração de Direitos dos EUA. Formulário fiscal flexível - amplia as opções dos cidadãos quanto ao uso de seus rendimentos. IFMs (para uma excelente especulação sobre o uso futuro das IFMs, consulte o romance Earthweb (1999), de Marc Steigler). Leis de caducidade usadas mais extensivamente - mantêm um limite no número de leis e exigem que elas sejam reafirmadas periodicamente. Aplicação automatizada das leis.

É claro que os trans(h)umanistas imaginaram mudanças mais profundas no nosso sistema político atual. Independentemente do que cada um de nós pensa sobre propostas específicas, o importante é evitar posturas míopes como as dos “transhumanistas democráticos.”

Algumas reflexões relacionadas, sobre a conexão entre o movimento popular democrático de exigir direitos de todos os tipos e as condições propícias à liberdade a longo prazo.