segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Perguntas sobre o transhumanismo: uma introdução (TRADUÇÃO)

 
Essa divulgação de tradução deve ser compreendida como uma continuação informal da pesquisa de mestrado (2024-2026) em filosofia realizada no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Paraná, intitulado “Nietzsche e o trans(h)umanismo: considerações sobre a equivocada interpretação do conceito de Übermenschsob a orientação da Profa. Dra. Luciana Zaterka (UFABC-UFPR).
Para Débora de Sá Ribeiro Aymoré (in memoriam) e Tawana Tábata.
 

Publicado originalmente na World Transhumanist Association, version 2.1, 2003. Disponível em: https://nickbostrom.com/views/transhumanist.pdf.

Meus agradecimentos ao autor pela autorização de tradução deste artigo (NT).

 


Nick Bostrom2

Macrostrategy Research Initiative



Questões gerais sobre o transhumanismo


O que é transhumanismo?3



O transhumanismo é um modo de pensar sobre o futuro baseado na premissa de que a espécie humana, em seu estado atual, não representa o final do nosso desenvolvimento, mas que representa uma fase inicial, na qual definimos da seguinte maneira:

  1. O transhumanismo é um movimento intelectual e cultural que defende a possibilidade e a viabilidade de alterar fundamentalmente a condição humana por meio da aplicabilidade da razão, sobretudo, a partir do desenvolvimento e da disponibilização ampla de tecnologias que visam extinguir o envelhecimento e que proporcionem o aumento significativo das capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas.

  2. O transhumanismo é um campo de pesquisa sobre os estudos de ramificações, das promessas e dos riscos potenciais das tecnologias que nos permitem superar as limitações humanas significativas, bem como o estudo de questões éticas relacionadas ao desenvolvimento e uso dessas tecnologias.

O transhumanismo deve ser compreendido como uma extensão do humanismo, do qual deriva parcialmente. Os humanistas acreditam que os seres humanos são importantes, que os indivíduos são importantes. De fato, não somos perfeitos, mas podemos melhorar ao promover o pensamento racional, a liberdade, a tolerância, a democracia e a preocupação com os nossos semelhantes. Os transhumanistas concordam com tal perspectiva, contudo, enfatizam o potencial que possuímos para nos transformarmos. Da mesma maneira que utilizamos meios racionais para aprimorar a condição humana e o mundo externo, também podemos utilizar esses meios para aprimorar a nós mesmos, isto é, o organismo humano. Ao procedermos dessa forma, não nos limitamos aos métodos humanísticos tradicionais, como a educação e o desenvolvimento cultural. Poderemos também empregar meios tecnológicos que nos permitirão, em última instância, ir para além do que consideramos como “humano.” Não é a nossa forma humana ou os pormenores da nossa biologia atual que definem o que há de valor em nós, mas sim as nossas aspirações e ideais, as nossas experiências e o tipo de vida que levamos. Para os transhumanistas, o progresso é alcançado quando mais pessoas se tornam mais capazes de moldar a si mesmas, suas vidas e a maneira como se relacionam com os outros, de acordo com seus valores mais profundos.

Os transhumanistas priorizam a autonomia: a capacidade e o direito dos indivíduos de planejar e escolher suas próprias vidas. Obviamente, alguns grupos podem, por diversos motivos, preferir não aproveitar a oportunidade de usar a tecnologia para o aprimoramento de si mesmos. Os transhumanistas pretendem construir um mundo no qual indivíduos autônomos possam escolher permanecer sem aprimoramentos ou optar por aprimoramentos, e no qual essas escolhas sejam respeitadas. Os transhumanistas também defendem a ideia de que o futuro da humanidade deve ser construído com base em princípios éticos e morais. Em um futuro não muito distante, poderemos estar diante de uma perspectiva da inteligência artificial real. Novas variedades de ferramentas cognitivas deverão ser criadas, combinando inteligência artificial com tecnologia de interface. A nanotecnologia molecular tem o potencial de produzir recursos abundantes para todos e nos dar controle sobre os processos bioquímicos de nossos corpos, possibilitando doenças e o envelhecimento indesejado.

Tecnologias como interfaces cérebro-computador e neurofarmacologia têm o potencial de ampliar a inteligência humana, aumentar o bem-estar emocional, aprimorar nossa capacidade de comprometimento constante com projetos de vida com uma pessoa amada ou até mesmo multiplicar a variedade e a riqueza das emoções possíveis. Os transhumanistas, por outro lado, reconhecem que algumas dessas tecnologias emergentes poderiam causar grandes danos à vida humana; até mesmo a sobrevivência da nossa espécie poderia estar em risco. Buscar compreender os perigos e trabalhar para prevenir desastres é uma parte essencial da agenda transhumanista.

O transhumanismo está adentrando na cultura de massa contemporânea, já que um número crescente de cientistas, filósofos com conhecimentos científicos e pensadores sociais está começando a levar a sério a amplitude de possibilidades que o transhumanismo oferece. Uma rede de grupos transumanistas em rápida expansão, com diferenças em termos de orientação e foco, e uma infinidade de grupos de discussão em muitos países ao redor do mundo estão reunidos sob a égide da Associação Transhumanista Mundial (World Transhumanist Association - WTA), uma organização democrática sem fins lucrativos.

A Associação Transhumanista Mundial é uma organização sem fins lucrativos que representa os interesses do movimento transhumanista. A WTA é uma organização democrática, com uma estrutura de governança composta por um conselho de administração, um conselho consultivo e uma assembleia geral.

 

O que é pós-humanismo?

Algumas vezes, é útil falar sobre prováveis seres futuros cujas capacidades básicas excedem tão radicalmente as dos humanos atuais que não são mais inequivocamente humanos pelos nossos padrões atuais. A palavra usada para designar esses seres é “pós-humano.” O “pós-humano” não significa somente qualquer coisa que venha depois da Era humana, também não possui nenhuma relação com o vocábulo “póstumo.” Em particular, não implica que não existam mais seres humanos).

Diversos transhumanistas aspiram seguir caminhos de vida que, mais cedo ou mais tarde, exigirão que se tornem pessoas pós-humanas: eles anseiam por alcançar alturas intelectuais elevadas acima de qualquer gênio humano atual quanto os humanos estão acima de outros primatas; ser resilientes a doenças e imunes ao envelhecimento; possuir rejuvenescimento e vigor ilimitados; exercer controle sobre seus próprios desejos, humores e estados mentais; poder evitar a fatiga, odioso ou irritado com coisas insignificantes; ter uma capacidade ampliada de prazer, amor, apreciação artística e serenidade; experimentar novos estados de consciência aos quais os cérebros humanos atuais não têm acesso.

Os transhumanistas também desejam alcançar uma vida mais longeva e saudável, com uma redução significativa das doenças e acidentes que causam sofrimento e morte. Pode-se supor que o simples fato de viver uma vida indefinidamente prolongada, saudável e ativa levaria qualquer pessoa à pós-humanidade, caso continuasse acumulando memórias, competências e inteligência. A pós-humanidade poderão ser inteligências artificiais inteiramente sintéticas, ou poderão ser consciências transferidas ou poderão ser o resultado de muitas modificações menos significativas, mas progressivamente profundas, em um ser humano biológico.

A última alternativa exigiria provavelmente o redesign do organismo biológico humano usando nanotecnologia avançada ou seu aprimoramento radical usando alguma combinação de tecnologias, como engenharia genética, psicofarmacologia, terapias antienvelhecimento, interfaces neurais, ferramentas avançadas de gerenciamento de informações, medicamentos para o aprimoramento da memória cognitiva humana, computadores vestíveis (wearables) e técnicas cognitivas. Alguns autores escrevem como se, simplesmente alterando nossa autoconcepção, já estaríamos nos tornando ou pudéssemos nos tornar pós-humanos.

Há uma confusão ou deturpação do significado original do termo. As transformações necessárias para nos tornarmos pós-humanos são profundas demais para serem alcançadas somente com uma simples alteração de alguns aspectos da teoria psicológica ou da maneira como pensamos sobre nós mesmos. São necessárias modificações tecnológicas radicais em nossos cérebros e corpos. É dificultoso conceber um indivíduo pós-humano.

Os pós-humanos podem experienciar ou ter preocupações que nem sequer imaginamos ou que possamos compreender, pensamentos que não cabem nos três quilos de tecido neural que usamos para pensar. Alguns pós-humanos poderão considerar proveitoso descartar completamente seus corpos humanos e viver como padrões de informação em vastas redes de supercomputadores. Suas mentes poderão não somente ser mais eficientes que as nossas, mas também empregar diferentes arquiteturas cognitivas ou incluir novas modalidades sensoriais que permitam maior participação em seus ambientes de realidade virtual. É possível que as mentes pós-humanas consigam compartilhar memórias e experiências diretamente, ampliando significativamente a eficiência, a qualidade e os modos pelos quais os pós-humanos possam comunicar-se entre si. Talvez os limites entre as mentes pós-humanas não sejam tão bem definidos quanto os que existem entre os humanos. É possível que os pós-humanos possam se configurar autonomamente, assim como o seu ambiente, de maneiras tão novas e profundas que as especulações sobre as características detalhadas dos pós-humanos e do mundo pós-humano que imaginamos provavelmente sejam obsoletas.

 

O que é transhumanismo?

A utilização contemporânea do termo “transhumano” refere-se a uma forma intermediária entre o humano e o pós-humano. Poderíamos considerar que o uso atual da medicina e da tecnologia da informação nos permite fazer muitas coisas que surpreenderiam os seres humanos da antiguidade, se já não fôssemos transhumanos. A questão é provocativa, mas, em última análise, não é muito significativa; o conceito de transhumano é muito amplo para haver uma resposta definitiva.

O transhumanista é aquele que promove o transhumanismo. Frequentemente, jornalistas e escritores cometem o equívoco de afirmar que todo transhumanista é aquele que “afirma ser transhumano” ou “se autodenomina como transhumano.” Assumir uma filosofia que afirma que no futuro (próximo ou longevo) qualquer pessoa deverá ter a possibilidade de superar os limites humanos atuais não significa, evidentemente, que alguém seja superior ou, de alguma forma, “mais avançado” do que seus semelhantes.

O uso contemporâneo da palavra “transhumano” remonta ao futurista FM-2030 (também conhecido como Fereidoun M. Esfandiary (1930-2000)), que utilizava o termo como a abreviação de “humano em transição.” FM-2030 compreende o transhumano como “a manifestação mais precoce de novos seres evolutivos.” Para FM-2030, próteses, cirurgia plástica, uso intensivo de telecomunicações, uma visão cosmopolita e um estilo de vida de um viajante do mundo, androgenia, reprodução mediada (como a fertilização in vitro), ausência de crenças religiosas e rejeição dos valores familiares tradicionais são algumas das características de transhumanidade. Entretanto, as caracterizações de FM possuem uma validação questionável. Não está claro por que alguém que faz muitas cirurgias plásticas ou tem um estilo de vida nômade está mais perto de se tornar um pós-humano do que o resto de nós (humanos); também não está claro se essas pessoas (pós-humanas) são necessariamente mais admiráveis ou moralmente louváveis do que outras. Na verdade, é perfeitamente possível ser um transhumano ou, nesse caso, um transhumanista e ainda assim assumir a maioria dos valores tradicionais e princípios de conduta pessoal.


Tecnologias e projeções


Biotecnologias, engenharia genética, células-tronco e clonagem – o que são e para que servem?

A biotecnologia é a implementação de técnicas e métodos baseados nas ciências biológicas. Abrange atividades tão diversas como a fabricação de cerveja, a produção de insulina humana, interferon (IFN) e hormônios de crescimento humano (HGH), diagnósticos médicos, clonagem celular e reprodutiva, modificação genética de culturas, bioconversão de resíduos orgânicos e uso de bactérias geneticamente modificadas na limpeza de derramamentos de óleo, pesquisa com células-tronco etc. A engenharia genética é uma área da biotecnologia que se ocupa da alteração direcionada do material genético.

A biotecnologia já tem inúmeras aplicações nos setores industrial, agrícola e médico. É um campo de pesquisa em grande crescimento. A conclusão do Projeto Genoma Humano – um “rascunho” de todo o genoma humano foi publicado no ano 2000 – para todos os efeitos, tal feito foi um marco para a história da tecnociência. Atualmente, as pesquisas pós-projeto genoma humano se concentram na decodificação das funções e interações de todos esses diferentes genes e no desenvolvimento de aplicações com base nessas informações.

Os potenciais benefícios médicos são demasiados para serem elencados; os pesquisadores estão trabalhando em todas as doenças comuns, com vários graus de sucesso. O progresso ocorre não somente no desenvolvimento de medicamentos e diagnósticos, mas também no aperfeiçoamento de instrumentos e metodologias de pesquisa, o que, por sua vez, acelera o progresso. Ao considerar quais são os prováveis desdobramentos a longo prazo, essas melhorias no próprio processo de pesquisa devem ser consideradas.

O Projeto Genoma Humano foi concluído antes do prazo previsto, em grande parte porque as previsões iniciais subestimaram o grau de aperfeiçoamento da tecnologia de instrumentalização durante o percurso do projeto. Ao mesmo tempo, é preciso ter cautela com a propensão de exagerar cada avanço recente. (Lembre-se de todas aquelas descobertas revolucionárias para o tratamento do câncer das quais nunca mais se ouviu falar). Ademais, mesmo nos casos nos quais as promessas iniciais se confirmam, geralmente são necessários dez anos para passar da prova de conceito à comercialização de sucesso.

As terapias genéticas dividem-se em dois grupos: a somática e a germinativa. Na terapia genética somática, utiliza-se normalmente um vírus como vetor para inserir material genético nas células do corpo do receptor. Os efeitos dessas intervenções não são transmitidos às gerações futuras. A terapia genética germinativa é realizada em espermatozoides ou óvulos, ou no zigoto inicial, e pode ser hereditária - a triagem de embriões, na qual os embriões são testados para identificar possíveis anomalias genéticas ou outras características e, em seguida, implantados seletivamente, também pode ser considerada um tipo de intervenção germinativa.

A terapia genética humana, com exceção de algumas formas de triagem embrionária, ainda é experimental. Entretanto, ela é promissora para a prevenção e o tratamento de muitas doenças, bem como para usos na medicina de aprimoramento. O escopo potencial da medicina genética é vasto: praticamente todas as doenças e todas as características humanas, como inteligência, extroversão, conscienciosidade, aparência física, entre outros, estão relacionadas a predisposições genéticas.

Doenças monogênicas, como fibrose cística, anemia falciforme e doença de Huntington, estão entre os primeiros alvos prováveis para intervenção genética. A terapia gênica, que consiste na introdução de genes corretos em células do corpo, pode ser usada para tratar doenças genéticas. Características e distúrbios poligênicos, aqueles em que mais de um gene está implicado, podem surgir posteriormente (embora mesmo as condições poligênicas possam, às vezes, ser influenciadas de forma benéfica ao se direcionar um único gene).

A pesquisa em células-tronco, outra fronteira científica, proporciona grandes expectativas para a medicina regenerativa. As células-tronco são células indiferenciadas (não especializadas) que podem se renovar e dar origem a um ou mais tipos de células especializadas com funções específicas no organismo. Ao cultivar essas células em laboratório ou controlar sua atividade no corpo, é possível cultivar tecidos substitutos para o tratamento de doenças degenerativas, incluindo doenças cardíacas, Parkinson, Alzheimer, diabetes e muitas outras. Também será possível cultivar órgãos inteiros a partir de células-tronco para usar em transplantes. As células-tronco embrionárias parecem ser especialmente versáteis e funcionais, mas também estão em andamento pesquisas com células-tronco adultas e a “reprogramação” de células comuns para poderem ser transformadas novamente em células-tronco com capacidades pluripotentes.

A terminologia “clonagem humana” abrange tanto os usos terapêuticos quanto os reprodutivos. Na clonagem terapêutica, um embrião pré-implantação (também conhecido como “blastocisto” – uma bola oca composta por 30 a 150 células não diferenciadas) é criado por meio da clonagem, a partir do qual células-tronco embrionárias podem ser extraídas e utilizadas para terapia. Como essas células-tronco clonadas são geneticamente idênticas ao paciente, os tecidos ou órgãos que elas produziriam poderiam ser implantados sem provocar uma resposta imunológica do corpo do paciente, superando assim um grande obstáculo na medicina de transplantes. A clonagem reprodutiva, por outro lado, significaria o nascimento de uma criança geneticamente idêntica ao pai clonado: na prática, um gêmeo idêntico mais jovem. Todos reconhecem os benefícios que a cura de doenças específicas traz para os pacientes e suas famílias.

Os transhumanistas enfatizam que, para prolongar seriamente a expectativa de uma vida saudável, é preciso também desenvolver maneiras de desacelerar o envelhecimento ou substituir células e tecidos senescentes. A terapia genética, a pesquisa com células-tronco, a clonagem terapêutica e outras disciplinas da medicina com capacidade de proporcionar esses benefícios merecem prioridade na alocação de recursos financeiros para pesquisa. A biotecnologia pode ser vista como um caso especial das capacidades mais gerais que a nanotecnologia eventualmente proporcionará.

 

O que é nanotecnologia molecular?

 

A nanotecnologia molecular é uma tecnologia de fabricação antecipada que possibilitará construir estruturas tridimensionais complexas de acordo com as especificações atômicas, utilizando reações químicas dirigidas por máquinas não biológicas. Na fabricação molecular, cada átomo seria direcionado para um local selecionado, ligando-se a outros átomos de uma maneira precisamente designada. A nanotecnologia promete nos dar controle completo sobre a estrutura da matéria.

Como a maioria dos objetos que estão ao nosso redor e que nos constituem é composta por átomos e obtém suas propriedades características da disposição desses átomos, a capacidade de controlar a estrutura da matéria em escala atômica tem muitas aplicações. Kim Eric Drexler escreve em Engines of Creation (1986), o primeiro livro sobre nanotecnologia:

Carvão e diamantes, areia e chips de computador, câncer e tecido saudável: ao longo da história, variações no arranjo dos átomos distinguiram o barato do estimado, o doente do saudável. Dispostos de uma maneira, os átomos formam o solo, o ar e a água; dispostos de outra, formam morangos maduros. Dispostos de uma maneira, formam lares e ar fresco; dispostos de outra, formam cinzas e fumaça.

A nanotecnologia, ao possibilitar uma possível reorganização dos átomos de maneira eficaz, nos permitirá transformar carvão em diamantes, areia em supercomputadores e remover poluição do ar e tumores de tecidos saudáveis. No centro da visão de Drexler sobre a nanotecnologia está o conceito de montador. Um montador seria um dispositivo de construção molecular. Ele teria um ou mais braços robóticos submicroscópicos controlados por computador. Os braços poderiam segurar e posicionar compostos reativos de modo a controlar posicionalmente o local preciso em que uma reação química ocorre. Os braços do montador pegariam uma molécula (mas não necessariamente átomos individuais) e a adicionariam a uma peça de trabalho, construindo um objeto atomicamente preciso passo a passo. Um montador avançado poderia criar quase qualquer estrutura quimicamente estável. Em particular, conseguiria fazer uma cópia de si mesmo. Como os montadores poderiam se replicar, seriam fáceis de produzir em grandes quantidades.

Existe um paralelo biológico para o montador: o ribossomo. Os ribossomos são as minúsculas máquinas de construção (com alguns milhares de nanômetros cúbicos de tamanho) em nossas células que fabricam todas as proteínas utilizadas em todos os seres vivos da Terra. Fazem isso agregando aminoácidos, um por um, em sequências precisamente determinadas. Essas estruturas então se dobram para formar uma proteína. O modelo que especifica a ordem dos aminoácidos e, portanto, indiretamente, a forma final da proteína, é chamado de RNA mensageiro. O RNA mensageiro, por sua vez, é determinado pelo nosso DNA, que pode ser visto (de forma um tanto simplista) como uma fita de instruções para a síntese de proteínas. A nanotecnologia generalizará a capacidade dos ribossomos de modo que praticamente qualquer estrutura quimicamente estável possa ser construída, incluindo dispositivos e materiais que não se assemelham a nada na natureza.

A nanotecnologia madura transformará a manufatura em um problema de software. Para construir algo, tudo o que você precisa é de um projeto detalhado do objeto que deseja criar e uma sequência de instruções para sua construção. Matérias-primas raras ou caras geralmente são desnecessárias; os átomos necessários para a construção da maioria dos tipos de dispositivos nanotecnológicos existem em abundância na natureza. A terra, por exemplo, está repleta de átomos úteis.

Trabalhando em grandes equipes, e a de montadores e de nanomáquinas mais especializadas conseguirão construir objetos grandes rapidamente. Consequentemente, embora as nanomáquinas possam ter características na escala de um bilionésimo de metro – um nanômetro – os produtos poderão ser tão grandes quanto veículos espaciais ou até mesmo, em um futuro mais distante, da dimensão de planetas.

Como os montadores poderão se replicar autonomamente, os produtos nanotecnológicos terão custos acessíveis de produção baixos, talvez na mesma ordem de produtos conhecidos, produzidos pela própria maquinaria molecular autorreprodutora da natureza, como lenha, feno ou batatas. Ao garantir que cada átomo esteja corretamente posicionado, os montadores fabricariam produtos de alta qualidade e confiabilidade. As moléculas restantes seriam submetidas a um controle rigoroso, tornando o processo de fabricação extremamente eficaz.

A velocidade com que projetos e listas de instruções para a criação de objetos úteis podem ser desenvolvidos determinará a velocidade do progresso após a criação do primeiro montador por completo. Softwares poderosos (Superinteligência Artificial) para modelagem e projeto molecular acelerarão o desenvolvimento, possivelmente auxiliados por IA de engenharia especializada.

Outro objeto técnico extremamente pertinente para os estágios iniciais após a descoberta do montador é o desmontador, um dispositivo que pode desmontar um objeto enquanto cria um mapa tridimensional de sua configuração molecular. Ao trabalhar em conjunto com um montador, ele poderia funcionar como uma espécie de impressora 3D: um dispositivo para fazer réplicas atomicamente exatas de quase qualquer objeto sólido existente ao seu alcance.

Com a nanotecnologia molecular, será possível a criação de sistemas computacionais compactos que executem pelo menos 10^21 operações por segundo; peças de máquinas de qualquer tamanho feitas de diamante quase impecável; máquinas de reparo de células que podem penetrar nas células e reparar a maioria dos tipos de danos, provavelmente incluindo congelamento. Aparelhos de fabricação e reciclagem pessoais; e sistemas de produção automatizados que podem dobrar o estoque de capital em poucas horas ou menos. Provavelmente, o upload de consciência se tornará realidade.

Um desafio fundamental para a concretização destas perspectivas é o problema de bootstrap: como construir o primeiro montador? Existem caminhos promissores. Uma delas é a de aperfeiçoar a tecnologia atual de sondas proximais. Um microscópio de força atômica pode arrastar átomos individuais ao longo de uma superfície. Dois físicos do Laboratório Almaden da IBM, na Califórnia, ilustraram isso em 1989, quando usaram um microscópio para organizar 35 átomos de xenônio e formar a marca registrada “IBM”, criando o menor logotipo do mundo. As futuras sondas proximais possuirão mais graus de liberdade e a capacidade de coletar e depositar compostos reativos controladamente.

Uma alternativa para o surgimento do primeiro montador é partir da química sintética. Blocos de construção químicos engenhosamente projetados podem ser fabricados para se automontarem em fase de solução, formando peças de máquinas. A montagem final dessas peças pode então ser realizada por uma sonda proximal.

A bioquímica também pode ser uma alternativa. Existe a possibilidade de utilizar ribossomos para criar montadores com capacidades genéricas. Muitas biomoléculas têm propriedades que podem ser exploradas nas fases iniciais da nanotecnologia. A título de exemplo: estruturas interessantes, como ramificações, alças e cubos, foram criadas pelo DNA. O DNA também poderia servir como uma “marca” em outras moléculas, fazendo com que elas se liguem somente a compostos designados que apresentem uma marca complementar, proporcionando assim um certo grau de controle sobre quais complexos moleculares formarão uma solução. Também é possível a combinação dessas abordagens, é claro. O fato de haver múltiplos caminhos promissores aumenta a probabilidade de sucesso.

A possibilidade de montadores com capacidades gerais serem consistentes com as leis da química foi demonstrada por Drexler em seu livro técnico Nanosystems (1992). O livro de Drexler estabeleceu alguns limites para as capacidades de realização de uma nanotecnologia madura. As aplicações médicas da nanotecnologia foram exploradas pela primeira vez em detalhes por Robert A. Freitas Jr. em sua obra monumental Nanomedicine vol. I (1999). Atualmente, a nanotecnologia é um campo de pesquisa em alta. O governo dos EUA gastou mais de 600 milhões de dólares em sua Iniciativa Nacional de Nanotecnologia em 2002. Outras nações possuem programas semelhantes, além disso, o investimento privado ocorre em larga escala. Entretanto, somente uma pequena parte do financiamento é destinada a projetos de relevância direta para o desenvolvimento da nanotecnologia baseada em montadores; a maior parte é para objetivos mais banais e a curto prazo. Embora pareça bastante estabelecido que a nanotecnologia molecular é, em princípio, viável, é mais difícil determinar quanto tempo levará para seu desenvolvimento. Comumente, os especialistas especulam que o primeiro montador será construído por volta do ano 2018, com uma margem de erro de uma década. Também há opiniões divergentes em relação a uma estimativa superior.

Dado que as ramificações da nanotecnologia são diversas, é imperativo que se reflita seriamente sobre este tema agora. Se a nanotecnologia for utilizada de maneira irresponsável, as consequências serão devastadoras. A sociedade precisa estar preparada para o avanço do montador e planejar para minimizar os riscos associados. Diversas organizações estão trabalhando para preparar o mundo para a nanotecnologia, sendo a maior e mais antiga o Foresight Institute.


O que é superinteligência?


Uma entidade superinteligente (ressaltamos ser possível encontrar na literatura especializada o termo ultrainteligência como sinônimo) é aquela que possui a capacidade de superar radicalmente os melhores cérebros humanos em praticamente todos os campos, incluindo criatividade científica, sabedoria geral e habilidades sociais. Também é possível encontrar em alguns trabalhos os termos superinteligência fraca e forte. Uma superinteligência fraca é o que você obteria se pudesse executar um intelecto humano em uma velocidade (frequência) de clock acelerada, como ao enviá-lo para um computador rápido. Se a frequência de clock do upload fosse mil vezes maior que a de um cérebro biológico, ele perceberia a realidade como desacelerada por um fator de mil. Ele teria mil vezes mais pensamentos em um determinado intervalo de tempo do que sua contraparte biológica.

A superinteligência forte, por outro lado, se refere a um intelecto que não é apenas mais rápido que o cérebro humano, mas também mais inteligente em um sentido qualitativo. Não importa o quanto você acelere o cérebro do seu cão, você não obterá o equivalente a um intelecto humano. De maneira análoga, pode haver tipos de inteligência que não são acessíveis nem mesmo os cérebros humanos muito rápidos, dadas as suas capacidades atuais. Algo tão simples como aumentar o tamanho ou a conectividade de nossas redes neurais pode nos dar algumas dessas capacidades. Outras melhorias podem exigir uma reorganização completa de nossa arquitetura cognitiva ou a adição de novas camadas de cognição sobre as antigas. Entretanto, a distinção entre superinteligência fraca e forte pode ser mais confusa do que clara.

Um ser humano com uma vida suficientemente longa, que não cometesse erros e tivesse uma pilha suficiente de papel à mão, poderia, em princípio, calcular qualquer função computável de Turing. (Segundo a tese de Church, a classe de funções computáveis de Turing é idêntica à classe de funções fisicamente computáveis). Embora não seja a maioria, os transhumanistas esperam que a superinteligência seja criada na primeira metade deste século.

Uma superinteligência requer duas coisas: hardware e software. Os fabricantes de chips que planejam a próxima geração de microprocessadores se baseiam em uma regularidade empírica bem conhecida: a Lei de Moore. Formulado originalmente pelo cofundador da Intel, Gordon Moore (1929-2023). Segundo a formulação original proposta por Moore, irá afirmar que o número de transistores em um chip dobrava aproximadamente a cada dois anos. Na contemporaneidade. Geralmente, a “lei” é referida como uma duplicação do poder computacional, ou do poder computacional por dólar. Nos últimos dois anos, o tempo de duplicação oscilou entre 18 meses e dois anos.

O poder de processamento do cérebro humano é difícil de determinar com precisão, mas estimativas comuns variam de 1014 instruções por segundo (IPS) até 1017 IPS ou mais. A estimativa mais baixa, derivada pelo professor de robótica da Carnegie Mellon, Hans Moravec, é baseada no poder de computação necessário para replicar o processamento de sinal realizado pela retina humana e assume um grau significativo de otimização de software. A estimativa de 1017 IPS é obtida multiplicando-se o número de neurônios em um cérebro humano (~100 bilhões) pelo número médio de sinapses por neurônio (~1.000) e pela taxa média de pico (~100 Hz), e assumindo ~10 instruções para representar o efeito em um potencial de ação que atravessa uma sinapse. Uma estimativa ainda maior seria obtida, por exemplo, se alguém supusesse que o processamento funcionalmente relevante e computacionalmente intensivo ocorre nos compartimentos de uma árvore dendrítica.

A maioria dos especialistas, incluindo Moore, acredita que o poder computacional continuará a dobrar a cada 18 meses por pelo menos mais duas décadas. Tal expectativa se baseia nas extrapolações do passado e, em parte, na consideração dos desenvolvimentos que estão em andamento nos laboratórios atualmente. O computador mais rápido em construção é o Blue Gene/L da IBM, que, quando estiver pronto em 2005, deverá executar ~2^1014 IPS. Em outras palavras, é bastante provável que um hardware equivalente ao humano seja alcançado em pouco mais de algumas décadas.

É difícil estimar quanto tempo levará para se resolver o problema de software. Uma possibilidade é que o progresso na neurociência computacional nos ensine sobre a arquitetura computacional do cérebro humano e quais regras de aprendizagem são empregadas. Desta maneira, é possível implementar os mesmos algoritmos em um computador. Nessa abordagem, a superinteligência não seria completamente especificada pelos programadores, mas, em vez disso, teria que crescer aprendendo com a experiência, da mesma forma que um bebê humano.

Uma abordagem alternativa seria usar algoritmos e métodos genéticos da IA clássica. Isso poderia resultar em uma superinteligência que não se assemelhasse a um cérebro humano. No extremo oposto, poderíamos buscar criar uma superinteligência transferindo um intelecto humano e, em seguida, acelerando e aprimorando. O resultado poderia ser uma superinteligência que seja uma versão radicalmente aprimorada de uma mente humana específica.

A chegada da superinteligência representa um golpe duro para uma perspectiva de mundo antropocêntrica. Muito mais importantes do que suas implicações filosóficas, porém, seriam seus efeitos práticos. Criar uma superinteligência pode ser a última invenção que os humanos precisarão fazer, já que as superinteligências poderiam, elas próprias, cuidar do desenvolvimento científico e tecnológico. Elas o fariam com mais eficácia do que os humanos. Logo, a humanidade biológica não seria mais a forma de vida mais inteligente do mundo.

A perspectiva da superinteligência levanta muitas questões e preocupações importantes sobre as quais devemos refletir profundamente antes de seu desenvolvimento real. A questão fundamental é: o que pode ser feito para maximizar as chances de que a chegada da superinteligência nos beneficie em vez de nos prejudicar? O escopo de especialização necessário para abordar essa questão se estende muito além da comunidade de pesquisadores de IA. Neurocientistas, economistas, cientistas cognitivos, cientistas da computação, filósofos, eticistas, sociólogos, escritores de ficção científica, estrategistas militares, políticos, legisladores e muitos outros terão que reunir suas visões se quisermos lidar sabiamente com o que pode ser a tarefa mais importante que nossa espécie terá que enfrentar.

Diversos transhumanistas desejam se modificar para alguma entidade superinteligente. Obviamente, este é um objetivo de longo prazo e incerto, mas pode ser alcançado por meio de upload e aprimoramento subsequente, ou pelo aumento gradual de nossos cérebros biológicos, por meio de futuros nootrópicos (drogas de aprimoramento cognitivo), técnicas cognitivas, ferramentas de TI - por exemplo, computadores vestíveis, agentes inteligentes, sistemas de filtragem de informações, softwares de visualização etc., interfaces de neurocomputador ou implantes cerebrais.


O que é realidade virtual?


A realidade virtual é um ambiente simulado que seus sentidos (humanos) percebem como real. Teatro, ópera, cinema e televisão podem ser considerados precursores da realidade virtual. O grau de imersão - a sensação de “estar lá” - que você experimenta ao assistir televisão é bastante limitado. Assistir futebol na TV não se compara a estar no estádio. Há várias razões para isso: primeiro, mesmo uma tela grande não preenche todo o seu campo visual.

O número de píxeis, mesmo em telas de alta resolução, também é muito pequeno (tipicamente 1280 x 1224 em vez de cerca de 5000 x 5000, como seria necessário em uma tela grande angular impecável). Além disso, a visão 3D é deficiente, bem como o rastreamento de posição e os efeitos de foco (na realidade, a imagem na sua retina muda continuamente conforme sua cabeça e globos oculares se movem). Para atingir maior realismo, um sistema deve, idealmente, incluir mais modalidades sensoriais, como som 3D (por meio de fones de ouvido) para ouvir a multidão gritando e estimulação tátil por meio de uma interface tátil de corpo inteiro, para que você não perca a sensação de ficar sentado em um banco frio e duro por horas.

Um elemento essencial da imersão é a interatividade. Assistir TV é tipicamente uma experiência passiva. A realidade virtual completa, por outro lado, será interativa. Você poderá se movimentar em um mundo virtual, pegar objetos que vê e se comunicar com as pessoas que conhece. Uma experiência real de futebol inclui, crucialmente, a possibilidade de gritar, por exemplo, ofender o árbitro ou os torcedores do time adversário. Para permitir a interatividade, o sistema deve ter sensores que detectem seus movimentos e declarações e ajustem a apresentação para incorporar as consequências de suas ações. Realidades virtuais podem ser adaptadas a realidades físicas. Se você estiver participando de um evento remoto por meio de RV, como no exemplo do espectador imaginário de futebol, é dito que você está virtualmente naquele evento.

Ambientes virtuais também podem ser totalmente artificiais, como desenhos animados, e não ter uma contrapartida específica na realidade física. Outra possibilidade, conhecida como realidade aumentada, é ter sua percepção do entorno imediato parcialmente sobreposta com elementos simulados. Por exemplo, usando óculos especiais, crachás podem ser exibidos sobre as cabeças dos convidados em um jantar, ou você pode optar por ter anúncios publicitários irritantes em outdoors ocultos.

Muitos usuários de RV atuais apresentam o sintoma do “enjoo do simulador”, com sintomas que variam de desconforto e desorientação a dores de cabeça, náuseas e vômitos. O distúrbio do simulador surge porque diferentes sistemas sensoriais fornecem sinais conflitantes. Por exemplo, o sistema visual pode fornecer fortes sinais de auto-movimento, enquanto o sistema vestibular no ouvido interno informa ao cérebro que sua cabeça está parada. Capacetes pesados com telas montadas na cabeça e o tempo de espera entre o dispositivo de rastreamento e a atualização gráfica também podem causar desconforto. Criar uma boa RV que supere esses problemas é tecnicamente desafiador. As realidades virtuais primitivas já existem há algum tempo.

As primeiras aplicações incluíam módulos de treinamento para pilotos e militares. A RV é cada vez mais utilizada em jogos de computador. Em parte, porque a RV exige intensificação da computação, as simulações ainda são bastante rudimentares. À medida que o poder computacional aumenta e sensores, efetores e displays melhoram, a RV pode começar a se aproximar da realidade física em termos de fidelidade e interatividade.

A longo prazo, a RV desbloqueará possibilidades ilimitadas para a criatividade humana. Será possível construir mundos experimentais artificiais, nos quais as leis da física pudessem ser suspensas, que parecessem tão reais quanto a realidade física para os participantes? As pessoas poderiam visitar esses mundos para trabalho, entretenimento ou para socializar com amigos que pudessem morar do outro lado do globo. Uploaders, que pudessem interagir com ambientes simulados diretamente, sem a necessidade de uma interface mecânica, poderiam passar a maior parte do tempo em realidades virtuais.

O que é criogenia? A expectativa para êxito não é pequena?


A criogenia é um procedimento médico experimental que busca salvar vidas colocando em armazenamento de baixa temperatura indivíduos que não podem ser tratadas com os procedimentos médicos que foram declaradas legalmente mortas, na esperança de que o progresso tecnológico eventualmente possibilite reanimá-las.

Para que a criônica esteja em funcionamento hoje, não é necessário que possamos reanimar pacientes criopreservados (o que não é possível). Tudo o que é necessário é que preservemos os pacientes. Basta que preservemos os pacientes em um estado suficientemente intacto para que alguma tecnologia do futuro repare os danos causados pelo congelamento e reverta a causa original da desanimação. Atualmente, somente metade do procedimento criônico completo pode ser examinada hoje; a outra metade só poderá ser realizada em algum momento do futuro (distante ou não). Até o momento, o que se sabe que é possível estabilizar a condição de um paciente resfriando-o em nitrogênio líquido (-196 °C). Uma quantidade considerável de dano celular é causada pelo processo de congelamento. Essa lesão pode ser minimizada seguindo protocolos de suspensão que envolvem a imersão do corpo desanimado com crioprotetores.

A formação de cristais de gelo prejudiciais pode até ser suprimida completamente em um processo conhecido como vitrificação, no qual o corpo do paciente é transformado em uma espécie de vidro. Isso pode parecer um tratamento improvável, mas o propósito da criônica é preservar a estrutura da vida e não os processos da vida, porque os processos da vida podem, em princípio, ser reiniciados, desde que as informações codificadas nas propriedades estruturais do corpo, em particular do cérebro, sejam suficientemente preservadas. Uma vez congelado, o paciente pode ser armazenado por milênios sem praticamente nenhuma degradação adicional do tecido.

Diversos especialistas em nanotecnologia molecular acreditam que, em seu estágio maduro, a nanotecnologia permitirá a reanimação de pacientes criônicos. Portanto, é possível que os pacientes suspensos possam ser reanimados em somente algumas décadas. A incerteza sobre a viabilidade técnica final da reanimação pode muito bem ser ofuscada pela incerteza em outros fatores, como a possibilidade de você desanimar da maneira errada (sendo perdido no mar, por exemplo, ou tendo o conteúdo de informações do cérebro apagado pela doença de Alzheimer), que sua empresa de criônica vá à falência, que a civilização entre em colapso ou que as pessoas no futuro não estejam interessadas em ressuscitá-lo. Portanto, um contrato de criogenia está longe de ser uma garantia de sobrevivência. Como diz um ditado criônico, estar em estado de suspensão criônica é a segunda pior coisa que pode acontecer com você.

Quando consideramos os procedimentos que são rotineiros hoje e como eles poderiam ter sido vistos no século XVIII, podemos começar a ver como é difícil argumentar com base em evidências que a tecnologia médica futura jamais conseguirá reverter os ferimentos que ocorrem durante a suspensão criogênica. Em contrapartida, as chances de um retorno espiritual, se você optar por um dos tratamentos alternativos populares – como cremação ou sepultamento – são zero. Visto sob essa perspectiva, inscrever-se na criônica, o que geralmente é feito tornando uma empresa de criônica uma das beneficiárias do seu seguro de vida, pode parecer uma apólice de seguro razoável. Se não houver êxito, você estaria morto de qualquer maneira. Se funcionar, pode salvar sua vida. Sua vida salva provavelmente seria extremamente longa e saudável, dado o quão avançado o estado da medicina deve ser para reanimá-lo.

Nem todos os trans(h)umanistas se inscreveram para a criônica, mas uma fração significativa considera que, para eles, uma análise de custo-benefício justifica o gasto. Tornar-se um crionicista, no entanto, exige coragem: a coragem de confrontar a possibilidade da própria morte e a coragem de resistir à pressão social da grande parcela da população que atualmente defende valores mortíferos e defende a complacência diante de uma perda contínua e massiva de vidas humanas.


O que é upload?


Upload - às vezes é chamado de “download”, “upload de consciência” ou “reconstrução cerebral” - é o processo de transferência de um intelecto de um cérebro biológico para um computador. Uma maneira de fazer isso pode ser primeiro escanear a estrutura sináptica de um cérebro específico, em seguida, efetuar os mesmos cálculos em um meio eletrônico.

O escaneamento cerebral com uma alta resolução suficiente poderia ser utilizada pela desmontagem do cérebro átomo por átomo por meio da nanotecnologia. Outras abordagens, como a análise de pedaços do cérebro, fatia por fatia, em um microscópio eletrônico com processamento automático de imagens, também foram propostas. Além de mapear o padrão de conexão entre os cerca de 100 bilhões de neurônios, o escaneamento provavelmente também teria que registrar algumas das propriedades funcionais de cada uma das interconexões sinápticas, como a eficácia da conexão e sua estabilidade ao longo do tempo (p. ex., se é potencializada a curto ou a longo prazo).

Moduladores não locais, como concentrações de neurotransmissores e balanços hormonais, também podem precisar ser representados, embora tais parâmetros provavelmente contenham muito menos dados do que a própria rede neuronal. Além de um bom mapa tridimensional do cérebro, o upload exigirá avanços na neurociência para desenvolver modelos funcionais de cada espécie de neurônio (como eles mapeiam estímulos de entrada para potenciais de ação de saída e como suas propriedades mudam em resposta à atividade na aprendizagem). Também será necessário um computador potente para executar o upload e alguma maneira do upload interagir com o mundo externo ou com uma realidade virtual. (Fornecer entrada/saída ou uma realidade virtual para o upload parece fácil em comparação com os outros desafios).

Um método alternativo de upload hipotético ocorreria de forma mais gradual: um neurônio poderá ser substituído por um implante ou por uma simulação em um computador fora do corpo. Em seguida, substituir um outro neurônio etc., até que todo o córtex seja substituído e o pensamento da pessoa seja implementado em hardware inteiramente artificial. (Realizar tal procedimento em todo o cérebro quase certamente exigiria nanotecnologia). Eventualmente, é feita uma distinção entre o upload destrutivo, no qual o cérebro original é destruído no processo, e o upload não destrutivo, no qual o cérebro original é preservado intacto juntamente com a cópia carregada. É uma questão de debate sob quais condições a identidade pessoal seria preservada no upload destrutivo. Muitos filósofos que estudaram o problema acreditam que, pelo menos sob algumas condições, um upload do seu cérebro seria você (o “Eu” original-biológico).

Uma posição amplamente aceita é que você sobrevive enquanto certos padrões de informação forem conservados, como suas memórias, valores, atitudes e disposições emocionais, e enquanto houver continuidade causal, de modo que os estágios iniciais de si mesmo ajudem a determinar os estágios posteriores de si mesmo. As posições divergem quanto à importância relativa desses dois critérios, mas ambos podem ser satisfeitos no caso do upload.

Para a continuidade da personalidade, nessa visão, pouco importa se você (a sua consciência) está em um chip de silício dentro de um computador ou naquele nódulo cinzento e cafona dentro do seu crânio, supondo que ambas sejam sencientes. Casos difíceis e complexos surgem, contudo, se imaginarmos que várias cópias semelhantes são feitas da sua mente carregada. Qual delas é você? Todas são você ou nenhuma delas é você? Quem é o dono da sua propriedade? Quem é casado com o seu cônjuge? Desafios filosóficos, jurídicos e éticos são abundantes e instigantes. Talvez estes se tornem questões políticas acaloradamente debatidas ainda neste século.

Um equívoco comum sobre os uploads é que eles seriam necessariamente “desencarnados” e que isso significaria que suas experiências seriam empobrecidas. Conforme essa visão, fazer upload seria o escapismo definitivo, algo que somente neuróticos odiadores de corpos poderiam se sentir tentados a fazer. Mas a experiência de um upload poderia, em princípio, ser idêntica à de um ser humano biológico.

Um upload poderia ter um corpo virtual (simulação) que proporcionasse as mesmas sensações e as mesmas possibilidades de interação que um corpo não simulado. Com a realidade virtual avançada, os uploads poderiam desfrutar da comida e bebida, e sexo via upload poderia ser tão gloriosamente caótico quanto se desejasse. E os uploads não precisariam se limitar à realidade virtual: eles poderiam interagir com pessoas de fora e até mesmo alugar corpos robóticos para trabalhar ou explorar a realidade física. As inclinações pessoais em relação ao upload variam. Diversos trans(h)umanistas possuem uma atitude pragmática: se desejam ou não fazer upload depende das condições precisas em que viveriam como uploaders e das alternativas disponíveis. - Alguns transhumanistas também podem duvidar da possibilidade de fazer upload. Os benefícios de ser um uploader incluem:

  • Os uploads não estariam sujeitos à senescência biológica.

  • Cópias de segurança de uploads podem ser criadas regularmente para que você possa ser reiniciado se algo ruim acontecer. – Portanto, sua vida útil seria potencialmente tão longa quanto a do universo.

  • Você poderá viver muito mais economicamente como um upload, já que você não precisaria de comida física, moradia, transporte etc.

  • Se você estivesse trabalhando em um computador rápido, você pensaria mais rápido do que uma implementação biológica. P. ex., se você estivesse usando um computador mil vezes mais potente que um cérebro humano, pensaria mil vezes mais rápido - e o mundo externo lhe pareceria mil vezes mais lento. - Assim, você vivenciaria um tempo mais subjetivo e viveria mais em um determinado dia.

  • Você poderá viajar na velocidade da luz como um padrão de informação, o que poderia ser conveniente em uma era futura de assentamentos espaciais em larga escala.

  • Aprimoramentos cognitivos radicais provavelmente seriam mais fáceis de implementar em um upload do que em um cérebro orgânico.

  • O upload deve funcionar para pacientes criônicos, desde que seus cérebros sejam preservados em estado suficientemente intacto.

  • Os uploads podem ser reproduzidos extremamente rápido (simplesmente fazendo cópias deles mesmos). Isso implica que os recursos podem se tornar escassos muito rapidamente, a menos que a reprodução seja regulamentada.


O que é singularidade tecnológica?


Alguns pensadores conjecturam que haverá um ponto no futuro no qual o ritmo do progresso tecnológico se tornará tão rápido que a curva de progresso se tornará quase vertical. Em um período muito curto (meses, dias ou mesmo algumas horas), o mundo poderá ser transformado de forma quase irreconhecível. Esse ponto hipotético é chamado de singularidade (ou singularidade tecnológica).

A razão mais provável para uma singularidade seria a criação de alguma forma de inteligência superior à humana, capaz de se aprimorar rapidamente. Comumente, o termo “singularidade” é associado a Vernor Vinge (1944-2024), que o considera um dos cenários mais prováveis para o futuro. (Insinuações anteriores da mesma ideia podem ser encontradas, por exemplo, em John von Neumann (1907-1957), parafraseado por Stanisław Ulam (1908-1984) em 1958, e em Irving John Good (1916-2009) em 1965). Desde que evitemos a destruição da civilização, Vinge acredita que uma singularidade provavelmente ocorrerá como consequência de avanços na inteligência artificial, grandes sistemas de computadores em rede, integração computador-humano ou alguma outra forma de amplificação da inteligência. O aprimoramento da inteligência, nesse cenário, em algum momento levará a um ciclo de feedback positivo: sistemas mais inteligentes podem projetar sistemas ainda mais inteligentes e podem fazê-lo mais rapidamente do que os projetistas humanos originais. Esse efeito de feedback positivo seria poderoso o suficiente para impulsionar uma explosão de inteligência que poderia rapidamente levar ao surgimento de um sistema superinteligente com habilidades superiores.

A hipótese da singularidade às vezes é associada à afirmação de que é impossível prevermos o que vem depois da singularidade. Uma sociedade pós-singularista (pós-humana ou inumana) pode ser tão alienígena que nada podemos saber sobre ela. Uma exceção podem ser as leis básicas da física, mas mesmo aí, às vezes, sugere-se que pode haver leis não descobertas (por exemplo, ainda não temos uma teoria aceita da gravidade quântica) ou consequências mal compreendidas de leis conhecidas que poderiam ser exploradas para permitir coisas que normalmente consideraríamos fisicamente impossíveis, como criar buracos de minhoca atravessáveis, gerar novos universos “porões” ou viajar para trás no tempo. Contudo, a imprevisibilidade é logicamente distinta da abrupta evolução e precisaria ser argumentada separadamente. Alguns transhumanistas divergem quanto à probabilidade que atribuem ao cenário de Vinge. Quase todos os que acreditam que haverá uma singularidade acreditam que ela acontecerá neste século, e muitos acreditam ser provável que aconteça dentro de algumas décadas.


Política e sociedade


As novas tecnologias beneficiarão somente os ricos e poderosos?


É possível argumentar que o cidadão médio de um país desenvolvido qualquer, hoje, possui um padrão de vida superior ao que qualquer rei há quinhentos anos. É possível que o rei tenha tido uma orquestra da corte, mas hoje, qualquer pessoa pode adquirir um CD player que lhe permite ouvir os melhores músicos de qualquer período histórico a qualquer momento do seu dia. Dando prosseguimento com a metáfora do rei, no passado, quando um rei tinha pneumonia, a probabilidade de ele falecer era alta. Hoje, se uma pessoa contrair a doença, pode fazer um tratamento com antibióticos. Um rei pode ter uma carruagem com seis cavalos brancos, hoje, uma pessoa qualquer pode ter um veículo mais rápido e confortável. Ainda sobre o estilo de vida na contemporaneidade, essa mesma pessoa deve ter em casa uma televisão, chuveiro com água quente, acesso à internet, consegue se comunicar com familiares e amigos distantes por meio de um telefone ou por e-mail, assim como possui conhecimento maior sobre o planeta, a natureza e o cosmos do que qualquer monarca do medievo.

Com o passar do tempo, o padrão típico das novas tecnologias é que elas se tornam mais baratas. Por exemplo, na medicina, procedimentos experimentais geralmente estão disponíveis somente para participantes de pesquisas e para os muito ricos. À medida que esses procedimentos se tornam rotineiros, os custos caem e mais pessoas podem arcar com eles. Mesmo nos países mais pobres, milhões de pessoas se beneficiaram de vacinas e penicilina. No setor de eletrodomésticos, o preço de computadores e outros dispositivos que eram de ponta há somente alguns anos cai vertiginosamente à medida que novos modelos são lançados.

É indiscutível que todos possam se beneficiar enormemente com o aprimoramento da tecnologia. Entretanto, de início, as principais vantagens serão para aqueles que possuem os recursos, as habilidades e a disposição para aprender a usar novas ferramentas. É possível especular que algumas tecnologias podem causar o aumento das desigualdades sociais. A título de exemplo: se alguma forma de amplificação da inteligência se tornar disponível, ela pode, a princípio, ser tão cara que somente os mais ricos podem pagar. O mesmo pode acontecer quando aprendemos a aprimorar geneticamente os nossos filhos.

Aqueles que já estão bem de vida se tornariam mais inteligentes e ganhariam ainda mais dinheiro. Tal fenômeno não é inédito, pais ricos enviam seus filhos para escolas melhores e facilitam por meio de recursos como conexões pessoais e tecnologia da informação que podem não estar disponíveis para os menos privilegiados. Tais vantagens levam a maiores rendimentos mais tarde na vida e contribuem para o aumento das desigualdades sociais.

Procurar proibir a inovação tecnológica com base nesses argumentos é um equívoco. Se uma sociedade considera as desigualdades existentes inaceitáveis, uma solução mais sensata seria a tributação progressiva e a prestação de serviços financiados pela comunidade, como educação, acesso à TI em bibliotecas públicas, aprimoramentos genéticos cobertos pela previdência social, e assim por diante. O progresso econômico e tecnológico não é um jogo de soma zero; é um jogo de soma positiva. O progresso tecnológico não resolve o velho e difícil problema político de redistribuição de renda que é desejável, mas pode aumentar significativamente o tamanho do bolo a ser dividido.


O transhumanismo defende a eugenia?


Ao propor uma cronologia histórica sobre o advento do movimento eugenista e do vocábulo, é possível afirmar que se trata de um fenômeno pseudocientífico anterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) no continente europeu e nos Estados Unidos para esterilizar de maneira involuntária e violenta os denominados como “geneticamente inaptos” e incentivar a reprodução dos geneticamente favorecidos (superiores). Tais ideais são totalmente contrários aos princípios humanísticos e científicos tolerantes do transhumanismo. Além de condenar a coerção envolvida em tais políticas, os transhumanistas rejeitam veementemente os pressupostos racialistas e classistas em que se baseavam, a noção de que melhorias eugênicas poderiam ser alcançadas em um prazo praticamente significativo por meio da reprodução humana seletiva.

Os trans(h)umanistas defendem os princípios da autonomia corporal e da liberdade procriativa. Os pais devem possuir o direito de escolher por si mesmos se querem se reproduzir, como se reproduzir e quais métodos tecnológicos usar para sua reprodução. Recorrer ao uso da medicina genética ou da triagem embrionária para aumentar a probabilidade de uma criança saudável, feliz e multitalentosa é uma aplicação responsável e justificável da liberdade reprodutiva parental. Além disso, uma possibilidade argumentativa é que os pais possuem a responsabilidade moral de fazer uso desses métodos, se partirmos do pressuposto de que tais métodos sejam eficazes e seguros. Desta maneira, seria um erro se os pais falharem no seu dever de obter o melhor atendimento médico disponível para seu filho doente, seria errado não tomar precauções razoáveis para garantir que a futura criança seja o mais saudável possível. Contudo, este é um julgamento moral que é melhor deixar para a consciência individual em vez de imposto por lei.

Somente em casos extremos e incomuns a violação da liberdade procriativa pode ser justificada. Por exemplo, se um futuro pai hipotético deseja realizar uma modificação genética que fosse claramente prejudicial à criança ou que restringisse drasticamente suas opções na vida, então esse futuro pai deve ser impedido por lei de fazê-lo. Tal situação é análoga ao Estado assumindo a custódia de uma criança em situações de negligência parental grave ou abuso infantil.

Esta defesa da liberdade procriativa é compatível com a visão de que o Estado e as instituições de caridade podem subsidiar a saúde pública, os cuidados pré-natais, o aconselhamento genético, a contracepção, o aborto e as terapias genéticas para os pais poderem tomar decisões reprodutivas livres e informadas que contribuirão na redução de deficiências nas futuras gerações. É possível que alguns ativistas da área da deficiência chamariam tais políticas de eugenistas, mas a sociedade pode ter um interesse legítimo em saber se as crianças nascerão saudáveis ou deficientes, o que a leva a subsidiar o nascimento de crianças saudáveis, sem efetivamente proibir ou impor modificações genéticas específicas.

Ao debater sobre os aspectos morais dos aprimoramentos genéticos, é útil estar informado sobre a distinção entre aprimoramentos que são intrinsecamente benéficos para a criança ou a sociedade, por outro lado, os aprimoramentos que fornecem uma vantagem meramente posicional para a criança. A título de exemplo, saúde, habilidades cognitivas e bem-estar emocional são valorizados pela maioria das pessoas por si mesmos. Ou seja, simplesmente é bom ser saudável, feliz e conseguir pensar bem, independentemente de quaisquer outras vantagens que advenham da posse desses atributos. Em contraste, características como atratividade, destreza atlética, altura e assertividade parecem conferir benefícios que são principalmente posicionais, ou seja, beneficiam uma pessoa tornando-a mais competitiva (por exemplo, em esportes ou como um parceiro em potencial), às custas daqueles com quem ela competirá, que sofrem uma desvantagem correspondente com seu aprimoramento. Aprimoramentos que possuem vantagens posicionais devem ser minimizados, enquanto aprimoramentos que criam benefícios líquidos devem ser incentivados.

Costuma-se afirmar que o uso de tecnologias de escolha germinal levaria a uma uniformidade indesejável da população. Em algum grau, a uniformidade é desejável e esperada se conseguirmos tornar todos congenitamente saudáveis, fortes, inteligentes e atraentes. Uma minoria argumentaria que deveríamos preservar a fibrose cística devido à sua contribuição para a diversidade. Mas outros tipos de diversidade certamente florescerão em uma sociedade com escolha germinal, especialmente quando os adultos conseguirem adaptar seus próprios corpos de acordo com seus próprios gostos estéticos. Provavelmente, a maioria dos pais do continente asiático escolherá ter filhos com características asiáticas, e se alguns pais escolhem genes que incentivam o atletismo, outros podem escolher genes que se correlacionam com a habilidade musical.

É incerto que o aprimoramento genético da linha germinativa tenha um grande impacto no mundo. Levará no mínimo quarenta ou cinquenta anos para as tecnologias necessárias serem desenvolvidas, testadas e amplamente aplicadas, e para que um número significativo de indivíduos aprimorados nasça e atinja a idade adulta. Antes que isso aconteça, métodos mais eficientes e diretos para que os indivíduos se aprimorem provavelmente estarão disponíveis, com base em nanomedicina, inteligência artificial, uploading ou terapia genética somática. - A eugenia tradicional, baseada na seleção de quem pode se reproduzir, teria ainda menos chances de evitar a obsolescência preventiva, pois levaria muitas gerações para implementar seus supostos aprimoramentos.


Não seriam as tecnologias do futuro arriscado? Ela não poderiam ser a causa da nossa própria extinção?4


Objetivamente, a resposta é sim. Partindo deste pressuposto, é necessário e urgente analisar os riscos antes que se materializem e tomar medidas para reduzi-los. A biotecnologia, a nanotecnologia e a inteligência artificial representam riscos graves, especialmente de acidentes e abusos. É possível distinguir riscos suportáveis ou limitados, como acidentes de automóvel, colapsos de reatores nucleares, poluentes cancerígenos na atmosfera, inundações, erupções vulcânicas e assim por diante, assim como os riscos existenciais – fenômenos/eventos que causariam a extinção da vida inteligente ou prejudicariam permanentemente e drasticamente seu potencial. Embora riscos suportáveis ou limitados possam ser sérios – e possam ser fatais para as pessoas imediatamente expostas – eles são recuperáveis; não destroem as perspectivas de longo prazo da humanidade na totalidade.

A humanidade possui uma longa experiência com riscos suportáveis e uma variedade de mecanismos institucionais e tecnológicos é empregada para reduzir sua incidência. Riscos existenciais são um tipo diferente de fera. Ao longo da história humana, não houve riscos existenciais significativos, ou pelo menos nenhum sobre o qual nossos ancestrais pudessem fazer algo. Por definição, até o momento, não ocorreu nenhum desastre existencial. Ou seja, devido à não ocorrência de tais fenômenos, podemos estar despreparados para compreender e gerenciar esse novo tipo de risco. Além disso, a redução do risco existencial é um bem público global (todos se beneficiariam necessariamente dessas medidas de segurança, independentemente de contribuírem ou não para seu desenvolvimento), criando um potencial problema de aproveitamento, ou seja, uma falta de incentivos egoístas suficientes para as pessoas fazerem sacrifícios para reduzir um risco existencial.

Alguns transhumanistas reconhecem que deve haver uma moral que promova a redução da efetivação destes riscos existenciais. Os riscos existenciais mais graves que enfrentaremos nas próximas décadas serão de nossa própria criação, nos quais destacamos os usos destrutivos da nanotecnologia, isto é, a partir da liberação acidental de um nanorrobô autorreplicante no ambiente, onde ele destruiria toda a biosfera, é conhecido como o “cenário da gosma cinza.” Como a nanotecnologia molecular usará a montagem posicional para criar estruturas não biológicas e abrir novas vias de reações químicas, não há razão para supor que os freios e contrapesos ecológicos que limitam a proliferação de autorreplicantes orgânicos também conteriam nanorreplicantes. Contudo, embora a gosma cinza seja certamente uma preocupação legítima, salvaguardas de engenharia relativamente simples foram descritas que tornariam a probabilidade de tal acidente quase arbitrariamente pequena (Foresight 2002).

Mais grave ainda é a ameaça representada por nanorrobôs deliberadamente projetados para serem destrutivos. Um grupo terrorista ou mesmo um psicopata solitário, tendo obtido acesso a essa tecnologia, poderia causar danos extensos ou até mesmo aniquilar a vida na Terra, a menos que tecnologias defensivas eficazes tivessem sido desenvolvidas previamente (Center for Responsible Nanotechnology 2003).

Uma corrida armamentista instável entre Estados nanotecnológicos também poderia resultar em nossa eventual ruína (Gubrud, 2000). Os esforços de não proliferação serão complicados pelo fato de a nanotecnologia não exigir matérias-primas difíceis de obter ou grandes fábricas, e pela funcionalidade de uso duplo de muitos dos componentes básicos de uma nanomáquina destrutiva. Embora um sistema de defesa nanotecnológico - que atuaria como um sistema imunológico global capaz de identificar e neutralizar replicadores invasores - pareça possível em princípio, ele pode se revelar mais difícil de construir do que um simples replicador destrutivo. Isso poderia criar uma brecha de vulnerabilidade global entre a potencial criação de replicadores perigosos e o desenvolvimento de um sistema imunológico eficaz.

É fundamental que os nanomontadores não caiam em mãos erradas durante esse período. Também há a possibilidade de uma guerra biológica. O progresso na engenharia genética levará não somente a melhorias na medicina, mas também à capacidade de criar armas biológicas mais eficazes. É estarrecedor considerar o que teria acontecido se o HIV fosse tão contagioso quanto o vírus que causa o resfriado comum.

A engenharia genética desses micróbios poderá em breve se tornar possível para um número crescente de pessoas. Se a sequência de RNA de um vírus for publicada na internet, qualquer pessoa com algum conhecimento básico e acesso a um laboratório poderá capaz de sintetizar o vírus real a partir dessa descrição. Uma demonstração dessa possibilidade foi oferecida por uma pequena equipe de pesquisadores da Universidade de Nova York em Stony Brook em 2002, que sintetizou o vírus da poliomielite (cuja sequência genética está na internet) do zero e o injetou em camundongos que posteriormente ficaram paralisados e pereceram.

Inteligência artificial. Nenhuma ameaça à existência humana possui maior representatividade do que os sistemas de IA atuais ou seus sucessores a curto prazo. Mas se um dia a superinteligência for criada, será de suma importância que ela seja dotada de valores éticos favoráveis ao ser humano. Uma superinteligência projetada de forma imprudente ou maliciosa, com objetivos que equivalem à indiferença ou hostilidade ao bem-estar humano, poderia causar nossa extinção. Outra preocupação é que a primeira superinteligência, que pode se tornar muito poderosa devido à sua capacidade superior de planejamento e às tecnologias que poderia desenvolver rapidamente, seria construída para servir somente a uma única pessoa ou a um pequeno grupo – por exemplo: os seus programadores ou a corporação que a encomendaram. Embora esse cenário possa não implicar a extinção de literalmente toda a vida inteligente, ele constitui, no entanto, um risco existencial, porque o futuro que resultaria seria um em que grande parte do potencial da humanidade teria sido permanentemente destruída e no qual, no máximo, uma pequena fração de todos os humanos poderia desfrutar dos benefícios da pós-humanidade.

Dando sequência às possibilidades catastróficas, há a possibilidade de uma possível guerra nuclear. Atualmente, provavelmente os arsenais nucleares ainda não são suficientes para causar a extinção total da espécie humana e das demais espécies não humanas. Entretanto, as futuras corridas armamentistas podem resultar em acúmulos ainda maiores. Ainda sobre a possibilidade de uma guerra nuclear, é plausível que uma guerra nuclear colapse a civilização moderna, e não é totalmente certo que os sobreviventes conseguiriam reconstruir uma civilização capaz de sustentar o crescimento e o desenvolvimento tecnológico. Por último, deve ser considerado o acontecimento de algum fenômeno desconhecido, isto é, todos os riscos acima eram desconhecidos há um século e vários deles só se tornaram claramente compreendidos nas últimas duas décadas. É possível existirem ameaças futuras das quais ainda não tomamos conhecimento ou até mesmo imagináveis.

Ponderar a probabilidade total de que algum desastre existencial nos acabe antes que tenhamos a oportunidade de nos tornarmos pós-humanos pode ser feito por vários métodos diretos ou indiretos. Embora qualquer estimativa inclua inevitavelmente um grande fator subjetivo, parece que definir a probabilidade em menos de 20% seria excessivamente otimista, e a melhor estimativa pode ser consideravelmente maior. Mas, dependendo das ações que tomarmos, esse número pode progredir ou regredir.


Se estas tecnologias representam um alto risco, elas não deveriam ser desestimuladas ou proibidas? Quais as procedências para que tais riscos permaneçam baixas?


A posição de que devemos abandonar a pesquisa em robótica, engenharia genética e nanotecnologia foi defendida em um artigo escrito pelo cientista da computação Bill Joy (2002). No artigo em questão, Joy argumentou e defendeu que algumas das aplicações futuras dessas tecnologias são tão perigosas que pesquisas nessas áreas devem ser interrompidas imediatamente. Parte da postura de Joy neste artigo é devido ao seu tecno-otimismo do passado (passado recente) – Joy foi designer de software e cofundador da Sun Microsystems, o seu artigo publicado na revista Wired atraiu grande atenção do público.

Diversas objeções ao artigo de Joy apontaram que não há nenhuma perspectiva realista para a proibição mundial dessas tecnologias; ou seja, essas tecnologias representam um número considerável de potenciais benefícios dos quais não gostaríamos de abrir mão; além disso, as pessoas mais pobres podem ter maior tolerância ao risco em desenvolvimentos que poderiam melhorar sua condição e que uma proibição pode, na verdade, aumentar os perigos em vez de reduzi-los, tanto por atrasar o desenvolvimento de aplicações protetoras dessas tecnologias quanto por enfraquecer a posição daqueles que optam por cumprir a proibição em relação a grupos menos escrupulosos que a desafiam.

Uma alternativa mais promissora do que uma proibição generalizada da tecnologia é o desenvolvimento tecnológico diferencial, no qual buscaríamos influenciar a sequência de desenvolvimento das tecnologias. Por meio desta abordagem, retardaríamos o desenvolvimento de tecnologias nocivas e suas aplicações, enquanto aceleraríamos o desenvolvimento de tecnologias benéficas, especialmente aquelas que oferecem proteção contra as nocivas.

Para as tecnologias com aplicações militares decisivas, a menos que possam ser banidas de forma verificável, podemos buscar garantir que sejam desenvolvidas em um ritmo mais acelerado em países que consideramos responsáveis do que naqueles que vemos como potenciais inimigos. - A verificabilidade e a aplicabilidade de uma proibição podem mudar ao longo do tempo, como resultado de desenvolvimentos no sistema internacional ou na tecnologia de vigilância. No caso da nanotecnologia, a sequência desejável de desenvolvimento é que os sistemas imunológicos nanotecnológicos e outras medidas defensivas sejam implantados antes que capacidades ofensivas se tornem disponíveis para muitas potências independentes.

Uma vez que uma tecnologia é compartilhada por muitos, torna-se extremamente difícil impedir sua proliferação. No caso da biotecnologia, devemos buscar promover a pesquisa em vacinas, medicamentos antivirais, equipamentos de proteção, sensores e diagnósticos, e atrasar o máximo possível o desenvolvimento e a proliferação de agentes de guerra biológica e os meios de sua militarização. Para a inteligência artificial, um risco sério surgirá somente quando as capacidades se aproximarem ou superarem as dos humanos. Nesse ponto, deve-se buscar promover o desenvolvimento de IA amigável e prevenir sistemas de IA hostis ou não confiáveis.

A superinteligência é um exemplo de tecnologia que parece digna especialmente de ser promovida, por poder ajudar a reduzir uma ampla gama de ameaças. Sistemas superinteligentes poderiam nos aconselhar sobre políticas e tornar a curva de progresso da nanotecnologia mais íngreme, encurtando assim o período de vulnerabilidade entre o desenvolvimento de nanoreplicadores perigosos e a implantação de defesas eficazes. Se tivermos escolha, é preferível que a superinteligência seja desenvolvida antes da nanotecnologia avançada, pois ela poderia ajudar a reduzir os riscos da nanotecnologia, mas não o contrário. Outras tecnologias com uso massivo na redução de riscos incluem o aumento da inteligência, a tecnologia da informação e a vigilância.

Essas tecnologias podem nos tornar mais inteligentes individual e coletivamente ou tornar a aplicação da regulamentação necessária mais viável. Portanto, há um forte argumento à primeira face para buscar essas tecnologias o mais vigorosamente possível. Desnecessário dizer que também devemos promover desenvolvimentos não tecnológicos que sejam benéficos em quase todos os cenários, como a paz e a cooperação internacional.

Ao confrontarmos a hidra de riscos existenciais, limitados e suportáveis, que nos ameaçam do futuro, é improvável que uma solução mágica ofereça proteção adequada. Em vez disso, será necessário um arsenal de contramedidas para podermos lidar com os diversos riscos em múltiplos níveis. O primeiro passo para lidar com um risco é reconhecer sua existência. Mais pesquisas são necessárias, e os riscos existenciais, em particular, devem ser destacados devido à sua gravidade e à natureza especial dos desafios que representam. Surpreendentemente, poucos trabalhos foram realizados nessa área, por exemplo, Leslie (1996), Bostrom (2002) e Rees (2003) para algumas explorações preliminares. As dimensões estratégicas de nossas escolhas devem ser consideradas, visto que algumas das tecnologias em questão têm importantes ramificações militares. Além de estudos acadêmicos sobre as ameaças e suas possíveis contramedidas, a conscientização pública deve ser ampliada para permitir um debate mais informado sobre nossas opções de longo prazo. Alguns dos riscos existenciais menores, como o impacto apocalíptico de um asteroide ou o cenário altamente especulativo envolvendo algo como a perturbação de um estado de vácuo metaestável em algum experimento futuro com acelerador de partículas, poderiam ser substancialmente reduzidos a um custo relativamente pequeno.

Programas para alcançar esse objetivo – por exemplo, um sistema de detecção precoce de objetos perigosos próximos à Terra em potencial rota de colisão com a Terra, ou encomendar a revisão antecipada por pares de experimentos planejados de física de altas energias – provavelmente são economicamente viáveis. Contudo, esses riscos menores não devem desviar a atenção da preocupação mais séria suscitada por desastres existenciais mais prováveis.

Considerando o quão superabundantes os benefícios humanos da tecnologia podem ser, em última análise, importa menos que obtenhamos todos esses benefícios em sua forma mais otimizada, e mais que os obtenhamos. Para muitos propósitos práticos, faz sentido adotar uma regra no qual devemos agir de forma a maximizar a probabilidade de um resultado aceitável. Resultado, aquele em que alcançamos alguma realização (razoavelmente ampla) do nosso potencial; ou, para colocar em termos negativos, que devemos agir de modo a minimizar o risco existencial líquido.


Não deveríamos nos concentrar nos problemas atuais, reduzir as injustiças sociais, como a pobreza, em vez de dedicar os nossos recursos a um planejamento de um futuro “distante”?

Devemos fazer ambas as coisas: concentrar-nos problemas atuais nos deixaria despreparados para os novos desafios que encontraremos. Diversas tecnologias e tendências que os transhumanistas discutiam do ponto de vista teórico (ou especulativo) já se tornaram materializadas. A biotecnologia e a tecnologia da informação transformaram amplos setores de nossas economias.

A importância de uma ética transhumanista se manifesta em questões contemporâneas como pesquisa com células-tronco, cultivos geneticamente modificados, terapia genética humana, triagem de embriões, decisões sobre o fim da vida, medicina de aprimoramento, mercados de informação e prioridades de financiamento de pesquisa. A importância das ideias transhumanistas tende a aumentar à medida que as oportunidades de aprimoramento humano proliferam. As tecnologias transhumanas tendem a funcionar bem em conjunto e a criar sinergias com outros setores da sociedade humana. Um fator importante, por exemplo, para a expectativa de vida saudável é o acesso a bons cuidados médicos. Aprimoramentos médicos prolongarão a expectativa de vida saudável e ativa – a “expectativa de saúde” – e a pesquisa sobre a extensão da expectativa de vida beneficiará os cuidados comuns. O trabalho de amplificação da inteligência tem aplicações óbvias na educação, na tomada de decisões e na comunicação. Melhores comunicações facilitariam o comércio e o entendimento entre as pessoas. À medida que mais e mais pessoas têm acesso à internet e conseguem receber transmissões de rádio e televisão via satélite, ditadores e totalitários.

Os regimes podem ter mais dificuldade em silenciar vozes dissidentes e controlar o fluxo de informações em suas populações. E com a internet e o e-mail, as pessoas descobrem que podem facilmente formar amizades e parcerias comerciais em países estrangeiros. Uma ordem mundial caracterizada pela paz, pela cooperação internacional e respeito pelos direitos humanos aumentaria muito as chances de que as aplicações potencialmente perigosas de algumas tecnologias futuras possam ser controladas e liberaria recursos atualmente gastos em armamentos militares, alguns dos quais poderiam então, esperançosamente, ser desviados para melhorar a condição dos pobres. A fabricação nanotecnológica promete ser economicamente lucrativa e ambientalmente correta. Os transhumanistas não têm uma solução patenteada para alcançar esses resultados, assim como ninguém mais, mas a tecnologia tem um papel enorme a desempenhar. É possível argumentar que a maneira mais eficiente de contribuir para melhorar o mundo é participando do projeto transhumanista. Isso ocorre porque os riscos são enormes – todo o futuro da humanidade depende de como administraremos as próximas transições tecnológicas – e porque relativamente poucos recursos estão sendo dedicados atualmente aos esforços transhumanistas. Mesmo que uma pessoa a mais possa fazer uma diferença significativa aqui.


A longevidade não irá agravar os problemas de superpopulação?


O aumento populacional é um problema que, em última análise, teríamos que enfrentar mesmo que o prolongamento saudável da vida não acontecesse. Deixar as pessoas perecerem é uma solução inaceitável. Uma população grande não deve ser vista simplesmente como um problema. Outra maneira de encarar o mesmo fato é que isso significa que muitas pessoas agora desfrutam de vidas que não teriam se a população fosse menor. Poderíamos perguntar para aqueles que reclamam da superpopulação exatamente quais pessoas prefeririam que não tivessem tido suas vidas. Teria sido realmente melhor se bilhões de pessoas no mundo nunca tivessem existido e se não houvesse outras pessoas em seu lugar? É claro que isso não significa negar que o crescimento populacional muito rápido pode causar aglomeração, pobreza e esgotamento dos recursos naturais. Nesse sentido, pode haver problemas reais que precisam ser enfrentados.

O número de pessoas que a Terra consegue sustentar com um padrão de vida confortável depende do desenvolvimento tecnológico (bem como da forma como os recursos são distribuídos). Novas tecnologias, desde simples melhorias na irrigação e na gestão, passando por melhores técnicas de mineração e máquinas de geração de energia mais eficientes, até culturas geneticamente modificadas, podem continuar a melhorar a produção mundial de recursos e alimentos, reduzindo simultaneamente o impacto ambiental e o sofrimento animal.

Os ambientalistas têm razão em insistir que o status quo é insustentável. Por uma questão de necessidade física, as coisas não podem permanecer como estão hoje indefinidamente, ou mesmo por muito tempo. Se continuarmos a esgotar os recursos no ritmo atual, sem encontrar mais recursos ou aprender a usar novos tipos de recursos, enfrentaremos sérios problemas de escassez em algum momento por volta de meados deste século.

Os ambientalistas radicais têm uma resposta para isso: sugerem que voltemos no tempo e retornemos a uma era pré-industrial idílica para viver em harmonia sustentável com a natureza. O problema com essa visão é que a era pré-industrial era tudo menos idílica. Era uma vida de pobreza, miséria, doença, trabalho manual pesado do amanhecer ao anoitecer, medos supersticiosos e paroquialismo cultural. Tampouco era ecologicamente correta – como testemunham o desmatamento da Inglaterra e da região do Mediterrâneo, a desertificação de grandes partes do Oriente Médio, o esgotamento do solo pelos Anasazi na área de Glen Canyon, a destruição de terras agrícolas na antiga Mesopotâmia pelo acúmulo de sais minerais provenientes da irrigação, o desmatamento e a consequente erosão do solo pelos antigos maias mexicanos, a caça excessiva de animais de grande porte em quase todos os lugares e a extinção do Dodô e de outras grandes aves sem penas no Pacífico Sul. Inclusive, é difícil imaginar como mais do que algumas centenas de milhões de pessoas poderiam ser mantidas em um padrão de vida razoável com métodos de produção pré-industriais, então cerca de noventa por cento da população mundial teria que desaparecer de alguma forma para facilitar esse retorno nostálgico.

Os transhumanistas propõem uma alternativa muito mais realista: não recuar para um passado imaginário, mas avançar da forma mais inteligente possível. Os problemas ambientais que a tecnologia cria são problemas de tecnologia intermediária e ineficiente, de atribuição de prioridade política insuficiente à proteção ambiental, bem como de falta de conhecimento ecológico.

Indústrias tecnologicamente menos avançadas no antigo bloco soviético poluem muito mais do que suas contrapartes ocidentais avançadas. A indústria de alta tecnologia é tipicamente relativamente benigna. Assim que desenvolvermos a nanotecnologia molecular, não só teremos uma fabricação limpa e eficiente de quase qualquer commodity, como também conseguiremos limpar grande parte da bagunça criada pelos métodos rudimentares de fabricação atual. Isso estabeleceria um padrão para um ambiente limpo com o qual os ambientalistas tradicionais de hoje dificilmente poderiam sonhar.

A nanotecnologia também tornará a colonização do espaço mais barata. De um ponto de vista cósmico, a Terra é um pontinho insignificante. Já foi sugerido, por vezes, que deveríamos deixar o espaço intocado em sua glória imaculada. Essa visão é difícil de levar a sério. A cada hora, por meio de processos inteiramente naturais, vastas quantidades de recursos – milhões de vezes mais do que a soma total do que a espécie humana consumiu ao longo de sua existência – são transformadas em substâncias radioativas ou desperdiçadas como radiação que escapa para o espaço intergaláctico. Não poderíamos pensar em uma maneira mais criativa de usar toda essa matéria e energia?

Mesmo com a colonização espacial completa, no entanto, o crescimento populacional pode continuar a ser um problema, e isso é assim mesmo se assumirmos que um número ilimitado de pessoas poderia ser transportado da Terra para o espaço. Se a velocidade da luz fornece um limite superior para a velocidade de expansão, então a quantidade de recursos sob controle humano crescerá somente polinomialmente (~ t3). A população, por outro lado, pode facilmente crescer exponencialmente (~ et). Se isso acontecer, então, uma vez que um fator que cresce acabará exponencialmente por ultrapassar qualquer fator que cresça polinomialmente, a renda média cairá para níveis de subsistência, forçando o crescimento populacional a desacelerar.

A rapidez com que isso aconteceria depende principalmente das taxas de reprodução. Uma mudança na expectativa de vida média não teria um grande impacto ou efeito. Mesmo tecnologias muito aprimoradas só conseguem adiar essa inevitabilidade por um período relativamente breve. O único método a longo prazo para garantir o crescimento contínuo da renda média é alguma forma de controle populacional, seja espontâneo ou imposto, limitando o número de novas pessoas criadas por ano. Isso não significa que a população não possa crescer, apenas que o crescimento teria que ser polinomial e não exponencial. Alguns tópicos adicionais a serem considerados:

  • Em países tecnologicamente avançados, os casais tendem a ter menos filhos, muitas vezes abaixo da taxa de reposição. Como generalização empírica, dar às pessoas maior controle racional sobre suas vidas, especialmente por meio da educação e da participação das mulheres no mercado de trabalho, faz com que os casais tenham menos filhos.

  • Se alguém levasse a sério a ideia de controlar a população limitando a expectativa de vida, por que não ser mais ativo nisso? Por que não incentivar o suicídio? Por que não executar nenhuma pessoa que atinja os 75 anos?

  • Se retardar o envelhecimento fosse inaceitável porque poderia levar a uma maior população, e quanto aos esforços para curar o câncer, reduzir as mortes no trânsito ou melhorar a segurança dos trabalhadores? Por que usar dois pesos e duas medidas?

  • Quando os transhumanistas dizem que querem prolongar a vida, o que querem dizer é que eles querem estender a expectativa de vida saudável. Isso significa que os anos-pessoa extras seriam produtivos e agregariam valor econômico à sociedade. Todos concordamos que não faria muito sentido viver mais dez anos em estado de demência.

  • A taxa de crescimento da população mundial vem diminuindo há várias décadas, atingiu o pico em 1970, com 2,1%. Em 2003, era de 1,2%; e espera-se que caia abaixo de 1,0% por volta de 2015. (Nações Unidas, 2002). As previsões catastróficas do chamado “Clube de Roma” do início da década de 1970 têm se mostrado consistentemente equivocadas.

  • Quanto mais pessoas houver, mais cérebros haverá trabalhando para inventar novas ideias e soluções.

  • Se as pessoas puderem esperar uma vida mais longa, saudável e ativa, elas terão um interesse pessoal no futuro e, com sorte, estarão mais preocupadas com as consequências de longo prazo de suas ações.


Há alguma ética normativa pelo qual os transhumanistas avaliam o “aprimoramento da condição humana”?


O trans(h)umanismo é compatível com uma variedade de sistemas éticos, além disso, os próprios transhumanistas possuem visões que divergem entre si. Entretanto, o seguinte parece constituir um núcleo comum de concordância: segundo os transhumanistas, a condição humana foi aprimorada, assim como as condições dos seres humanos individuais também foram. Na prática, adultos competentes costumam ser os melhores juízes do que é bom para si mesmos. Desta maneira, os transhumanistas defendem a liberdade individual, especialmente o direito daqueles que desejam usar a tecnologia para ampliar e aprimorar as suas capacidades mentais e físicas para o controle sobre suas próprias vidas. A partir desta perspectiva, o aprimoramento na condição humana é uma mudança que proporciona aos indivíduos maiores oportunidades de moldar a si mesmos e suas vidas de acordo com seus desejos conscientes.

Observe a palavra “informação”. É importante que as pessoas estejam cientes de suas escolhas. Educação, discussão, debate público, pensamento crítico, exploração artística e, potencialmente, aprimoramentos cognitivos são meios que podem auxiliar as pessoas a fazerem escolhas mais conscientes.

Os transhumanistas defendem que as pessoas não são descartáveis. Salvar vidas (daqueles que querem viver) é eticamente importante. Seria errado deixar pessoas existentes perecerem desnecessariamente para substituí-las por novas pessoas “melhores.” A extensão da expectativa de vida e a criogenia estão no topo da lista de prioridades dos transhumanistas. O objetivo transhumanista não é substituir os humanos existentes por uma nova geração de super-seres, mas sim dar aos seres humanos (os que existem hoje e os que nascerão no futuro) a opção de se desenvolverem como pessoas pós-humanas. A não descartabilidade das pessoas explica, em parte, um certo senso de urgência comum entre os transhumanistas. Em média, 150.000 homens, mulheres e crianças falecem todos os dias, muitas vezes em condições miseráveis.

Para dar ao maior número possível de pessoas a chance de uma existência pós-humana – ou somente uma existência humana decente – é fundamental que o desenvolvimento tecnológico, pelo menos em alguns campos, seja buscado com a máxima velocidade. Ao se tratar da extensão da vida e suas diversas tecnologias facilitadoras, um atraso de uma única semana equivale a um milhão de mortes prematuras evitáveis – um fato importante que aqueles que defendem proibições ou moratórias fariam bem em considerar cuidadosamente. O fato adicional de que o acesso universal provavelmente ficará aquém da disponibilidade inicial somente aumenta o motivo para tentar apressar as coisas.

Os transhumanistas rejeitam o especismo, a visão (humana racista) de que a condição moral está fortemente vinculada à filiação a uma espécie biológica específica, no nosso caso, o Homo sapiens. O que exatamente determina um posicionamento ético é uma questão em debate. Fatores como ser uma pessoa, ser senciente, a possibilidade de uma escolha autônoma, ou talvez até mesmo ser membro da mesma comunidade que o avaliador, estão entre os critérios que podem se combinar para determinar o grau do status moral de alguém (Warren, 1997). Entretanto, os transhumanistas argumentam que a identidade de espécie deve ser menos enfatizada neste contexto. Os transhumanistas insistem que todos os seres que podem sentir dor têm algum estatuto moral, e que as pessoas pós-humanas poderiam ter pelo menos o mesmo nível de moralidade que os humanos têm em sua forma atual.

Em que tipo de sociedade os pós-humanos viveriam?


Não há informações suficientes disponíveis no momento para fornecer uma resposta completa para esta pergunta. Em parte, porém, a resposta é o famoso “você decide.” O resultado pode ser influenciado pelas escolhas que fizermos agora e nas próximas décadas. Partindo deste pressuposto, a situação é a mesma de épocas anteriores, sem possibilidades transumanas: ao nos envolvermos em lutas políticas contra os males e as injustiças sociais de hoje, podemos ajudar a tornar a sociedade de amanhã melhor. Contudo, o transhumanismo nos informa sobre novas restrições, possibilidades e questões, e destaca inúmeros pontos importantes de alavancagem para intervenção, onde uma pequena aplicação de recursos pode fazer uma grande diferença a longo prazo.

Uma questão que ganha destaque, por exemplo, é o desafio de criar uma sociedade na qual seres com níveis de capacidades muito diferentes (como pessoas pós-humanas e humanos ainda não aprimorados) possam conviver felizes e pacificamente. Uma outra preocupação que se torna primordial é a necessidade de construir uma ordem mundial na quais corridas armamentistas perigosas possam ser prevenidas e na qual a proliferação de armas de destruição em massa possa ser suprimida ou, pelo menos, adiada até que defesas eficazes sejam desenvolvidas. Uma organização social ideal pode ser aquela que inclui a possibilidade, para aqueles que assim o desejam, de formar sociedades independentes, voluntariamente isoladas do resto do mundo, a fim de seguir modos de vida tradicionais ou experimentar novas formas de vida comunitária. Alcançar um equilíbrio aceitável entre os direitos de autonomia dessas comunidades, por um lado, e as preocupações com a segurança de entidades externas e as justas demandas por proteção de indivíduos vulneráveis e oprimidos dentro dessas comunidades, por outro, é uma tarefa delicada e um desafio familiar na filosofia política.

As possibilidades de uma sociedade na qual os pós-humanos viverão dependem dos tipos de pós-humanos que eventualmente se desenvolverem. É possível projetar vários caminhos de desenvolvimento possíveis, que podem resultar em tipos muito diferentes de pós-humanos, transhumanos e seres humanos não aprimorados, vivendo em tipos muito diferentes de sociedades. Ao tentar imaginar tal mundo, devemos ter em mente que provavelmente basearemos nossas expectativas nas experiências, desejos e características psicológicas dos humanos. Muitas dessas expectativas podem não se aplicar a pessoas pós-humanas. Quando a natureza humana muda, novas formas de organizar uma sociedade podem se tornar viáveis. Podemos esperar formar uma compreensão mais clara de quais são essas novas possibilidades à medida que observamos o desenvolvimento das sementes da transhumanidade.


Poderia os pós-humanos ou as superinteligências representar algum grau de ameaça aos humanos não aprimorados?


A sociedade humana sempre está em risco caso algum grupo decida considerar outro grupo de humanos apto à escravidão ou ao abate. Na tentativa de neutralizar tais tendências, as sociedades modernas criaram leis e instituições, e as dotaram de poderes de execução, que agem para impedir que grupos de cidadãos se agridam mutuamente. A eficiência destas instituições não depende da igualdade de capacidades de todos os cidadãos. Sociedades modernas e pacíficas possuem muitas pessoas com capacidades físicas ou mentais reduzidas, junto a outras pessoas que podem ser excepcionalmente fortes fisicamente, saudáveis ou intelectualmente talentosas de várias maneiras. Adicionar pessoas com capacidades tecnologicamente aprimoradas a essa já ampla distribuição de habilidades não destruiria necessariamente a sociedade nem desencadearia genocídio ou escravização.

Uma preocupação comum é que as modificações genéticas hereditárias ou outras tecnologias de aprimoramento humano levariam a duas espécies distintas e separadas e que hostilidades inevitavelmente se desenvolveriam entre elas. As suposições por trás dessa previsão devem ser questionadas. É um tema comum na ficção científica devido às oportunidades de conflito dramático, mas isso não é o mesmo que plausibilidade social, política e econômica no mundo real.

Parece mais provável que houvesse um continuum de indivíduos modificados ou aprimorados de forma diferente, que se sobreporia ao continuum de humanos ainda não aprimorados. O cenário em que “os aprimorados” forma um pacto e então atacam “os naturais” é estimulante para uma ficção científica empolgante, mas não é necessariamente o resultado mais plausível na realidade. Mesmo hoje, o segmento que contém os 90% mais altos da população poderia, em princípio, se unir e matar ou escravizar o decil mais baixo. O fato de tal prospecção não acontecer sugere que uma sociedade bem organizada pode se manter unida mesmo que contenha muitas coalizões possíveis de pessoas que compartilham algum atributo tal que, se unidas sob uma única bandeira, as tornaria capazes de exterminar o restante.

Observar que o caso extremo de uma guerra entre humanos e pós-humanos não é o cenário mais provável não significa que não existam preocupações sociais legítimas sobre os passos que podem nos levar mais perto da pós-humanidade. Desigualdade, discriminação e estigmatização – contra ou em nome de pessoas modificadas – podem se tornar problemas sérios.

Os transhumanistas argumentariam que esses (potenciais) problemas sociais exigem soluções sociais. Um estudo de caso sobre como a tecnologia contemporânea pode mudar aspectos importantes da identidade de alguém é a redesignação sexual. As experiências de transexuais mostram que algumas culturas ainda têm muito a fazer para se tornarem mais receptivas à diversidade. Essa é uma tarefa que podemos começar a enfrentar agora, fomentando um clima de tolerância e aceitação para com aqueles que são diferentes de nós. Também podemos agir para fortalecer as instituições que previnem a violência e protegem os direitos humanos, por exemplo, construindo tradições e constituições democráticas estáveis e expandindo o Estado de Direito para o plano internacional. E quanto ao caso hipotético em que alguém pretende criar, ou se transformar num ser com capacidades tão radicalmente aumentadas que um único ser ou um pequeno grupo de tais seres indivíduos conseguiriam dominar o planeta? Claramente, esta não é uma situação provável de surgir num futuro próximo, mas pode-se imaginar que, talvez em algumas décadas, a potencial criação de máquinas superinteligentes possa suscitar esse tipo de preocupação.

O aspirante a criador de alguma nova forma de vida com capacidades tão extraordinárias teria a obrigação de garantir que o ser proposto esteja livre de tendências psicopáticas e, de forma mais geral, que tenha inclinações humanas. Uma superinteligência, por exemplo, deve ser construída com uma estrutura de objetivos clara que tenha como principal objetivo a simpatia pelos humanos. Antes de executar tal programa, os construtores de uma superinteligência devem ser obrigados a apresentar argumentos sólidos de que lançá-lo seria mais seguro do que cursos de ações alternativas.


 Transhumanismo e a natureza


Porque os transhumanistas querem viver mais?


Esta é uma questão pessoal, uma questão íntima. Você já se sentiu tão feliz a ponto de se derreter em lágrimas? Houve um momento em sua vida de tamanha profundidade e sublimidade que o resto da existência pareceu um sono monótono e cinzento do qual você acabou de acordar? É tão fácil esquecer como as coisas podem ser boas quando estão no seu auge. Mas nas ocasiões em que nos lembramos – seja pela satisfação total de estar imerso em um trabalho criativo ou pelo êxtase terno do amor correspondido – então percebemos o quão valioso cada minuto da existência pode ser, quando é tão bom. E você pode ter pensado: “Deveria ser sempre assim. Por que isso não pode durar para sempre?” Bem, talvez – só talvez – pudesse.

Quando transhumanistas buscam estender a vida, não estão tentando adicionar alguns anos extras em um asilo, babando nos próprios sapatos. O objetivo são anos mais saudáveis, felizes e produtivos. Idealmente, todos deveriam ter o direito de escolher quando e como morrer – ou não morrer.

Os transhumanistas querem viver mais porque querem fazer, aprender e vivenciar mais; se divertir mais e passar mais tempo com seus entes queridos; continuar a crescer e amadurecer além das insignificantes oito décadas que nos foram concedidas por nosso passado evolutivo; e para ver por si mesmos as maravilhas que o futuro pode reservar. Como diz o discurso de vendas de uma organização de criônica: “A conduta da vida e a sabedoria do coração baseiam-se no tempo; nos últimos quartetos de Beethoven, nas últimas palavras e obras de ‘velhos’ como Sófocles e Russell e Shaw, vemos vislumbres de uma maturidade e substância, uma experiência e compreensão, uma graça e uma humanidade que não estão presentes em crianças ou adolescentes. Eles alcançaram isso porque viveram muito; porque tiveram tempo para vivenciar, desenvolver-se e refletir; tempo que todos poderíamos ter.

Imagine tais indivíduos – um Benjamin Franklin, um Lincoln, um Newton, um Shakespeare, um Goethe, um Einstein (e um Gandhi) – enriquecendo nosso mundo não por algumas décadas, mas por séculos. Imagine um mundo feito de tais indivíduos. Seria verdadeiramente o que Arthur C. Clarke chamou de “Fim da infância” – o início da vida adulta da humanidade” (Cryonics Institute).


Será que não estaríamos interferindo na natureza?


Sim, não há motivos para se envergonhar desta postura. Muitas vezes, é correto interferir na natureza. É possível dizer que manipular a natureza é uma parte importante da civilização e da inteligência humana; fazemos isso desde a invenção da roda. Alternativamente, pode-se dizer que, como somos parte da natureza, tudo o que fazemos e criamos também é, em certo sentido, natural. De qualquer forma, não há razão moral para não intervirmos na natureza e melhorá-la se pudermos, seja erradicando doenças, melhorando a produtividade agrícola para alimentar uma crescente população mundial, colocando satélites de comunicação em órbita para fornecer notícias e entretenimento aos lares, ou inserindo lentes de contato em nossos olhos para podermos enxergar melhor.

Alterar a natureza para melhor é algo nobre e glorioso para os humanos. (Por outro lado, “pavimentar o paraíso para construir um estacionamento” não seria glorioso; a qualificação “para melhor” é essencial). Em muitos casos específicos, é claro, existem razões práticas sólidas para confiar em processos “naturais.” A questão é que não podemos decidir se algo é bom ou ruim simplesmente perguntando se é natural ou não.

Algumas coisas naturais são ruins, como a fome, a poliomielite e ser comido vivo por parasitas intestinais. Algumas coisas artificiais são ruins, como o envenenamento por DDT, acidentes de automóvel e a guerra nuclear. Para escolher um exemplo atual, considere o debate sobre a clonagem humana. Alguns argumentam que a clonagem de humanos não é anormal porque clones humanos são essencialmente gêmeos idênticos. Eles estavam certos nisso, é claro, embora também se possa corretamente observar que não é natural que gêmeos idênticos tenham idades diferentes. Mas o ponto mais fundamental é que não importa se os clones humanos são naturais ou não. Ao pensar em permitir ou não a clonagem reprodutiva humana, temos que comparar as várias possíveis consequências desejáveis com as várias possíveis consequências indesejáveis. Temos então que tentar estimar a probabilidade de cada uma dessas consequências.

Neste contexto deliberativo, é muito mais difícil do que simplesmente descartar a clonagem como anormal, mas também tem mais probabilidade de resultar em boas decisões. Espero que essas observações pareçam triviais. Contudo, é impressionante como, com frequência, os polemistas ainda conseguem se safar com argumentos que são basicamente (mal disfarçados) maneiras de dizer: “É bom porque é assim que sempre foi!” ou “É bom porque é assim que a Natureza o fez!”


Será que as tecnologias transhumanistas nos tornarão inumanos?


O essencial não é o ser humano, mas ser humano (possuir virtudes humanas). Embora possamos querer acreditar que Hitler era um monstro desumano, ele era, de fato, um monstro; e Gandhi é conhecido não por ser notavelmente humano, mas pela sua compaixão, humanidade. Os atributos da nossa espécie não estão isentos de exame ético em virtude de serem “naturais” ou “humanos.” Atributos humanos, como a empatia e o senso de justiça, são positivos; outros, como tendências ao tribalismo ou a grupos sociais, deixaram cicatrizes profundas na história da espécie humana. Se há algum valor de fato em ser humano, este valor não vem do que se convencionou em denominar “normal” ou “natural”, mas vem de dentro de nós, a matéria-prima que compõe as características ou as virtudes de um ser humano: compaixão, senso de humor, curiosidade, o desejo de ser uma pessoa melhor. Tentar preservar a “humanidade”, em vez de cultivar a humanidade, seria idolatrar o mal com o bem. Desta maneira, é possível afirmar que, se “humano” é o que somos, então “humanos” é o que nós, como humanos, gostaríamos de ser. A natureza humana não é um mau lugar para começar essa jornada, mas não podemos realizar esse potencial se rejeitarmos qualquer progresso além do ponto de partida.


Será que a morte não faz parte da ordem natural das coisas?


Os transhumanistas insistem que o fato de algo ser natural ou não é irrelevante para saber se é bom ou desejável. A expectativa de vida média humana oscilou entre 20 e 30 anos durante a maior parte da história da nossa espécie. A maioria das pessoas hoje vive, portanto, vidas anormalmente longas. Devido à alta incidência de doenças infecciosas, acidentes, fome e mortes violentas entre nossos ancestrais, pouquíssimos deles viveram muito além dos 60 ou 70 anos. Sendo assim, havia pouca pressão seletiva para desenvolver os mecanismos de reparo celular (e pagar seus custos metabólicos) que seriam necessários para nos manter além dos nossos escassos 30 anos. Como resultado dessas circunstâncias do passado distante, agora sofremos o inevitável declínio da velhice: os danos se acumulam em um ritmo mais rápido do que podem ser reparados; tecidos e órgãos começam a funcionar mal; e então desmaiamos e perecemos.

A busca pela imortalidade é uma das aspirações humanas mais antigas e arraigadas. Tem sido um tema importante na literatura humana desde a mais antiga história escrita preservada, a Epopeia de Gilgamesh, e em inúmeras narrativas e mitos desde então. Ela fundamenta os ensinamentos das religiões mundiais sobre a imortalidade espiritual e a esperança de uma vida após a morte. Se a morte faz parte da ordem natural, também o é o desejo humano de superá-la. Antes do transhumanismo, a única esperança de escapar da morte era a reencarnação ou a ressurreição sobrenatural. Aqueles que viam tais doutrinas religiosas como fruto da nossa imaginação não tinham alternativa senão aceitar a morte como um fato inevitável da nossa existência. As cosmovisões seculares, incluindo o humanismo tradicional, normalmente incluíam algum tipo de explicação do porquê a morte não era tão ruim assim. Alguns existencialistas chegaram a sustentar que a morte era necessária para dar sentido à vida!

É compreensível que as pessoas inventem desculpas para a morte. Até recentemente, não havia absolutamente nada que alguém pudesse fazer a respeito, e fazia algum sentido, na época, criar filosofias reconfortantes segundo as quais morrer de velhice é algo bom (deathismo). Se tais crenças já foram relativamente inofensivas, e talvez até mesmo proporcionassem algum benefício terapêutico, agora perderam seu propósito. Hoje, podemos prever a possibilidade de eventualmente abolir o envelhecimento e temos a opção de tomar medidas ativas para nos mantermos vivos até lá, por meio de técnicas de extensão da vida e, como último recurso, da criogenia. Isso torna as ilusões das filosofias deathistas perigosas, na verdade fatais, por ensinam o desamparo e incentivarem a passividade.

Adotar um entendimento moribundo tende a ser acompanhado de um certo elemento de hipocrisia. É de se esperar que muitos dos apologistas da morte, se um dia se deparassem com a escolha concreta entre (A) adoecer, envelhecer e morrer, e (B) receber uma nova chance de vida para se manterem saudáveis, vigorosos e na companhia de amigos e entes queridos para participar do desenrolar do futuro, escolheriam, quando a situação se tornasse crítica, esta última alternativa. Se algumas pessoas ainda escolhessem a morte, essa seria uma escolha lamentável, mas, ainda assim, essa escolha deve ser respeitada.

A posição transhumanista sobre a ética da morte é cristalina: a morte deve ser voluntária. Isso significa que todos devem ser livres para prolongar suas vidas e providenciar a suspensão criogênica de seus corpos desanimados. Isso também significa que a eutanásia voluntária, sob condições de consentimento informado, é um direito humano básico. Pode ser impossível viver para sempre, a rigor, mesmo para aqueles que têm a sorte de sobreviver a uma época em que a tecnologia esteja aperfeiçoada, mesmo em condições ideais. A quantidade de matéria e energia que nossa civilização pode obter antes que se tornem inacessíveis para sempre (devido à expansão do universo) é finita nos modelos cosmológicos mais populares da atualidade.

A morte térmica do universo é, portanto, uma questão de interesse pessoal para os transhumanistas otimistas! Ainda é muito cedo para dizer se nossos dias estão necessariamente contados. A cosmologia e a física fundamental ainda estão incompletas e em fluxo teórico; possibilidades teóricas para processamento infinito de informações (que poderiam permitir que um upload vivesse uma vida infinita) parecem surgir e desaparecer a cada poucos anos. Temos que conviver com essa incerteza, juntamente com a incerteza muito maior sobre se algum de nós conseguirá evitar uma morte prematura, antes que a tecnologia se torne madura.


Seriam as tecnologias transhumanistas ambientalmente sustentáveis?


O impacto ambiental de uma tecnologia depende de como ela é utilizada. A proteção do meio ambiente natural exige vontade política, além de boa tecnologia. As tecnologias necessárias para concretizar a visão transhumanista podem ser ambientalmente corretas. Tecnologia da informação e procedimentos médicos, por exemplo, tendem a ser relativamente limpos.

Os transhumanistas podem, de fato, fazer uma afirmação mais forte em relação ao meio ambiente: que as tecnologias atuais são insustentáveis. Estamos consumindo recursos essenciais, como petróleo, minérios metálicos e capacidade de poluição atmosférica, mais rápido do que eles se regeneram. No ritmo atual de consumo, parece que esgotaremos esses recursos em algum momento deste século. Quaisquer alternativas realistas que tenham sido propostas envolvem levar a tecnologia a um nível mais avançado. As tecnologias transhumanistas não são somente ecologicamente corretas, como podem ser a única opção ambientalmente viável a longo prazo.

Mediante a produção (nano)molecular eficiente, teremos uma maneira de produzir quase qualquer mercadoria sem desperdício ou poluição. A nanotecnologia também tornaria economicamente viável a construção de usinas solares espaciais, a mineração de minérios e minerais de corpos extraterrestres e a transferência de indústrias pesadas para fora da Terra. A única solução verdadeiramente duradoura para a escassez de recursos é a colonização espacial. Segundo a perspectiva transhumanista, os humanos, nossos artefatos e empreendimentos fazem parte da biosfera ampliada. Não existe uma dicotomia fundamental entre a humanidade e o resto do mundo. Pode-se dizer que a natureza, na humanidade, tornou-se consciente e autorreflexiva. Podemos sonhar com maneiras melhores de as coisas serem e de nos empenharmos deliberadamente em construir nossos sonhos, mas também temos a responsabilidade de usar esse poder de maneiras sustentáveis que protejam valores essenciais.

O transhumanismo como uma filosofia e fenômeno cultural


Quais são os precursores culturais e filosóficos do transhumanismo?


O desejo humano de adquirir atributos pós-humanos é tão antigo quanto a própria espécie humana. Os humanos sempre buscaram expandir os limites de sua existência, seja ecológica, geográfica ou mental. Há uma tendência, pelo menos em alguns indivíduos, de tentar encontrar uma maneira de contornar cada limitação e obstáculo.

Sepultamentos cerimoniais e fragmentos preservados de escritos religiosos mostram que os humanos pré-históricos eram profundamente perturbados pela morte de seus entes queridos e buscavam reduzir a dissonância cognitiva postulando uma vida após a morte. No entanto, apesar da ideia de uma vida após a morte, as pessoas ainda se esforçavam para prolongar a vida. Na Epopeia de Gilgamesh (aprox. 2000 AEC), um rei embarca em uma jornada para encontrar uma erva que pode torná-lo imortal. Vale a pena notar que se presumia que a mortalidade não era inescapável em princípio e que existiam meios (pelo menos mitológicos) de superá-la. Que as pessoas realmente se esforçavam para viver vidas mais longas e ricas também pode ser visto no desenvolvimento de sistemas de magia e alquimia; na falta de meios científicos para produzir um elixir da vida, recorria-se a meios mágicos. Essa estratégia foi adotada, por exemplo, pelas várias escolas do taoísmo esotérico na China, que buscavam a imortalidade física e o controle ou a harmonia com as forças da natureza.

Os gregos eram ambivalentes quanto à transgressão humana de nossos limites naturais. Por um lado, eram fascinados pela ideia. Percebemos isso no mito de Prometeu, que roubou o fogo de Zeus e o deu aos humanos, melhorando assim permanentemente a condição humana. No mito de Dédalo, os deuses são repetidamente desafiados, com bastante sucesso, por um engenheiro e artista inteligente, que usa meios não mágicos para ampliar as capacidades humanas. Por outro lado, há também o conceito de arrogância: algumas ambições são inaceitáveis e sairiam pela culatra se fossem perseguidas. No final, o empreendimento de Dédalo termina em desastre (não porque foi punido pelos deuses, mas devido inteiramente a causas naturais).

Mesmo de maneira tímida, os filósofos da Grécia antiga propuseram criar sistemas de pensamento baseados não somente na fé, mas no raciocínio lógico. Sócrates e os sofistas estenderam a aplicação do pensamento crítico da metafísica e da cosmologia para o estudo da ética e de questões sobre a sociedade e a psicologia humanas. Dessa investigação surgiu o humanismo cultural, uma corrente muito importante ao longo da história da ciência, da teoria política, da ética e do direitos ocidentais.

No Renascimento, o pensamento humano despertou do sobrenatural medieval e dos modos escolásticos de raciocínio que predominaram por um milênio, e o ser humano e o mundo natural tornaram-se novamente objetos legítimos de estudo. O humanismo renascentista encorajou as pessoas a confiar em suas próprias observações e julgamentos, em vez de se submeterem em todos os assuntos às autoridades religiosas. O humanismo renascentista também criou o ideal da personalidade completa, altamente desenvolvida científica, moral, cultural e espiritualmente. Um marco referencial é o Discurso sobre a dignidade do homem (1486), de Giovanni Pico della Mirandola, que afirma que o homem não tem uma forma pronta, mas que é tarefa do homem formar a si mesmo. Na ciência moderna, começou a tomar forma então, por meio das obras de Copérnico, Kepler e Galileu.

Pode-se dizer que o Século das Luzes começou com a publicação do Novum Organum (1620), de Francis Bacon, no qual ele propõe uma metodologia científica baseada na investigação empírica, em vez do raciocínio a priori. Bacon defende o projeto de “efetuar todas as coisas possíveis”, com o qual se referia à conquista do domínio sobre a natureza a fim de melhorar a condição dos seres humanos. A herança do Renascimento se combina com as influências de Isaac Newton, Thomas Hobbes, John Locke, Immanuel Kant, Marquês de Condorcet e outros para formar a base do humanismo racional, que enfatiza a ciência e o raciocínio crítico – em vez da revelação e da autoridade religiosa – como formas de aprender sobre o mundo natural, o destino e a natureza do homem e de fornecer uma base para a moralidade.

O transhumanismo possui suas raízes nesse humanismo racional. Nos séculos XVIII e XIX, vislumbramos a ideia de que até mesmo os próprios humanos podem se desenvolver por meio da aplicação da ciência. Benjamin Franklin e Voltaire especularam sobre a possibilidade de estender a expectativa de vida humana por meio da ciência médica. Especialmente após a teoria da evolução de Darwin, o ateísmo ou o agnosticismo passaram a ser vistos como alternativas cada vez mais atraentes. Contudo, o otimismo do final do século XIX frequentemente degenerou em um positivismo tacanho e na crença de que o progresso era automático. Quando essa visão colidiu com a realidade, algumas pessoas reagiram recorrendo ao irracionalismo, concluindo que, como a razão não era suficiente, ela era inútil. Isso resultou em sentimentos antitecnológicos e anti-intelectuais cujas sequelas ainda podemos testemunhar hoje em alguns escritores pós-modernistas, no movimento da Nova Era e entre a ala neoludita dos agitadores antiglobalização.

Certamente, o ensaio do bioquímico britânico J.B.S. Haldane: Daedalus or, Science and the Future (1923) é tido como fundamental para a gênese do transhumanismo. No ensaio, Haldane discute como as descobertas científicas e tecnológicas podem afetar a sociedade e melhorar a condição humana. O ensaio de Haldane provocou uma reação em cadeia de discussões voltados ao futuro, entre eles está a obra de J. D. Bernal: The world, the flesh, and the devil: an enquiry into the future of the three enimies of the rational soul (1929), na qual especulará sobre a colonização espacial e implantes biônicos, bem como melhorias mentais por meio de ciências sociais e psicologia avançadas; as obras de Olaf Stapledon; e o ensaio Icarus: or, the future of science (1924), de Bertrand Russell, na qual o filósofo adota uma postura mais pessimista, argumentando que, sem mais bondade no mundo, o poder tecnológico servirá principalmente para aumentar a capacidade dos homens de infligir danos uns aos outros.

Autores de ficção científica como H. G. Wells e Olaf Stapledon também fizeram muitas pessoas refletirem sobre a evolução futura da raça humana. Uma obra frequentemente citada é Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, uma distopia onde o condicionamento psicológico, a sexualidade promíscua, a biotecnologia e drogas opiáceas são usados para manter a população plácida e contente em uma sociedade estática e totalitária, governada por uma elite composta por dez “controladores do mundo.” O romance de Huxley chama a atenção do leitor para o potencial desumanizador da tecnologia, que está sendo usada para frear o crescimento e diminuir o alcance da natureza humana, em vez de aprimorá-lo.

A Segunda Guerra Mundial mudou a direção de algumas das vertentes, resultando no transhumanismo contemporâneo. O movimento eugênico, que anteriormente havia encontrado defensores não somente entre racistas de extrema direita, mas também entre socialistas e social-democratas progressistas, foi desacreditado. O objetivo de criar um mundo novo e melhor por meio de uma visão imposta centralmente tornou-se tabu e ultrapassado; e os horrores da União Soviética stalinista mais uma vez ressaltaram os perigos de tal abordagem. Cientes dessas lições históricas, os transhumanistas frequentemente desconfiam profundamente de mudanças orquestradas coletivamente, defendendo, em vez disso, o direito dos indivíduos de redesenharem a si mesmos e seus descendentes. A partir do pós-guerra, os futuristas otimistas direcionaram sua atenção mais para o progresso tecnológico, bem como contribuíram para a consolidação do tecno-otimismo a partir de trabalhos em torno das viagens espaciais, do avanço na medicina e no aperfeiçoamento em computadores.

A ciência começou a acompanhar a especulação. As ideias trans(h)umanistas durante esse período foram discutidas e analisadas principalmente no gênero literário de ficção científica. Autores como Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Robert Heinlein, Stanislaw Lem e, posteriormente, Bruce Sterling, Greg Egan e Vernor Vinge, exploraram vários aspectos do transhumanismo em seus escritos e contribuíram para sua proliferação.

Robert Ettinger desempenhou um papel importante na concepção moderna do transhumanismo. A publicação de seu livro The Prospect of Immortality em 1964 levou à consolidação do movimento criônico. Ettinger argumenta que, como a tecnologia médica aparenta estar em constante progresso e como a atividade química cessa completamente em baixas temperaturas, deveria ser possível congelar uma pessoa hoje em dia e preservar o corpo até que a tecnologia esteja suficientemente avançada para reparar os danos causados pelo congelamento e reverter a causa original da desanimação. Posteriormente, em Man into Superman (1972), ele discutiu uma série de melhorias concebíveis para o ser humano, continuando a tradição iniciada por Haldane e Bernal.

Outra personalidade fundamental para a divulgação e a consolidação do transhumanismo foi FM Esfandiary, que mais tarde mudou seu nome para FM-2030. FM-2030 é tido como pioneiro no ambiente acadêmico a se dedicar aos estudos futuristas. FM lecionou na New School for Social Research em Nova York durante a década de 1960. Ao longo do seu trabalho, criou uma vertente de futurista otimista que ficou conhecida como Up-Wingers. No seu livro, Are you a transhuman? (1989), o autor descreve o que entendia como possíveis indícios para o surgimento de uma pessoa transhumana, indicando em sua terminologia um elo evolutivo em direção à pós-humanidade5.

Nas décadas de 1970 e 1980, surgiram diversas organizações voltadas para a extensão da vida, criônica, colonização espacial, ficção científica e futurismo. Frequentemente, elas estavam isoladas umas das outras e, embora compartilhassem visões e valores semelhantes, ainda não constituíam uma visão de mundo unificada e coerente. Uma voz proeminente, com um ponto de vista com fortes elementos transhumanistas durante essa época, foi a de Marvin Minsky, um eminente pesquisador de inteligência artificial.

Eric Drexler publica em 1986, Engines of creation. O livro é tido como pioneiro na exposição e divulgação, no formato de livro, da manufatura molecular. A possibilidade da nanotecnologia havia sido antecipada pelo físico ganhador do Prêmio Nobel Richard Feynman em um famoso discurso após o jantar em 1959, intitulado There is plenty of room at the bottom. Em seu livro, Drexler não somente defende a viabilidade da nanotecnologia baseada em montadores, como também explora suas consequências. Deste modo, começa a mapear os desafios estratégicos impostos por seu desenvolvimento. Outros trabalhos de Drexler fornecem análises mais técnicas que confirmaram suas conclusões iniciais. Para preparar o mundo para a nanotecnologia e trabalhar para torná-la segura, ele fundou o Foresight Institute com sua então esposa Christine Peterson em 1986.

O livro Great mambo chicken and the transhuman condition (1990), de Ed Regis, é uma paródia sobre os cientistas e filósofos arrogantes do transhumanismo. Outros dois livros influentes foram o seminal Mind children (1988), do cientista da computação Hans Moravec, sobre o desenvolvimento futuro da inteligência das máquinas, e, mais recentemente, o best-seller Age of spiritual machines (1999), de Ray Kurzweil, que apresenta ideias semelhantes às de Moravec. Physical of immortality (1994), de Frank Tipler, inspirado nos escritos de Pierre Teilhard de Chardin (um paleontólogo e teólogo jesuíta que percebia um telos evolucionário no desenvolvimento de uma noosfera abrangente, uma consciência global), argumentava que civilizações avançadas poderiam ter uma influência determinante na evolução futura do cosmos, embora alguns tenham se mostrado desanimados pela tentativa de Tipler de mesclar ciência com religião.

Diversos cientistas e divulgadores da ciência, como Carl Sagan, Richard Dawkins, Steven Pinker e Douglas Hofstadter, também ajudaram a abrir caminho para a compreensão pública das ideias transhumanistas.

Em 1988, a primeira edição da revista Extropy foi publicada por Max More e Tom Morrow, e em 1992 eles fundaram o Extropy Institute - o termo “extropia” foi cunhado como um oposto informal conceitual de “entropia”. A revista e o instituto serviram como catalisadores, reunindo grupos díspares de pessoas com ideias futuristas. More escreveu a primeira definição de trans(h)umanismo em seu sentido contemporâneo e criou sua própria marca distinta de transumanismo, o “extropianismo”, que enfatizava o individualismo, o otimismo dinâmico e o mecanismo de mercado, além da tecnologia. Já a arte transumanista tornou-se mais autoconsciente por meio das obras da artista Natasha Vita-More. Durante esse período, uma intensa exploração de ideias também ocorreu em diversas listas de discussão da internet. Entre os primeiros colaboradores fundamentais estavam Anders Sandberg (na época um estudante de doutorado em neurociência) e Robin Hanson (um economista e polímata), entre outras personalidades-chaves para a consolidação do trans(h)umanismo.

Em 1998, é fundada a World Transhumanist Association (WTA), cujos fundadores são Nick Bostrom (sendo seu atual presidente) e David Pearce. A WTA atua como uma organização internacional sem fins lucrativos e coordena todos os grupos e interesses relacionados ao trans(h)umanismo nos seus mais variados espectros ideológicos.

A WTA se concentra em apoiar o transumanismo como uma disciplina acadêmica séria e promover a conscientização pública sobre o pensamento transumanista. A WTA começou a publicar o Journal of Evolution and Technology, o primeiro periódico acadêmico revisado por pares para estudos transhumanistas, em 1999 (que também é o ano em que a primeira versão deste documento foi publicada). Em 2001, a WTA adotou sua constituição atual e agora é governada por uma diretoria executiva eleita democraticamente por seus membros plenos. James Hughes, em especial (o atual secretário da WTA), entre outros, ajudou a elevar a WTA ao seu estágio atual de maturidade, e uma forte rede de grupos de voluntários vem construindo a organização até o que ela é hoje.

Nos últimos anos, o movimento trans(h)umanista tem crescido rápida e intensamente. Grupos locais estão se multiplicando em todas as partes do mundo. A conscientização sobre as ideias trans(h)umanistas está se espalhando. O trans(h)umanismo está passando de preocupação de um grupo marginal de pioneiros intelectuais para se tornar uma corrente dominante na compreensão das perspectivas de transformação tecnológica da condição humana. A ideia de que os avanços tecnológicos nos ajudarão a superar muitas das nossas atuais limitações humanas não é mais uma visão restrita a alguns poucos visionários com conhecimento tecnológico. Entretanto, compreender as consequências dessas possibilidades antecipadas e as escolhas éticas que enfrentaremos é um desafio enorme com o qual a humanidade lutará nas próximas décadas. A tradição trans(h)umanista produziu um corpo de pensamento (ainda em evolução) para iluminar essas questões complexas, inigualável em seu escopo e profundidade de previsão.


Quantas vertentes existem dentro do trans(h)umanismo? O extropianismo é sinônimo de transumanismo?

Há uma diversidade profícua de posicionamentos no pensamento trans(h)umanista. Muitos dos principais pensadores trans(h)umanistas defendem visões complexas e sutis que estão em constante revisão e desenvolvimento e desafiam muitas vezes uma rotulagem fácil. Vertentes distintas – embora nem sempre claramente definidas – do trans(h)umanismo podem, no entanto, ser discernidas:

  • Transumanismo extropiano: derivado da palavra “extropia”, cunhado por T. O. Morrow e Max More em 1988, referindo-se à “extensão da inteligência, informação, ordem, vitalidade e capacidade de aprimoramento de um sistema.” O extropianismo é definido pelos Princípios Extropianos, um texto de autoria de Max More (1998), cofundador do Extropy Institute juntamente com Morrow. A versão 3.0 deste documento lista sete princípios importantes para os extropianos no desenvolvimento de seu pensamento: Progresso perpétuo, Autotransformação, Otimismo Prático, Tecnologia Inteligente, Sociedade Aberta, Autodireção e Pensamento Racional. Estes visam codificar atitudes gerais em vez de dogmas específicos.

  • Transhumanismo democrático: esta vertente transhumanista advoga pelo direito de usar a tecnologia para transcender as limitações do corpo humano quanto à extensão das preocupações democráticas para além da igualdade e liberdade jurídicas formais, abrangendo a liberdade e a igualdade econômica e cultural, a fim de proteger valores como igualdade, solidariedade e participação democrática em um contexto transumano (Hughes 2002).

  • Transumanismo hedonista (imperativo hedonista): vertente transumanista representada pelos defensores da “engenharia do paraíso”, conforme descrito por David Pearce (2003). Pearce argumenta que, com base em fundamentos éticos, um programa biológico para eliminar todas as formas de crueldade, sofrimento e mal-estar. A curto prazo, as nossas vidas emocionais podem ser enriquecidas por drogas artificiais para o humor. A longo prazo, Pearce, entretanto, sugere que será tecnicamente viável reescrever o genoma dos vertebrados, redesenhar o ecossistema global e usar a biotecnologia para abolir o sofrimento em todo o mundo vivo. Pearce acredita que “supermentes” (pós-biológica; pós-darwiniana) desfrutarão de bem-estar geneticamente pré-programado e serão animadas por “gradientes de bem-aventurança.”

  • Transumanismo da singularidade: os transumanistas singularitaristas concentram-se em tecnologias transumanas que podem potencialmente levar ao surgimento de inteligências mais inteligentes que a humana, como a interface cérebro-computador e a IA. Como a inteligência atual é, em última análise, a fonte da nossa tecnologia, os singularitaristas esperam que a criação tecnológica de uma inteligência mais inteligente que a humana seja um divisor de águas na história, com um impacto mais comparável à ascensão do Homo sapiens do que a avanços tecnológicos anteriores. Os singularitaristas enfatizam a importância de garantir que essa inteligência esteja associada à sensibilidade ética (Yudkowsky, 2003).

  • Transhumanismo teórico: não se trata tanto de uma versão específica de um transhumanismo, mas sim de uma direção de pesquisa: o estudo das restrições, possibilidades e consequências de potenciais trajetórias futuras do desenvolvimento tecnológico e humano, utilizando ferramentas teóricas da economia, teoria dos jogos, teoria da evolução, teoria da probabilidade e “ciência teórica aplicada”, ou seja, o estudo de projetos de sistemas fisicamente possíveis que ainda não podemos construir. Investigações sobre questões éticas relacionadas ao projeto transhumanista – o projeto de criar um mundo onde o maior número possível de pessoas tenha a opção de se tornar pós-humano – também podem ser incluídas neste título.

  • Fóruns trans(h)umanistas: grupos trans(h)umanistas como uma rede de pessoas que compartilham certos interesses e gostam de passar longas horas conversando sobre assuntos transumanistas em listas de e-mail ou pessoalmente.

  • Transhumanismo artístico e cultural: É o trans(h)umanismo como fonte de inspiração na criação artística e em atividades culturais, incluindo esforços para comunicar ideias e valores transumanistas a um público mais amplo.

Como o transhumanismo se relaciona com a religião?


O transhumanismo é um movimento filosófico e cultural preocupado em promover maneiras responsáveis de usar a tecnologia para aprimorar as capacidades humanas e aumentar o escopo do florescimento humano. Embora não seja uma religião, o transhumanismo pode servir a algumas das mesmas funções que as pessoas tradicionalmente buscam na religião. Oferece um senso de direção, propósito e sugere uma visão de que os humanos podem alcançar algo maior do que nossa condição atual.

Contrariando a maioria dos religiosos, os transhumanistas buscam realizar seus sonhos neste mundo, confiando não em poderes sobrenaturais ou intervenção divina, mas no pensamento racional e no empirismo, por meio do desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e humano contínuo. Algumas das perspectivas que costumavam ser o foco exclusivo das instituições religiosas, como longevidade, a bem-aventurança imperecível e a inteligência divina, estão sendo discutidas pelos transhumanistas como hipotéticas conquistas futuras da engenharia.

O transhumanismo é uma perspectiva naturalista. Atualmente, não há evidências concretas de forças sobrenaturais ou fenômenos espirituais irredutíveis, e os transhumanistas preferem derivar sua compreensão do mundo de modos racionais de investigação, especialmente o método científico. Embora a ciência constitua a base de grande parte da visão de mundo transhumanista, os transhumanistas reconhecem que a ciência tem suas próprias falibilidades e imperfeições, e que o pensamento ético crítico é essencial para orientar nossa conduta e selecionar objetivos valiosos para os quais trabalhar.

Fanatismo religioso, superstição e intolerância não são condizentes com o projeto e as atitudes transhumanistas. Em muitos casos, essas fraquezas podem ser superadas por meio de uma educação científica e humanística, treinamento em pensamento crítico e interação com pessoas de diferentes culturas. Outras formas de religiosidade, no entanto, podem ser compatíveis com o transhumanismo. É importante enfatizar que o transhumanismo não é um conjunto fixo de dogmas. É uma visão de mundo em evolução, ou melhor, uma família de visões de mundo em evolução – pois os transhumanistas discordam entre si em muitas questões.

A filosofia trans(h)umanista, ainda em fase de formação, deve continuar se desenvolvendo à luz de novas experiências e novos desafios. Os trans(h)umanistas estão dispostos a descobrir onde estão errados e mudar suas perspectivas de acordo.


Será que os recursos como o upload, a criônica e a IA não fracassarão por não conseguirem criar ou preservar a alma?


Se respondermos essa pergunta de um ponto de vista religioso, não há fundamento claro para descartar essas tecnologias como incompatíveis com os ensinamentos sobre a alma. Não há base teológica/bíblica na Bíblia para supor que Deus não possa alcançar nossa alma se congelarmos nosso corpo físico, nem há uma única palavra nas escrituras cristãs, judaicas, ou no Alcorão, no Dhammapada ou no Tao Te Ching, que proíba ou condene a criônica. Ou, para alguém que acredita em reencarnação, não há crenças tradicionais que digam que a reencarnação é impedida quando alguém congela até a morte ou cujo corpo é congelado após a morte clínica. Se a alma existe e ela adentra no corpo na concepção, então a criônica pode muito bem funcionar – afinal, embriões humanos foram congelados, armazenados por longos períodos e então implantados em suas mães, resultando em crianças saudáveis (que presumivelmente possuem almas).

O upload e a inteligência das máquinas podem nos revelar coisas novas sobre o funcionamento da alma. É interessante notar que o Dalai Lama, quando questionado, não descartou a possibilidade de reencarnação em computadores (Hayward et al. 1992, p. 152). Embora o conceito de alma não seja muito utilizado em uma filosofia naturalista como o transhumanismo, muitos trans(h)umanistas se interessam pelos problemas relacionados à identidade pessoal (Parfit, 1984) e à consciência (Churchland, 1988). Tais questões vêm sendo intensamente estudadas por filósofos analíticos contemporâneos e, embora algum progresso tenha sido feito, por exemplo, no trabalho de Derek Parfit sobre identidade pessoal, elas ainda não foram resolvidas de forma satisfatória.


O que é arte transhumanista?

Existem diversas formas de expressão, mas os exemplos que se dariam dependem de como se define “arte transhumanista.” Se utilizarmos a definição de arte que se preocupa com a aspiração humana de superar os limites atuais, grande parte de toda a arte ao longo dos tempos seria considerada transhumanista – desde os mitos antigos da arrogância prometeica, à iconografia, arquitetura e rituais religiosos transcendentais, às fugas de J.S. Bach, ao Fausto de Goethe, passando pelos artistas pós-modernos, muitos dos quais conceberam seu trabalho como uma tentativa de romper barreiras conceituais a fim de ampliar o alcance da criatividade humana.

Se restringirmos a definição adicionando o requisito de que um telos transhumanista seja acoplado a uma noção da centralidade dos meios tecnológicos, obtemos um conjunto diferente de exemplos paradigmáticos. O mito de Frankenstein (baseado originalmente no romance de Mary Shelley publicado em 1831 e elaborado em inúmeras formas desde então) é um clássico e, em geral, a ficção científica tem sido o gênero mais intensamente preocupado com a transhumanidade. Asimov, Robert A. Heinlein, Stanisław Lem, Arthur C. Clark, passando por Vernor Vinge, Bruce Sterling, James Halperin, Greg Egan e tantos outros.

Muitas das histórias desses autores foram adaptadas para o cinema. (A série televisiva Star Trek apresenta novas tecnologias interessantes, mas são os mesmos humanos de sempre, logo, a série não é um exemplo paradigmático sobre o que é arte transhumanista). Outra maneira de definir este conceito seria dizer que arte transhumanista é aquela produzida por aqueles que se declaram como transhumanistas. Exemplos dessa definição devem ser buscados em tempos recentes, visto que o vocábulo “transhumanismo” em seu sentido contemporâneo é bastante novo.

Natasha Vita-More é uma das primeiras e mais proeminentes artistas transhumanistas nesse sentido. A título de exemplo, seu recente trabalho visual e conceitual, Primo 3M+, apresenta uma espécie de entrada elegante de catálogo de compras do futuro para um design de corpo inteiro com recursos como aprimoramento de memória, sensores de sonar, pele com proteção solar e alternância de tonalidade e textura, reconfiguração de gênero, descarte de resíduos ecologicamente correto, tudo isso com garantia e possibilidade de atualização. Natasha Vita-More é autora de diversos manifestos artísticos transhumanistas, nos quais a arte transhumanista se torna autoconsciente pela primeira vez. Outros artistas transhumanistas contemporâneos incluem Lilia Morales y Mori, Anders Sandberg, Juan Meridalva (artes visuais); Elaine Walker, E. Shaun Russell, Emlyn O'Regan, Gustavo Muccillo Alves e a banda Cosmodelia (música eletrônica); Susan Rogers (teatro de fantoches); Jane Holt (arte performática) e muitos outros.


Aspectos práticos


Quais os motivos para aguardar todas estas mudanças?

Olhe ao seu redor, compare o que você vê com o que teria visto há cinquenta anos. Não é uma conjectura ousada que nos próximos 50 anos teremos tantas mudanças que o estado da tecnologia em meados do século XXI será impressionante para os padrões atuais. A projeção conservadora, que pressupõe que o progresso continue da mesma forma lenta e gradual desde o século XVII, implica que devemos esperar por mudanças de paradigmas nas próximas décadas. Tal expectativa é reforçada quando se considera que muitas áreas cruciais parecem prontas para avanços significativos.

A World Wide Web (WWW) está começando a conectar as pessoas do mundo, adicionando uma nova camada global à sociedade humana, onde a informação é suprema. O Projeto Genoma Humano foi concluído e o estudo dos papéis funcionais de nossos genes (genômica funcional) avança rapidamente. Técnicas para usar essa informação genética para modificar organismos adultos ou a linha germinativa estão sendo desenvolvidas. O desempenho de computadores dobra a cada 18 meses e se aproximará do poder computacional de um cérebro humano em breve. As empresas farmacêuticas estão refinando medicamentos que nos permitirão regular o humor e aspectos da personalidade com o mínimo de efeitos colaterais. Muitos objetivos transhumanistas podem ser perseguidos com as tecnologias atuais. Ainda há alguma dúvida de que, salvo um cataclismo que destrua a civilização, o progresso tecnocientífico nos proporcionará opções muito mais radicais no futuro?

O cultivo molecular tem o potencial de transformar a condição humana. É uma tecnologia viável? Eric Drexler e outros demonstraram em detalhes como a nanotecnologia em fase de máquina é consistente com as leis da física e delinearam diversas rotas que poderiam ser desenvolvidos. A fabricação molecular pode parecer inacreditável, talvez porque as consequências finais pareçam avassaladoras, mas especialistas em nanotecnologia apontam que atualmente não existe nenhuma crítica técnica publicada aos argumentos de Drexler. Mais de dez anos após a publicação de Nanosystems, ninguém ainda conseguiu apontar qualquer erro significativo nos cálculos. Enquanto isso, o investimento no desenvolvimento da nanotecnologia, que já movimenta bilhões de dólares anualmente em todo o mundo, cresce a cada ano, e, pelo menos, os aspectos menos visionários da nanotecnologia já se tornaram comuns.

Há uma pluralidade de metodologias e tecnologias independentes que podem permitir que os humanos se tornem pós-humanos. Ainda há incertezas sobre quais tecnologias serão aprimoradas primeiro, além disso, possuímos a opção de escolher quais métodos usar. Contudo, se a civilização continuar a prosperar, parece quase inevitável que, mais cedo ou mais tarde, os humanos terão a opção de se tornarem pós-humanos. E, a menos que sejam impedidos à força, muitos escolherão explorar essa opção.

Tais desenvolvimentos não levarão milhares de anos para se tornarem realidade?


Muitas vezes é difícil prever quanto tempo levará um determinado desenvolvimento tecnológico. A chegada do homem à lua aconteceu mais cedo do que a maioria das pessoas esperava, mas a energia de fusão ainda nos escapa após meio século de expectativa. A dificuldade em prever o momento certo reside, em parte, na possibilidade de obstáculos técnicos inesperados e, em parte, no fato de que a velocidade do progresso depende dos níveis de financiamento, que por sua vez dependem de fatores econômicos e políticos difíceis de prever. Desta maneira, embora em muitos casos se possa apresentar boas razões para acreditar que uma determinada tecnologia será eventualmente desenvolvida, geralmente só se pode supor informação sobre quanto tempo isso levará.

A maioria dos trans(h)umanistas acredita que a superinteligência e a nanotecnologia serão desenvolvidas em menos de cem anos, e muitos preveem que isso acontecerá bem no primeiro terço deste século. Assim que houver uma nanotecnologia e uma superinteligência, uma ampla gama de aplicações especiais surgirá rapidamente. Seria possível dar uma longa lista de exemplos em que pessoas no passado declararam solenemente que algo era tecnologicamente absolutamente impossível: os segredos do voo não serão dominados durante a nossa vida – nem dentro de mil anos.” (Wilbur Wright, 1901), ou socialmente irrelevantes: “Não há razão para que alguém queira ter um computador em casa” (Ken Olsen: Presidente, do Conselho e Fundador da Digital Equipment Corporation, 1977). – Apenas para vê-lo acontecer alguns anos depois. Contudo, é possível apresentar uma lista igualmente longa de casos de avanços previstos que não se concretizaram. Tal questão não pode e não deve ser resolvida enumerando paralelos históricos. Uma boa estratégia é analisar diretamente o que uma análise cuidadosa das restrições físicas e de engenharias subjacentes pode revelar. No caso das tecnologias futuras mais cruciais – superinteligência e manufatura molecular – tais análises já foram realizadas.

Diversos especialistas acreditam que elas serão provavelmente alcançadas nas primeiras décadas do século XXI. Outros especialistas acreditam que levará muito mais tempo. Parece haver mais divergências sobre a viabilidade e o cronograma da superinteligência do que da nanotecnologia. Outra possibilidade de visualizar para onde estamos caminhando é observar as tendências. Pelo menos desde o final do século XIX, a tecnociência, medida por uma ampla gama de indicadores, dobrou a cada 15 anos (Price, 1986).

Extrapolando essa taxa exponencial de progresso, somos levados a esperar mudanças drásticas em um futuro próximo. Seria necessária uma reversão abrupta das tendências atuais, uma desaceleração inesperada, para que as mudanças que muitos transumanistas preveem não aconteçam no século XXI.


E se não der certo? Não se tornar tangível?

O sucesso na empreitada transhumanista não é uma questão de tudo ou nada. Não existe um “isso” do qual tudo dependa. Em vez disso, existem muitos processos incrementais em jogo, que podem funcionar melhor ou pior, mais rápido ou mais lento. Mesmo que não consigamos extinguir todas as doenças, curaremos muitas. Mesmo que não alcancemos a imortalidade, podemos ter vidas mais saudáveis. Mesmo que não consigamos congelar corpos inteiros e revivê-los, podemos aprender a armazenar órgãos para transplante. Mesmo que não resolvamos a fome no mundo, podemos alimentar muitas pessoas. Com muitas tecnologias potencialmente transformadoras já disponíveis e outras em desenvolvimento, é claro que haverá um amplo escopo para o aprimoramento humano.

As tecnologias transhumanas mais eficientes, como a nanotecnologia em fase de máquina e a superinteligência, podem ser alcançadas por meio de vários caminhos independentes. Se encontrarmos um caminho bloqueado, podemos tentar outro. A multiplicidade de rotas aumenta a probabilidade de que nossa jornada não seja interrompida prematuramente. Há maneiras de fracassar completamente, principalmente se sucumbirmos a um desastre existencial. Os esforços para reduzir os riscos existenciais são de prioridade máxima.


Como usufruir da tecnologia transhumanista no meu cotidiano?


O transhumanismo é conhecido pelo equilíbrio entre as agendas acadêmicas, filosofias, éticas, causas políticas e movimentos artísticos. O transhumanismo não é um estilo de vida, uma religião ou um guia de autoajuda. O transhumanismo não deve dizer qual tipo de música ouvir, quais hobbies ter, com quem se casar ou como viver, assim como, digamos, ser membro da Anistia Internacional ou estudar biologia molecular, não poderia dizer tais coisas. Depende da situação e da necessidade do indivíduo, você pode ou não achar úteis algumas das opções de modificação ou aprimoramento humano já disponíveis. Algumas delas são elementares – exercícios, alimentação saudável, técnicas de relaxamento, gerenciamento de tempo, habilidades de estudo, tecnologia da informação, café ou chá (como estimulantes), educação e suplementos nutricionais (como vitaminas, minerais, ácidos graxos ou hormônios). Outras você pode não ter pensado, por exemplo, como obter um contrato de suspensão criônica ou mascar chiclete de nicotina por seus efeitos nootrópicos. Dando continuidade a alguns exemplos, medicamentos farmacológicos para o humor ou cirurgia de redesignação sexual – são adequados somente para pessoas com dificuldades ou necessidades especiais.

Como posso me tornar um pós-humano?


Até o momento, não há tecnologia do ser humano modificar-se para o pós-humano. Esta é a principal razão para o forte interesse em extensão da vida e criogenia entre os trans(h)umanistas. Aqueles de nós que viverem o suficiente para testemunhar o desenvolvimento de tecnologias atualmente previsíveis podem ter a chance de se tornarem pós-humanos. Embora não haja garantias de sucesso, há algumas coisas que podem ser feitas individualmente para aumentar um pouco as chances:

  1. Viver de forma saudável e evitar riscos desnecessários;

  2. Inscrição voluntária para a criônica;

  3. Estar atualizado sobre as pesquisas emergentes e economizar algum dinheiro para haver a possibilidade de acessar futuros tratamentos de extensão de vida quando estiverem disponíveis;

  4. Patrocinar financeiramente o desenvolvimento de tecnologias transhumanas, apoiar juridicamente, escolher uma carreira que possa contribuir para a materialização da tecnologia transhumana, trabalhar para tornar o acesso universal e tornar o mundo mais seguro contra riscos existenciais;

  5. Somar e contribuir com a difusão da causa transhumanista.

Enquanto isso, é possível desfrutar e aproveitar ao máximo as oportunidades que existem hoje para viver vidas dignas e significativas. Se compararmos nossa situação atual com a de nossos ancestrais históricos, a maioria (pelo menos aqueles de nós que não vive nos países menos desenvolvidos) descobrirá que as circunstâncias materiais para o florescimento humano são as melhores que já existiram. Além disso, possuímos um acúmulo sem precedentes de tesouros culturais e intelectuais, com os quais podemos enriquecer nossas experiências e a ampliação de horizontes.


Não seria entediante viver para sempre em um mundo perfeito?

Por que não arriscar? A palavra “perfeição” é um vocábulo vago e traiçoeiro. Há uma considerável discordância entre os transhumanistas sobre que tipo de perfeição é atingível e desejável, tanto na teoria quanto na prática. Provavelmente é mais sensato falar em melhorar o mundo do que em torná-lo “perfeito.” Seria entediante viver por um tempo indefinidamente longo em um mundo muito melhor? O mundo certamente poderia ser melhorado em relação ao que é agora, inclusive se tornando menos entediante. Se você se livrar da dor e do estresse associado, digamos, ao preenchimento da declaração anual de imposto de renda, as pessoas provavelmente não ficariam sentadas depois dizendo: “A vida parece sem sentido agora que não tenho mais formulários de imposto de renda para preencher.” É verdade que os aperfeiçoamentos materiais no meio ambiente podem não ser, por si só, suficientes para trazer felicidade duradoura. Se sua alimentação habitual é pão e água, uma caixa de biscoitos pode ser um banquete. Mas se você come fora todas as noites em restaurantes chiques, essa refeição requintada logo parecerá comum e normal; e qualquer banquete menor, como uma caixa de biscoitos, seria um insulto em comparação. Alguns cientistas cognitivos especulam que cada um de nós tem um “ponto de ajuste” de felicidade, ao qual logo retornamos, independentemente das mudanças no ambiente. Pode haver uma verdade considerável na sabedoria popular de que um automóvel novo e caro não o torna mais feliz (ou melhor, o torna mais feliz, mas temporariamente). De certa maneira, as mentes e os cérebros humanos simplesmente não foram projetados para serem felizes. Felizmente, há vários pontos de vista possíveis para abordar esse desafio.

Os macacos se envolvem em atividades que nós, humanos, acharíamos repetitivas e tediosas. À medida que nos tornamos mais inteligentes, ficamos entediados com coisas que teriam interessado nossos ancestrais. Ao mesmo tempo, abrimos um vasto novo espaço de possibilidades para nos divertirmos – e o novo espaço é muito maior do que o anterior. Humanos não são simplesmente macacos que conseguem obter mais bananas usando nossa inteligência como ferramenta. A nossa inteligência nos permite desejar coisas novas, como arte, ciência e matemática. Se em algum momento de sua vida indefinidamente longa você se cansar do mundo tão melhorado, isso pode somente indicar que chegou a hora de aumentar sua inteligência.

Se o cérebro humano possui um “ponto de ajuste” de felicidade ao qual retorna, talvez isso seja uma falha de projeto e deva ser corrigido – uma daquelas coisas que definiremos como humanas, mas não humanas. Provavelmente não seria sensato eliminar o tédio por completo, já que ele pode servir para nos impedir de perder muito tempo com atividades monótonas e sem sentido. Mas se estamos fazendo coisas novas, aprendendo, nos tornando mais inteligentes, e ainda assim não estamos felizes, sem nenhuma razão melhor do que o fato de nossa arquitetura cognitiva ser mal projetada, talvez seja hora de redesenhá-la.

Os medicamentos clínicos atuais para o humor são rudimentares, mas, mesmo assim, às vezes podem restaurar o interesse e o entusiasmo pela vida – às vezes, o cansaço e o desespero não têm uma razão interessante por trás deles e são simplesmente um desequilíbrio da química cerebral. Somente compartimentando nosso pensamento em alto grau podemos imaginar um mundo onde haja nanotecnologia molecular madura e uma superinteligência, mas ainda faltem os meios para controlar o circuito cerebral do tédio. Fundamentalmente, não há razão para que o prazer, a excitação, o bem-estar profundo e a simples alegria de estar vivo não possam se tornar o estado de espírito natural e padrão para todos que os desejam. Ed Regis (1990, p. 97) sugere que os seguintes pontos também sejam considerados:

  1. Qual é o problema de nosso cotidiano ser entediante?

  2. A vida eterna só será entediante ou excitante se você permitir.

  3. Estar morto é excitante?

  4. Se a vida eterna começar a ser entediante, você pode optar por acabar com ela a qualquer momento.

O transhumanismo não se trata de um veículo mais luxuoso, mais dinheiro ou dispositivos inteligentes, embora seja isso que a mídia nos apresenta como a “ciência” e a “tecnologia”; o transhumanismo se trata de mudanças genuínas na condição humana, incluindo uma inteligência e mentes mais sofisticadas para alcançar a felicidade.


Como participar e contribuir na consolidação do transhumanismo?


É possível filiar-se à WTA. A WTA é uma organização democrática e sem fins lucrativos que trabalha para promover a discussão sobre possibilidades de aprimoramento radical das capacidades humanas por meio da tecnologia, bem como sobre as questões éticas e os riscos envolvidos nos desenvolvimentos tecnológicos. A instituição foi fundada em 1998 como uma organização guarda-chuva para divulgar ideias transumanistas e buscar a aceitação acadêmica do transhumanismo como um movimento filosófico e cultural. A WTA organiza conferências, publica um periódico acadêmico e um webzine, emite comunicados à imprensa e coordena capítulos estudantis em campis e grupos transhumanistas locais ao redor do mundo. Para saber mais sobre projetos atuais e próximos eventos e para se tornar um membro, visite o próprio site da WTA.

A WTA vem crescendo desde a sua criação, especialmente nos últimos anos, mas a tarefa que temos pela frente é tão importante quanto árdua. Toda ajuda é necessária. Há diversas maneiras de contribuir: organizando ou participando de um grupo de discussão local, escrevendo artigos ou feedbacks ao editor, fazendo uma contribuição financeira, divulgando para amigos e conhecidos, oferecendo suas habilidades à WTA, traduzindo documentos importantes para outros idiomas, criando um link para a WTA no seu site, participando de conferências e compartilhando suas ideias, direcionando sua pesquisa ou atividade criativa para temas transhumanistas, para citar apenas algumas delas.

Se você, leitor, tiver interesse em desenvolver as teorias transhumanistas com mais profundidade, é possível encontrar alguns programas e listas de leitura no site da WTA para começar. Se quiser trocar ideias com outras pessoas ou somente acompanhar as conversas em andamento, pode participar de uma das listas de discussão e grupos de notícias mantidos pela WTA. As transições tecnológicas que se avizinham podem ser o desafio mais importante que a humanidade enfrentará. Todo o futuro da vida inteligente na Terra pode depender de como lidamos com isso. Se fizermos as coisas certas, um futuro pós-humano maravilhoso, com oportunidades ilimitadas de crescimento e prosperidade, pode estar à nossa frente. Se lidarmos mal com isso, a vida inteligente pode se extinguir.

Você não quer participar e tentar fazer a diferença?


REFERÊNCIAS


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2 Além de professor, fundou e dirigiu o Instituto Futuro da Humanidade (2005-2024), sediado na Universidade de Oxford. Fundador da Iniciativa de Pesquisa em Macroestratégia. Contato: office.nickbostrom@gmail.com.

3 Chamamos a atenção do leitor de que é possível encontrar três possibilidades de tradução da palavra “transhuman” para a língua portuguesa: “transhumano”, “transumano” e “trans-humano.” Com o objetivo de ser o mais literal do significado original do vocábulo e da vertente transhumanista à qual o filósofo de Oxford pertence, optamos pelo termo “transhumano.” Contudo, chamamos a atenção para a nossa compreensão sobre os usos dos vocábulos. “Transhumanismo”, tradução literal do vocábulo, além disso, a utilização do “h” significa que ainda há uma continuidade com o humanismo. “Transumanismo” é uma vertente radical e anti-humanista. Embora compreendamos as razões de que alguns estudiosos prefiram “trans-humanismo”, mesmo assim, preferimos não usar. “Trans(h)umanismo” para não ficar distinguindo de qual vertente estamos falando (com ou sem “h”), optamos pelo (h), pois nos permite falar das diversas vertentes de maneira mais geral. (NT).

4 Para um aprofundamento desta discussão sugerimos a leitura de Bostrom (2002).

5 As palavras “transhumanismo”, “transhumano” recebem alguma notoriedade, assim como começam a ser popularizadas a partir da publicação do livro de Ettinger (1972). Embora o próprio Ettinger reconheça que não é o criador do termo, consequentemente, não o primeiro a utilizar os termos mencionados. A palavra “transumanismo” foi cunhada por Julian Huxley em New Bottles for New Wine (1957); contudo, vale ressaltar que a utilização do termo que Huxley não possui a mesma conotação que a palavra possui na contemporaneidade.