sábado, 19 de dezembro de 2020

Matrix: uma introdução a filosofia

 O que é real? Como você define "real"?
                                                   Morpheus*

Certamente a trilogia Matrix** (1999 - 2003), dirigido pelas irmãs Wachowski inovou o cinema, sobretudo, os efeitos especiais. 
No presente texto daremos destaque ao primeiro filme da trilogia, Matrix (1999). Matrix é um filme que se enquadra no gênero de ficção científica, entretanto, o longa não apenas um filme de entretenimento, o longa possui, nuances, isto é, possui crítica social e metáforas de natureza religiosa/mística e filosófica, daremos destaque a este segundo tópico.
Como mencionado anteriormente, o longa convida o espectador a refletir sobre a natureza da realidade, isto é, através de uma linguagem mais contemporânea e adaptada para uma linguagem cinematográfica, as irmãs Wachowski fazem a seguinte indagação: e se vivêssemos em uma simulação artificial? Também podemos reformular a questão principal do longa: o que é real? 
A indagação sobre a realidade não é uma indagação original, desde a antiguidade até a contemporaneidade os filósofos se debruçam sobre essa pergunta. Filósofos como Platão  (427 a.C. - 347 a.C.) e René Descartes (1596 - 1650) são um dos principais filósofos que refletiram sobre a realidade.
“[...] Matrix parece explicitar diálogos com correntes contemporâneas de pensamento e mesmo com cânones da filosofia, como Platão e Descartes” (OLIVEIRA, 2011, p. 67).  
Aproveitando a natureza reflexiva do longa metragem, isto é, tomando como ponto de partida a reflexão sobre o real, apresentaremos como os filósofos Platão e René Descartes lidaram com a realidade.  
 
 Matrix

Matrix parece se oferecer como algo mais que um espetáculo de ação típico, ao aparentemente explicitar um diálogo entre sua trama e conceitos pertencentes a correntes filosóficas contemporâneas e clássicas.

                                                                                                                                    Adriano Oliveira***
 
 Antes de adentrarmos a proposta central deste tópico, é importante apresentar de maneira breve, além disso, contextualizar a obra cinematográfica, isto é, qual a repercussão do filme para a indústria cinematográfica, mais especificamente para o gênero cinematográfico a qual pertence.
 

The Matrix (1999) é, sob diversos aspectos, um fenômeno da indústria do entretenimento. Sucesso de público e crítica, o filme escrito e dirigido pelos irmãos Andy e Larry Wachowski, renovou o gênero da ficção científica, mesclando elementos aparentemente tão dispares como literatura fantástica, realidade virtual, artes marciais e referências à filosofia pós-moderna (OLIVEIRA, 2011, p. 61).

 O longa-metragem pertence ao gênero da ficção científica, além disso, o longa também pertence a outro subgênero da ficção científica: o cyberpunk.
O termo cyberpunk ganha notoriedade a partir da década dos anos 1980. No ano de 1983 lançado pela revista estadunidense de ficção científica Amazing Stories o conto Cyberpunk, escrito por Bruce Bethke, Bethke é o primeiro a usar o termo cyberpunk na literatura de ficção científica, outro escritor, também estadunidense que contribuirá para a consolidação da literatura cyberpunk é William Gibson, com o primeiro livro da trilogia Neuromancer (1984), mesmo sendo anterior a Bethke, a obra de Philip K. Dick, Androides Sonham com Ovelhas Elétrica? (1968) também pertence ao gênero cyberpunk, sendo este considerado a primeira obra cyberpunk mesmo o termo não existindo na época de sua publicação. Inspirado pela relação cibernética e cibercultura, é possível tomar o cyberpunk como mais uma analogia da relação entre homem e máquina.
De maneira geral, podemos afirmar que a realidade cyberpunk se passa em um futuro onde não existem humanos no sentido estrito da palavra, a realidade cyberpunk é composto por tecnologia avançada, seres híbridos (humanos como partes robóticas), androides ou até mesmo alienígenas. Também cabe mencionar que os eventos que se passam no universo do cyberpunk é na realidade virtual, deste modo, torna-se dificultoso distinguir a realidade da realidade virtual, além disso, o gênero cyberpunk enfatiza a questão sobre a liberdade. Mesmo a humanidade tendo aperfeiçoado a tecnologia, a humanidade tornou-se livre ou escravo do avanço científico/tecnológico? Tal questão fica claro quando percebemos que o gênero cyberpunk parte do seguinte pressuposto: “alta tecnologia e baixa qualidade de vida.”
As influencias do cyberpunk em Matrix são óbvias, desde a ambientação do filme, até o figurino usado pelos personagens. Quando os tripulantes da Nabucodonosor (nave de Morpheus) vão para a matrix, os personagens usam Mirrorshades, roupas escuras e óculos escuros espelhados. Uma clara alusão a obra de Gibson, Neuromancer.
 

[...] Gibson estabelece toda uma problemática e estética (seus personagens foram chamados de Mirrorshades porque usavam um figurino de jaquetas de couro pretas e óculos escuros espelhados) para uma geração de escritores. A estória sobre a paranóia de um hacker frente ao poder das megacorporações que aprisionam os indivíduos é a principal narrativa de Neuromancer e, também está presente em Matrix [...] (AMARAL, 2003, p. 02).   

Matrix é ambientada em 1999, virada do milênio, nela somos apresentado ao jovem programador de computador Thomas Anderson, por algum motivo desconhecido, Anderson começa a questionar os eventos que se passam ao seu redor, ou seja, Anderson não consegue distinguir a realidade da fantasia, isto é, de seus sonhos. A partir desta inquietação sobre a realidade, Anderson começa a se perguntar sobre a matrix: o que é a matrix? Com a interação e auxílio dos demais personagens da trama Anderson toma conhecimento da aterradora situação que a humanidade se encontra. 
Em um futuro próximo, Thomas Anderson, um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Em todas essas ocasiões, acorda gritando no exato momento em que os eletrodos estão para penetrar em seu cérebro. À medida que o sonho se repete, Anderson começa a ter dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus e Trinity, Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia****

Ao tomar conhecimento sobre a matrix, isto é, a matrix é uma programação de simulação, cujo objetivo é manter os humanos em estado de coma para que as máquinas possam consumir a energia produzido pelos corpos humanos, Neo, através das orientações de Morpheus e com a ajuda de Trinity inicia a sua jornada do herói com a finalidade de libertar a humanidade da simulação criada pela matrix.

Alegoria da caverna 2.0

Ao encontrar-se com o misterioso Morpheus, Neo é questionado por Morpheus:
 

Morpheus: Você acredita em destino, Neo?

Neo: Não.

Morpheus: Por que não?

Neo: Não gosto de pensar que não controlo a minha vida.

Morpheus: Sei exatamente o que quer dizer. Vou te dizer por que está aqui. Você sabe de algo.  Não sabe explicar o quê. Mas você sente. Você sentiu a vida inteira: há algo errado no mundo. Você não sabe, mas há. Como um zunido na sua cabeça... te enlouquecendo. Foi esse sentimento que te trouxe até mim. Você sabe do que estou falando?

Neo: Da Matrix?

Morpheus: Você deseja saber... o que ela é? A Matrix está em todo lugar. À nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela... ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho... quando vai à igreja... quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade.  

Neo: Que verdade?

Morpheus: Que você é um escravo. Como tudo mundo, você nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar... Uma prisão para a mente*****

O diálogo entre os personagens é uma clara alusão a filosofia platônica, mais especificamente a alegoria da caverna. A alegoria da caverna sozinha é tão famosa quanta a sua formulação original e totalizante, a passagem da alegoria da caverna encontra-se na República, livro VII, escrita por pelo filósofo ateniense Platão. No livro VII da República, o personagem Sócrates, convida seu interlocutores a imaginarem com ele uma caverna subterrânea, ao fundo da caverna existem indivíduos presos, mais especificamente, acorrentados dos pés à cabeça, na qual nenhum deles podem mover-se, apenas olhar para frente. Com a impossibilidade de algum movimento, os prisioneiros apenas enxerga sombras e ouvem sons destas sombras, sendo assim, as sombras e os sons que os prisioneiros ouvem e enxergam serão tomados como verdadeiros.  De forma inesperada um dos prisioneiros é liberto. A conversa entre Morpheus e Neo é uma alusão ao trecho mencionado sobre a alegoria da caverna, entretanto, há algumas alterações entre a alegoria da caverna imaginada por Sócrates e seus interlocutores e o diálogo entre os dois personagens da longa-metragem. Morpheus diz a Neo que não tem como ele descrever a matrix para Neo, cabe a Neo escolher se quer ou não saber o que é a matrix, ao escolher saber o que é a matrix, Neo, toma a pílula vermelha, ao tomar a pílula vermelha, inicia-se o processo de libertação de Neo. Momentos depois Neo desperta em um local estranho, o hacker acorda em uma espécie de invólucro aquoso, além disso, Neo percebe que há diversos plugues em seu corpo e logo percebe que por algum motivo desconhecido os plugues estão sendo desconectados de seu corpo, consequentemente o seu corpo é expelido do invólucro. Essa cena do despertar de Neo é uma alusão ao prisioneiro da caverna que está sendo liberto de sua prisão.
Ao ser expelido do invólucro Neo é jogado em um esgoto, logo depois Morpheus e seus companheiros encontra-o e começa uma série de reparações no corpo de Neo. Este momento do filme também é um paralelo com a alegoria da caverna, no momento em que o prisioneiro sai de sua prisão e vê o mundo exterior fica cego, pois, o prisioneiro nunca tinha visto o Sol e a iluminação solar. Ao sair da matrix Neo perde os movimentos de seu corpo, com a ajuda de Morpheus, o corpo de Neo é restaurado. Assim como Neo, momentos depois o indivíduo recupera a sua visão, a partir disso, o indivíduo/Neo começa a distinguir o que é verdadeiro e o que é falso.
Enquanto o diálogo platônico irá desenvolver um raciocínio sobre a educação, isto é abordará a diferenciação entre a representação da imagem e a imagem propriamente dita. Já Matrix, opta por reformular a alegoria da caverna para a linguagem cinematográfica a fim de instigar o espectador a refletir sobre a realidade, isto é, o mundo que Neo conhece não passa de uma ilusão/simulação da matrix, sendo assim, cabe a Morpheus ajudar Neo a se libertar da Matrix para que Neo possa destruir a matrix, para que a humanidade possa ser livre. 
 
 Ceticismo cartesiano em Matrix
 
 Algumas das reflexões que Matrix levanta certamente é sobre a realidade, como distinguir, o real de um sonho? Desde o início do filme percebemos que a relação sonho/realidade é posto em cheque.  
Ao olharmos atentamente as primeiras aparições de Neo no filme perceberemos que ele está dormindo e quando desperta, desperta surpreso, como se não soubesse que havia dormido, podemos ir além disso, ao acordar, Neo parece estar insatisfeito com a realidade em que vive, parece haver algo errado. Não saber distinguir a realidade do sonho, é um problema filosófico já conhecido entre os filósofos. René Descartes, o pioneiro da filosofia moderna aborda a problemática de como distinguir o real da fantasia.
O filósofo francês René Descartes ganhou notoriedade por extrapolar os limites da filosofia. Nas Meditações, Descartes sugere ao leitor suspender os cinco sentidos, isto é, o olfato, paladar, visão, audição e tato, indo mais além, o filósofo também sugere a suspensão de nossas crenças. Para Descartes, tanto as nossas crenças, quanto os nossos sentidos podem nos manipular, deste modo não sabemos distinguir o verdadeiro do falso. Ainda nas Meditações o filósofo francês alega não saber distinguir quando está acordado de quando está dormindo, mais especificamente quando encontra-se no plano dos sonhos. Ou seja, assim como Neo em Matrix, Descartes também possuí dificuldades em distinguir o real do irreal.
Após sair da matrix e o período de recuperação/restauração, Neo e Morpheus vão para a construção, isto é, o programa de carregamento da matrix, nela os personagens conversam sobre a dificuldade de aceitar que libertou-se da matrix.

Neo: Estamos dentro de um programa de computador?

Morpheus: É tão difícil de acreditar? As roupas diferentes, os plugs nos braços e cabeça sumiram, seu cabelo mudou, a sua aparência é o que chamamos de autoimagem residual, é a projeção mental do seu eu digital.

Neo: Isto não é real? 

                                      Morpheus: O que é real? Como você define “real”?******
A partir deste diálogo entre os personagens é possível traçar um paralelo entre Morpheus e Descartes, pois de algum modo ambos adotam uma postura cética sobre o que podemos conhecer e saber. A postura cética de ambos provém de algo em comum, a existência de uma entidade que possui habilidades que manipula a realidade, no longa essa entidade manipuladora é personificada como a inteligência artificial matrix e para Descartes é o gênio maligno. Entretanto, os meios  que Morpheus e Descartes propõem para atingir a verdade são distintos. Morpheus, recorre ao uso de pílulas, a pílula azul (continuar sendo manipulado pela inteligência artificial) ou a pílula vermelha (libertar-se da manipulação). Descartes recorre ao uso da razão, segundo o filósofo a partir do uso da razão, isto é do raciocínio lógico, da matemática será possível sobressair-se da falsa realidade criado pelo gênio maligno.
Embora a conclusão do primeiro filme seja a conclusão da jornada do herói e ao mesmo tempo flerta com a ideia de um herói messiânico, retornamos a questão inicial: e se vivemos em uma simulação? Existe um meio de superar/transcender tal barreira? 
Na contemporaneidade, o filósofo francês Jean Baudrillard (1929 - 2007) propõem um novo conceito: hiper realidade, já o filósofo sueco Nick Bostrom desenvolve a hipótese da simulação, deste modo, podemos verificar que a investigação sobre a natureza da realidade é inesgotável, mesmo com o avanço das ciências cognitivas e da inteligência artificial não encontramos uma possível resposta que nos satisfaça minimamente.

* Personagem do filme Matrix. 
** Para fins didáticos faremos a seguinte distinção: Matrix quando mencionarmos o título do longa, e, matrix quando mencionarmos a entidade/inteligência artificial.
*** OLIVEIRA, Adriano A. A irrealidade no cinema contemporâneo.Cruz das Almas (BA). UFRB, 2011. Cap. 1, p.  20. 
*****  MATRIX, 1999, 26m49s-28m33s.
******Ibid.  39m52s-40m20s.
 
REFERENCIAS
 
ADORO CINEMA. Matrix.
DESCARTES, René. Meditações. In: DescartesTrad. J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. 3a  ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores). 
IRWIN, William (org.). Matrix. Bem-vindo ao deserto do Real. Trad.Marcos Malvezzi Leal. São Paulo: ed. Madras, 2003.
MATRIX. (The Matrix). Direção: Andy Wachowski; Larry Wachowski. Produção: Silver, Joel. Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski. EUA: Warner Home Video. 1999. DVD (136 min.).
OLIVEIRA, Adriano A. A irrealidade no cinema contemporâneo. Cruz das Almas (BA). UFRB, 2011.
PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. 9ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
 

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Ciência e magia

Magia! Não os truques ilusionistas do Ocidente, mulheres serradas ao meio e coelhos na cartola. Não o espetáculo vulgar da ioga oriental, do caminhar sobre o carvão em brasa, alegando iluminação*.

O que é ciência? O que é magia? Quais sãos as suas respectivas convergências e divergências?
Neste pequeno ensaio partiremos do pressuposto que tanto a ciência quanto a magia estão em pé  de igualdade, isto é, ambas serão consideradas como área de conhecimento. Assim como no campo das ciências existem os intelectuais desonestos e os sofistas, no campo da magia existem os charlatões. 
Mesmo aceitando que a ciência e a magia são áreas do conhecimento não estamos afirmando e estimulando o relativismo, ao contrário, partimos do pressuposto ambas as áreas coexistem e contribui para a ampliar a compreensão sobre a realidade ontológica do mundo.
Dando continuidade deste ponto de vista, é possível mencionar alguns personagens relevantes das histórias em quadrinhos que ao mesmo tempo são cientistas e magos, são eles Doutor Estranho/Stephen Strange, um médico que tornou-se o mago supremo (Marvel Comics), Doutor Destino/Victor Von Doom, cientista e ocultista, tão poderoso quanto o próprio Doutor Estranho (Marvel Comics). 
Para dar continuidade ao texto é importante apresentar a definição* de magia:
Magia: As questões filosóficas levantadas pela prática da magia e da bruxaria em muitas culturas dizem a respeito à natureza da interpretação. A interpretação mais simples das práticas mágicas diz que se trata de má ciência: representam tentativas para controlar acontecimentos por meios inadequados. Só uma "mentalidade primitiva", inferior ao pensamento científico ocidental, poderia ignorar essa inadequação (Ver Levy-Bruhl). O problema é que se uma interpretação de uma prática tem de supor uma irracionalidade generalizada, ela vai de encontro ao princípio de humanidade e torna necessária uma compreensão menos preconceituosa e com mais empatia. Uma alternativa, de que E.E. Evans-Prichard foi pioneiro em Witchcraft,Oracles and Magic among the Azande (1937), destaca a função da crença na magia como base na ordem social, diluindo as tensões e as agressões e servindo como válvula de escape para a inveja e o ciúme. A magia, tal como outras práticas religiosas, passa a ser vista como não racional, em vez de irracional, e com a função social simbólica. O próprio Evans-Pritchard acreditava que os azande explicavam os acontecimentos em dois níveis distintos, um que estava de acordo com as normas ocidentais da razão e outro que não estava; mantém-se assim em aberto a questão de saber se este segundo nível implica a irracionalidade.
 Deste modo, é válido considerar a magia como uma forma de conhecimento ancestral, ou seja, o conceito de magia pode ser interpretada de duas formas: I) teoria do conhecimento ancestral; II) ontologia ancestral. Ambas as categorias contribuem para a compreensão sobre as mais diversas cosmovisões  existentes em nossa realidade.
Sendo assim, retomamos a questão: o que é ciência? Uma possível resposta é dizer que a ciência, isto é, o modo que se fazemos ciência são baseados em um conjunto de crenças que são consideradas como verdadeiras tanto pela comunidade científica quanto pelo senso comum. Fazer ciência também é considerado como uma atitude racional, isto é, para fazer ciência é necessário o uso da razão, ou seja, o conhecimento científico exclui qualquer resquício místico/metafísico. Pensadores como Imannuel Kant  em seu livro mais conhecido Crítica da Razão Pura é notório por tecer criticar a metafísica tradicional/dogmática. Já na contemporaneidade, isto é, em meados do séc. XX, um grupo de filósofos conhecidos como o Círculo de Viena também se recusavam a refletir sobre questões metafísicas, esse grupo de pensadores dedicavam-se ao positivismo lógico***. O filósofo alemão Rudolf Carnap, também integrante do Círculo de Viena, foi um grande oponente para a metafísica.**** 
Entretanto, ainda no séc. XX, enquanto o Círculo de Viena exercia influência no pensamento científico e filosófico, o filósofo austríaco Paul Feyerabend através de seu livro Contra o Método "debocha" do conhecimento científico, consequentemente, do conhecimento filosófico-científico.
Segundo Feyerabend, apenas o conhecimento científico não é o suficiente para compreender e interpretar o mundo. Feyerabend compreende que o conhecimento ancestral, isto é, magia, em determinado momento é mais eficiente do que a própria ciência, o filósofo menciona o seu caso em particular, a eficiência da acupuntura.  Se olharmos para o passado, isto é, o período em que ocorria a inquisição, ou melhor, caça às bruxas, muitas das mulheres acusadas de bruxaria detinha o conhecimento medicinal de algumas plantas, ao ser o oposto que era promovido pela medicina convencional de sua época, eram acusadas de bruxaria, consequentemente eram assassinadas brutalmente, na maioria dos casos, tais assassinados eram em nome da fé.
Mesmo na contemporaneidade com a (r)existência de comunidades originárias, com muita dificuldade o conhecimento ancestral é mantido, personalidades como Ailton Krenak e Davi Kopenawa e a filosofia  ubuntu tem mostrado para o Ocidente que a razão e o progresso cientifico não é apenas danoso as criaturas vivas e não-vivas existente nesta realidade, mas também para o planeta, ou seja, o discurso sobre o progresso e o uso da razão difundido pelo iluminismo e perdurou até a contemporaneidade é um discurso perigoso, pois contribui para a legitimidade de um modo  de colonizar, além disso contribui para a aceleração da autodestruição das cosmovisões existentes.
Deste modo, concluímos que há possibilidade de uma coexistência entre a ciência e a magia como áreas do conhecimento, consequentemente, novas interpretações, percepções e meios de vida surgem.  

*Narrador. Dan Green & J. M. DeMatteis. Doutor Estranho: Shamballa.

** Verbete do Dicionário Oxford de Filosofia, ed. Zahar.


 Para assistir:

Para ler:

Claudemir Roque Tossato. O Conhecimento científico.
Dan Green & J. M. DeMatteis. Doutor Estranho: Shamballa.
Davi Kopenawa & Bruce Albert. A queda do céu: Palavras de um xamã Yanomami. 
Denny O'Neil & Stan Lee. Doutor Estranho: Uma Terra sem nome, Um Tempo sem fim.
Eduardo Viveiros de Castro. Encontros.
E.E. Evans-Pritchard. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande.
Paul Feyerabend. A Ciência em uma Sociedade Livre.
Paul Feyerabend. Contra o Método.
Roger Stern & Mike Mignola. Doutor Estranho e Doutor Destino - Triunfo e Tormento.
Wolverine #38 (1995). Na Terra do Pesadelo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Apocalipse zumbi como metáfora da pandemia

Inicialmente este pequeno ensaio foi concebido como trabalho de conclusão da disciplina Tópicos Especiais História da Filosofia Contemporânea I, ministrado pela Profa. Dra. Juliana Fausto e Prof. Dr. Marco Antonio Valentim, disciplina ofertada no curso de graduação do curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná (UFPR) . Agradeço aos amigos Matheus Garcia e Tayeshi Kadosaki pelos comentários durante a formulação do ensaio.


Estamos nós, os humanos, histéricos, diante
da possibilidade do fim do nosso mundo.
Enquanto isso, para a manutenção do que
pretendemos salvar, aniquilamos
diariamente muitos mundos e ponto de vista.*


Ao longo da história, a filosofia é tida como inútil, na contemporaneidade não é
diferente. Mesmo em contexto de pandemia, a filosofia, consequentemente, os filósofos,
são tidos como inúteis. Entretanto, a filosofia, não tem a pretensão de propor uma solução
que erradique ou minimize o corona vírus (COVID-19), ou seja, a contribuição da filosofia
é mais modesta comparada com as demais áreas do conhecimento como a biologia ou a
medicina. A contribuição da filosofia está na reflexão e no desdobramento da mesma. A
finalidade deste texto é propor uma reflexão que contribua de algum modo no debate
político sobre a pandemia do COVID-19 através da imagem que temos sobre o apocalipse zumbi.
Percebemos, assim, como a questão da extinção é moldada, em
um certo imaginário, segundo categorias da ficção científica. A
antropóloga Genese Sodikoff, a esse respeito, comentou que “a
adoção, por parte dos biólogos conservacionistas, da metáfora do
zumbi [...] e a imensa popularidade dos temas apocalípticos e de
zumbi nas TVs europeia e americana diz algo sobre a experiência
subjetiva da mudança planetária no Norte do globo e sobre os
modos como projetamos a forma das coisas que virão. ‘Este é
nosso evento de extinção’, diz um personagem na série de zumbis
The Walking Dead” (FAUSTO, 2015, p. 04).
 A extinção da espécie humana sempre esteve no imaginário do mesmo, a partir
dos meados da década dos anos 1960, a sugestão de um apocalipse zumbi começa a ser
apresentado as massas através do cinema. Damos destaque ao primeiro filme da trilogia
dos mortos-vivos do diretor estadunidense George Romero, Night of the Living Dead
(1968). No longa-metragem somos apresentados a um casal de irmãos que são atacados
por um personagem misterioso (morto-vivo), após sobreviver ao ataque da criatura, a
garota Barbara foge para uma casa que supostamente não tem ninguém na casa, para a
surpresa da jovem sobrevivente, existe um pequeno grupo de sobreviventes na casa que
surgem com o desenrolar da trama, juntos os personagens tentam descobrir como os
mortos-vivos foram reanimados, ao mesmo tempo tentam sobreviver a nova ameaça,
uma ameaça que não ser contida, uma ameaça que pode extinguir a espécie humana da
face do planeta. Após o sucesso do longa-metragem, Romero, ira retornar a temática do apocalipse zumbi em produções posteriores, além dos filmes de Romero, outros cineastas
irão abordar a temática do apocalipse zumbi (ao seu modo) no cinema, ou seja, o
apocalipse zumbi tornou-se pop. 
O enredo dos filmes é quase sempre o mesmo: um vírus ou
infecção, geralmente causado por intervenção humana direta
(uma tentativa de vacina ou outro experimento médico que deu
errado) contamina, em pouco tempo, grande parte da
humanidade, que se converte em zumbis, mortos-vivos que
perseguem os poucos não contaminados para contagiá-los ou
comê-los**.
 Partimos do pressuposto que o apocalipse zumbi é resultado da hiperaceleração
do capitalismo, isto é, o homem provocou a sua própria destruição. Entretanto, além de
não estar preocupado com a extinção da própria espécie, o regime capitalista contribui
para a extinção de outras espécies, a especie não-humana. Antes de dar prosseguimento
é valido dizer que o que denominamos como não-humano é aquele que não se encaixa na
lógica capitalista, ou seja, são os povos indígenas, comunidades quilombolas, árvores,
animais, rios e etc.
Ailton Krenak, em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), convida
o leitor a refletir sobre o conceito de humanidade: “Talvez estejamos muito condicionados
a uma ideia de humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão,
talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo”
(KRENAK, 2019, p. 29).
Segundo a proposição de Krenak, o conceito de humanidade proposta pela modernidade
não é suficiente quando tentamos refletir/dialogar com os demais povos, sejam eles
humanos ou não humanos. No posfácio do livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo,
redigido por Eduardo Viveiros de Castro, a crítica de Krenak é mais explicito ainda:
“A pergunta que Ailton Krenak dirige aos leitores neste livro é tão simples quanto
inquietante: «Somos mesmo uma humanidade?»”(VIVEIROS DE CASTRO, 2020, p. 2).
Se a horda zumbi é resultado da hiperaceleração do capitalismo, os humanos
remanescentes são aqueles que os modernos chamavam de selvagens ou não-humanos,
isto é, povos que não aderiram ao sistema capitalista e vivem
marginalmente/paralelamente a esse sistema, em outras palavras, os humanos
remanescentes são as comunidades quilombolas e as tribos indígenas.
Ao subverter a raciocínio moderno, isto é, ao tomarmos o apocalipse zumbi como
consequência e estágio final do capitalismo e declararmos que os humanos remanescentes
serão os não-humanos (indígenas e quilombolas), percebemos que houve uma virada
(subversão) ontológica. Em outras palavras, o pensamento moderno não é o suficiente
para compreendermos a realidade. Se insistirmos no projeto moderno, isto é, o
capitalismo, a espécie humana estará fadada à extinção, é necessário que haja meios para
reverter tal cenário, isto é, um final catastrófico. 
Um vírus é um parasita que se replica às custas de seu hospedeiro, às
vezes matando-o. É isso que o capitalismo tem feito com a Terra desde
o início da revolução industrial, durante muito tempo sem sabê-lo.
Agora sabemos, mas parece que temos medo da cura, que também
conhecemos, ou seja, uma reviravolta em nossos modos de vida***.
Assim como o vírus zumbi, o capitalismo também é um vírus, como aponta
Descola, entretanto, insistimos em tentar conviver “harmoniosamente” com esse vírus, no
entretanto, como é demonstrado nos filmes de zumbi, e também com o advento da pandemia,
é impossível coexistir de modo harmonioso com o vírus, ou seja, o que está em jogo não
é a retórica ou o discurso político (embora exista um projeto político de extermínio,
promovido por governos autoritários/neofascistas), o que está em jogo é a vida, vida
humana, não-humana e as demais cosmologias existentes no planeta.
O advento da pandemia do COVID-19 trouxe a tona a ineficácia do modelo
capitalista (e também do modelo neoliberal), se a espécie humana insistir em prosseguir
com o capitalismo, a vida será extinta, os novos habitantes do planeta será os monstros,
isto é, zumbis e máquinas. Um possível modo da espécie humana existir no planeta é
coexistindo harmoniosamente com os não-humanos, ou seja, o humano além de conviver
deve apreender e compreender a cultura e a ciência/metafísica não humana para que
ambos possam adiar o fim do mundo de um modo tão catastrófico.

 *FAUSTO, Juliana. Rato candango, homem zumbi. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 08, página 12 -17, 2015. Disponível em: https://piseagrama.org/rato-candango-homem-zumbi/. Acessado em Agosto de 2020.
** CERA, Flávia; NODARI, Alexandre. A horda zumbi. RaSTROS, 6: 1-4. Disponível em: http://culturaebarbarie.org/rastros/rastrosn6s.pdf. Acessado em agosto de 2020.
***DESCOLA, Philippe. Nós nos tornamos vírus para o planeta. In: Pandemia Crítica (n-1 edições), n. 75. Disponível em: https://www.n-1edicoes.org/textos/137. Acessado em agosto de 2020.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Super-Heróis e autoritarismo

Tanto nos quadrinhos, quanto nas animações, comumente os vilões são tidos como representantes do autoritarismo, personagens como Adão Negro e Doutor Destino são exemplos de lideres autoritários. Entretanto, alguns heróis já foram retratados como lideres autoritários, o videogame Injustice: God Among Us  aborda essa problemática. No videogame, após uma tragédia, o filho de Krypton, Superman decide instaurar uma nova ordem mundial, ou seja, Superman tornou-se um ditador.
No universo de Injustice o temor de Lex Luthor tornou-se realidade, Superman, voltou-se contra humanidade. Nem mesmo Atlântida ou Themyscira resistiram ao regime autoritário de Kal-El. A Liga da Justiça deste universo é dissolvida. Deste modo, é possível fazer a seguinte pergunta: como resistir a um governo autoritário que é liderado por uma entidade quase divina?
Para darmos prosseguimento da reflexão é interessante tentar definir o conceito de autoritarismo*.
Nos regimes autoritários a penetração-mobilização da sociedade é limitada: entre Estado e sociedade permanece uma linha de fronteira muito precisa. Enquanto o pluralismo partidário é suprimido de direito ou de fato, muitos grupos importantes de pressão mantêm grande parte da sua autonomia e por consequência o Governo desenvolve ao menos em parte uma função de árbitro a seu respeito e encontra neles um limite para o próprio poder. Também o controle da educação e dos meios de comunicação não vai além de certos limites. Muitas vezes é tolerada até a oposição, se esta não for aberta e pública. Para alcançar seu objetivos, os Governos autoritários podem recorrer apenas aos instrumentos tradicionais do poder político: exercito, polícia, magistratura e burocracia.
Entretanto, existe um pequeno grupo que resiste ao regime instaurado pelo filho de Krypton. Além disso, acidentalmente alguns integrantes da liga e o Coringa de outra realidade chegam a realidade em que Superman é um ditador, com isso os viajantes decidem aderir a resistência e derrubar o regime.
Com esta breve apresentação do enredo do jogo, é possível traçar uma relação entre a narrativa do jogo e atual crise política: o desgaste da democracia.  Mesmo com eventos catastróficos como a II Guerra Mundial, isto é, a ascensão de a Hitler e o genocídio promovido pelos regimes de natureza autoritária, mesmo  após 75 anos, a sociedade  contemporânea insiste em preservar e difundir em discursos de ódio, consequentemente, gerando conflitos que corroboram com o fim da democracia, deste modo contribuindo com regimes autoritários mais intolerante e violento do que no passado. 
Uma possível resposta para tal inquietação é afirmar que não sabemos lidar com a nossa liberdade e prosperidade social, ou seja, a liberdade não deve ser alcançada, sendo assim, para manter o status quo em funcionamento, o discurso autoritário ganha notoriedade, pois, ter liberdade é questionar o status quo  e para de acordo com certos círculos políticos o status quo deve ser mantido a qualquer custo, mesmo que seja através da coerção.
Retornando a Injustice, a resistência consegue destituir Superman do poder, ou seja, liberdade é reinstaurada. Deste modo podemos concluir que mesmo com as suas lacunas, a democracia deve ser preservada, isto é, a democracia é um regime ainda eficiente. 
"A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela" Winston Churchill.

  *Trecho do verbete Autoritarismo, Dicionário de Política, Noberto Bobbio et al.  

Para assistir:


 


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Seria os super-heróis agentes do Estado?

Desde as suas primeiras aparições nas histórias em quadrinhos, personagens como Capitão América, Sargento Rock ,Super-Homem e Tocha Humana (Jim Hammond) participaram da II Guerra Mundial ao lado dos Aliados contra o Eixo, ou seja, os super-heróis desenvolveram um grande papel durante a guerra no imaginário dos leitores e também no próprio universo das histórias em quadrinhos. Com a popularização dos super-heróis nos quadrinhos, logo foram adaptados para o rádio, cinema, jogos eletrônicos e a televisão. Mesmo tratando de personagens ficcionais é interessante levantarmos algumas questões: os super-heróis respondem a quem? seriam os super-heróis funcionários do Estado?
Um modo de tentar responder as questões acima, é importante retomarmos outra questão: o que é ser super-herói?
Comumente o super-herói é aquele que possui características virtuosas: bondoso, coragem, defensor dos fracos e oprimidos, o super-herói também são tido como referência de padrão estética: corpo perfeito, cabelo alinhado e etc... o vigilante também é retratado como alguém altruísta, isto é, as suas ações são voltadas ao bem-estar da sociedade. 
Partindo deste pressuposto podemos compreender o porque de personagens como Capitão América e Superman são tidos super-heróis, entretanto, partindo do pressuposto mencionado acima, percebemos que surge um novo problema: O que faz os personagens como Comediante e Dr. Manhattan serem considerados como super-heróis? O primeiro é um criminoso de guerra, cometeu inúmeras atrocidades na guerra do Vietnã, além disso, tentou estuprar sua colega de trabalho, a também combatente do crime Espectral I, mesmo promovendo inúmeros atos perversos, o Comediante possui legitimidade de atuar como super-herói em solo americano, ou seja, percebemos que existe uma intervenção do Estado (EUA) sobre o controverso herói.
Ainda no universo de Watchmen, temos Dr. Manhattan, um físico nuclear que adquiriu habilidades sobre-humanas, considerado por seus pares como um ser quase divino. Mesmo sendo o único com habilidades sobre-humanas Dr. Manhattan perdeu a sua essência humana, ou seja, Dr. Manhattan não usa as suas habilidades em prol da humanidade, no entanto, mesmo não desenvolvendo afetos com a humanidade, Manhattan é usado como arma ambulante (e ideológica) pelo Estado, ou seja, também de modo controverso Dr. Manhattan é reconhecido como super-herói. 
Retornando ao universo convencional de super-heróis a relação entre os vigilantes mascarados e o Estado são explorados: Na HQ de Frank Miller, Batman: O Cavaleiro das Trevas conhecemos um mundo sem super-heróis, são considerados como foras da lei, o único super-herói na ativa é o Superman, no entanto, ele não é mais um super-herói, o kryptoniano é um funcionário do Estado, isto é, de modo consensual, o escuteiro azul concede as suas habilidades para que os EUA expanda o seu poder de influência sobre as demais nações. 
Ao mencionar alguns personagens de certas história em quadrinhos, percebemos que existe uma relação entre o governo e os super-heróis. Deste modo, é possível chegar a seguinte conclusão: não existem super-heróis, mas sim super-agentes. Partindo do pressuposto da existência de super-agentes podemos fazer a seguinte pergunta: o que difere um super-agente de um mercenário? O que difere o Superman do Exterminador ou o Homem de Ferro do Deadpool?
Ainda sobre o que significa ser super-herói vale a pena mencionar Guerra Civil Marvel (2006 - 2007).
Após um incidente desastroso envolvendo a comunidade de super-heróis, deste modo, o governo lança 
a Lei de Registro de Super-Herói, na qual as identidades dos heróis são reveladas, assim como os mesmos serão transformados em funcionários das Nações Unidas, ou seja, a autonomia e a segurança dos heróis são restringidas.  De um lado temos Tony Stark, o Homem de Ferro, um entusiasta da Lei de Registro, de outro, temos Steve Roger, o Capitão América que discorda da Lei de Registro, sendo assim, inicia-se uma tensão interna entre os heróis, por um lado liderados pelo Homem de Ferro, os favoráveis a Lei de Registro, e de outro, liderados pelo Capitão América, que são contra a Lei de Registro. Para o supersoldado os super-heróis estão acima de qualquer governo, portanto possuem autonomia, logo são livres. 
Diferente do Estado, devido o seu caráter altruísta , o super-herói sabe de fato que é o bem e o que é o mal. O Capitão América combateu a ameaça nazista, o Super-Homem combateu e combate ameaças como Lex Luthor ou Darkseid, não porque algum governo solicitou ajuda, eles combateram porque o senso de justiça e de liberdade estão acima de qualquer ideologia. 
Sendo assim, percebemos que existe um relação intrínseca entre o super-herói e a liberdade, além desta relação, também podemos perceber que o super-herói surge em tempos de crise em que a sociedade se encontra. Por mais que seja fictício, a ideia de um salvador da humanidade é crucial para que haja esperança*.  
 
*Também vale destacar que ao mesmo tempo que a personificação de um herói seja importante pois, traz esperança para a sociedade, a mesma imagem do herói pode trazer a ruína de uma sociedade, pois a partir da personificação do herói surge o governante autoritário. Ver: Alan Moore e David Lloyd. V de Vingança.; Injustice: God Among Us.  

Para assistir:

Para ler:

Frank Miller. Batman: O cavaleiro das trevas.
J. M. Dematteis, Keith Giffen. Liga da Justiça Internacional.
Victor Callari. Guerra Civil Super Heróis, Terrorismo e Contraterrorismo nas Histórias em Quadrinhos.