domingo, 26 de fevereiro de 2023

Transhumanismo e liberdade

O que é liberdade?
Como uma pergunta pequena como essa pode assombrar a sociedade ao longo da história?
Existe liberdade? A liberdade possui limites? O entendimento que possuímos de liberdade interfere no discurso político, nas políticas públicas? 
Ao longo deste pequeno ensaio todos estes questionamentos serão contemplados, sejam diretamente ou indiretamente.
Com o advento da tecnociência, a sociedade contemporânea visualiza a possibilidade do prolongamento da vida humana (ou até mesmo a imortalidade) como algo plausível, através do aprimoramento humano (human enhancement)*, segundo uma série de personalidades como David Pearce, Francesca Ferrando, Natasha Vita-More, Julian Savulescu e Nick Bostrom advogam que o aprimoramento humano é o próximo passo da evolução humana, o transhumano (ou o pós-humano).
 

 
 
Em rápidas palavras o transhumanismo pode ser definido como um movimento "futurista" que busca superar a condição humana (natureza humana) através da relação simbiótica entre organismo vivo e a tecnologia. 
Julian Huxley (1887-1975), um importante cientista da sua época, foi um dos primeiros a utilizar a palavra "transhumanismo". Para Huxley, assim como os demais organismos vivos, o homem também está em processo de evolução; no entanto, o homem possui um diferencial em relação aos demais organismos, pois, além da evolução biológica, o homem também evolui através do progresso científico. Ou seja, a partir da primeira revolução industrial (1760-1840) e a pós-Segunda Guerra Mundial a tecnologia deu um grande salto e, deste modo, com o auxílio da tecnologia, o homem iria transcender de um modo jamais imaginado, o termo que Huxley encontra para explicar essa transcendência é a palavra transhumanismo.
Como podemos ver, o projeto transhumanista promete o aprimoramento da espécie humana (ou seria uma nova espécie?) e prolongamento da vida através da simbiose com a (nano)tecnologia, além da promessa de nossas consciências viverem fora do nosso corpo orgânico através do procedimento de mind uploading.
A partir dos avanços das tecnociências e das biotecnologias o que era como mera especulação (ou até mesmo extrapolação) da ficção científica vem se materializando, isto é, as promessas do transhumanismo já começaram a tornar realidade, filósofos como Julian Savulescu afirma que se já há meios do homem evoluir, o mesmo possui o dever (responsabilidade)** de evoluir do humano para o transhumano.
Um dos problemas que algum adepto do transhumanismo tem de lidar é justamente com o a liberdade. Nós possuímos a autonomia de alterar o nosso corpo como bem queremos? O que estamos entendendo por liberdade neste momento?
Segundo o verbete "liberdade" do Dicionário de filosofia, de Nicola Abbagno:
 Liberdade como autodeterminação ou autocausalidade, segundo a qual a liberdade é a ausência de condições e limites. II liberdade como necessidade, que se baseia no mesmo conceito da precedente, a auto determinação, mas atribuindo-a à totalidade a que o homem pertence (Mundo, Substancia, Estado); III liberdade como possibilidade de escolha, segundo a qual liberdade é limitada e condicionada, isto é, finita. Não constituem conceitos diferentes as formas que a liberdade assume nos vários campos, como por exemplo liberdade metafísica, liberdade moral, liberdade política, liberdade econômica e etc. A disputas metafísicas, morais políticas, econômicas, etc, em torno da liberdade são dominadas pelos três conceitos em questão, aos quais, portanto, podem ser remetidas as formas específicas de liberdade sobre as quais essas disputas versam.
Através desta definição vislumbramos que o entendimento corriqueiro sobre liberdade não comporta as complexidades existentes neste conceito. Assim como foi ao longo da história, a compreensão de liberdade foi sendo alterada, o mesmo ocorre na contemporaneidade. Ao refletirmos sobre o transhumanismo e as suas implicações reais no mundo, percebemos que não é uma liberdade qualquer que o transhumanismo está reclamando para si, é uma liberdade um tanto desconhecida, a liberdade morfológica(morphological freedom).
Embora seja um conceito ainda em formação, a liberdade morfológica pode ser compreendida como uma extensão da liberdade individual, mais especificamente a liberdade morfológica é o direito de autopropriedade que o indivíduo possui do próprio corpo.
Como mencionado, o conceito de liberdade morfológica ainda está em desenvolvimento, entretanto, é um conceito que vem chamando atenção da filosofia, da bioética e da jurisprudência. Dois nomes importantes para a difusão deste conceito são os filósofos contemporâneos Anders Sandberg e Max More. More é tido como o formulador do conceito, cabe ressaltar que More é um entusiasta do transhumanismo extropiano***, que está relacionado a uma ideologia deturpada do liberalismo, para os transhumanistas extropianos não há problemas que Gaia esteja em ruínas, a vida orgânica baseada em carbono não importa.
Assim como os pensadores da antiguidade já chamavam atenção para os problemas da liberdade, na contemporaneidade a partir do progresso tecnocientífico e biotecnológico tais perigos tornou-se mais aguda.
Para os filósofos transhumanistas a liberdade morfológica deve ser levada em consideração, ou seja, e não essa concepção usual de liberdade social, pois, segundo esta visão, a liberdade social possui uma série de restrições que não permite que a humanidade atinja o próximo estágio evolutivo.
O transhumanismo provoca uma série de reações, uma delas é a urgência de uma reformulação ética em nível global. Até onde a humanidade está disposta a avançar em nome do progresso evolutivo?

* Neste texto não iremos adentrar nas especificidades do conceito de aprimoramento humano, assim como não iremos comentar sobre o progresso da terapia genética, para os interessados pelo tema indicamos a leitura do texto anterior "Gattaca e o aprimoramento humano."
**Embora neste ensaio não tenha a pretensão de aprofundar no assunto, gostaria de chamar a atenção para a palavra "responsabilidade", Savulescu e outros filósofos transhumanistas não utilizam esta palavra no mesmo sentido que Hans Jonas usa, por exemplo. Enquanto o primeiro utiliza no sentido do progresso, o segundo usa no sentido de cuidado.
 *** Neste momento a palavra extropia é usada como antônimo de entropia.
 
Para assistir:
 
 
Para ler:
 
Luc Ferry. A revolução transumanista.
Nick Bostrom & Julian Savulescu (Eds.). Human enhancement.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Gattaca e o aprimoramento humano

Como bem sabemos, a ficção científica surge como uma especulação do futuro. Como será a sociedade do futuro? Quais serão os avanços da ciência e da tecnologia? Essas são algumas das inquietações que o gênero traz para os entusiastas da ficção científica. O longa-metragem de ficção científica estadunidense Gattaca (1997) não é diferente.
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em Gattaca - A experiência genética, somos apresentados a um futuro não muito distante, neste futuro somos apresentados a uma prática "incomum", durante o período de estação de uma criança, os pais possuem a liberdade de escolha em intervir no genoma da criança que está sendo gerada. Em outras palavras, os pais podem corrigir alguma anomalia genética ou até mesmo aperfeiçoar algum gene da criança que está sendo gerada. 
Desta maneira a sociedade está dividido em dois grupos: a dos válidos - indivíduos considerados como perfeito (geneticamente aprimorado) e os inválidos - indivíduos imperfeitos (pessoas que não foram geneticamente aprimoradas). 
A partir desta divisão, o funcionamento desta sociedade procede da seguinte maneira: os inválidos são condicionados não possui acesso aos melhores empregos, as melhores funções ou até mesmo de desfrutar de certos prazeres carnais. Já os válidos são o inverso.
No início do longa-metragem conhecemos a história de dois irmãos, Vincent e Anton Freeman, o primeiro é um inválido, isto é, nasceu com diversas doenças genéticas, logo após o seu nascimento e ter o seu DNA analisado, o médico já sentencia o prazo de vida de Vincent.
Devido a imperfeição genética de Vincent os seus pais decidem ter outra criança, Anton, no entanto, ao contrário do seu primogênito, os pais decidem que Anton seja aprimorado geneticamente, ou seja, Anton é um válido. Ao longo da apresentação destes personagens torna-se cada vez mais explícito o funcionamento do preconceito genético.

Vincent (Ethan Hawke)
Entretanto, mesmo sendo um inválido, Vincent não aceita a sua condição, Vincent deseja fazer uma viagem espacial, uma atividade permitida apenas para os válidos.
Mesmo que devido a sua condição seja impossível Vincent está disposto a qualquer coisa para realizar tal viagem, mesmo que seja através da ilegalidade.
Através desta breve apresentação do longa, conseguimos notar que a ficção se tornou realidade, através dos avanços da biotecnologia, bioengenharia e da biomedicina, o aprimoramento humano (human enhancement) é possível.
 
Em rápidas palavras o aprimoramento humano pode ser compreendido como a superação da limitação humana, através da instrumentalização da técnica, essa superação pode ser temporário ou permanente.
Assim como o progresso tecnocientífico e o progresso da biotecnologia, o aprimoramento humano possui a promessa elevar a condição humana, isto é, o aprimoramento humano é o próximo passo para a evolução da espécie.
Através da técnica de edição genética, o CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) e o DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantação) permite que os pais decidam alterar a estrutura genética da criança mesmo estando em fase embrionária. Em outras palavras, os métodos utilizados para alcançar o aperfeiçoamento da espécie supera os limites impostos pela natureza. O aprimoramento humano surge como um trunfo para os entusiastas do uso da tecnologia, pois segundo estes entusiastas é a tecnologia que solucionara os problemas da humanidade.
O próximo passo da evolução da espécie humana não ocorrerá por meios naturais, mas sim por meios do artificial*.
Entretanto, gostaríamos de chamar a atenção para o seguinte questionamento: quais são as implicações do aprimoramento humano em nossa sociedade, o aprimoramento não seria uma forma de eugenia?
Especialistas como Michael Sandel, Natasha Vita-More, Nick Bostrom, Nicholas Agar e Julian Savulescu tem se dedicado a este debate, seja no espaço público, seja no especializado.
Mesmo que o aprimoramento humano extingue as anomalias genéticas, prolongue o tempo de vida da espécie humana**, a sociedade como um todo teria acesso a tais maravilhas ou seria como vislumbramos em Gattaca?
Segundo o filósofo alemão Jürgen Habermas questões como a aplicação ou não no aprimoramento humano não deve ficar nas mãos do indivíduo (pais), cabe ao Estado e uma série de regulamentos provindos do biodireito, ou seja, o aprimoramento humano deve ser utilizado de maneira responsável para que não afete completamente a liberdade do indivíduo e que a eugenia liberal não seja instaurada.
Desta maneira, com o surgimento do aprimoramento humano, o debate ético também retorna aos espaços público e especializado através de uma nova perspectiva, a da vida (bios), a bioética.
A bioética recebe notoriedade após os eventos do pós-guerra (Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria), como lidar com os avanços tecnológicos? Como regulamentar tais aparatos? Como utilizar a tecnologia de modo responsável? Tais questionamentos são o ponto de partida da bioética. 
Em uma sociedade tecnocientífica é necessário que o debate conjunto entre a bioética e o biodireito seja instaurado nas políticas públicas, nos ambientes públicos e especializados, deste modo retardando a hiperaceleração da extinção das espécies.
 
*Ainda é válido manter esse dualismo natural/artificial? Quais são as suas fronteiras? Uma possível resposta é não, pois já não somos uma sociedade moderna, somos uma sociedade tecnocientífica. Desta maneira, podemos concluir que estamos migrando do humanismo para o pós-humanismo (ver a figura do ciborgue descrito por Manfred Clynes e Nathan Kline). Manfred Clynes & Nathan Kline. Cyborg and space. 
**Segundo os adeptos do transhusmanismo e o pós-humanismo, a vida humana não será estendida mas sim eterna, esse processo ocorrerá através do upload da nossa consciência (mind uploading) para a inteligência artificial.
 
 
Para assistir:

 
Para ler:
 
Jürgen Habermas. O futuro da natureza humana. 
Nick Bostrom & Julian Savulescu (Eds.). Human enhancement.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Democracia jabuticaba e o paradoxo da tolerância

Este ensaio não possui a pretensão de apresentar uma reflexão refinada sobre os acontecimentos da política contemporânea nacional, este ensaio é de caráter introdutório, para aos interessados pela temática, orientamos a leitura da bibliografia mencionada.
Meus agradecimentos ao meu amigo Matheus Garcia pelas longas conversas sobre os desdobramentos da política nacional e por me incentivar a escrever este pequeno ensaio.
 
O que é democracia? O que é liberdade, quais são os limites desta liberdade? Essas são algumas das inquietações que devemos levar em consideração quando estamos interessados em compreender a contemporaneidade, para ser mais específico, os rumos da política contemporânea. 
Como bem sabemos, após os horrores das Guerras Mundiais e com a Guerra Fria (1947-1991) as disputas pelas narrativas tornaram-se cada vez mais acirradas, ao mesmo tempo houve uma tentativa global em consolidar a democracia como um regime político. 
Em rápidas palavras, a democracia pode ser entendida como um regime político em que os cidadãos participam diretamente ou indiretamente (elegem representantes políticos) na elaboração, aplicação de leis e até mesmo influenciando nas maneiras em que um determinado representante político exerce o seu poder sobre a sociedade.
Para corroborar, destacamos um trecho do verbete  "Democracia" do Dicionário de política (1998), de Norberto Bobbio (1908-2004).
"Na teoria política contemporânea, mais em prevalência nos países de tradição democrático-liberal, as definições de Democracia tendem a resolver-se e a esgotar-se num elenco mais ou menos amplo, segundo os autores, de regras de jogo, ou, como também se diz, de "procedimentos universais". Entre estas: 1) o órgão político máximo, a quem é assinalada a função legislativa, deve ser composto de membros direta ou indiretamente eleitos pelo povo, em eleições de primeiro ou de segundo grau; 2) junto do supremo órgão legislativo deverá haver outras instituições com dirigentes eleitos, como os órgãos da administração local ou o chefe de Estado (tal como acontece nas repúblicas); 3) todos os cidadãos que tenham atingido a maioridade, sem distinção de raça, de religião, de censo e possivelmente de sexo, devem ser eleitores; 4) todos os eleitores devem ter voto igual; 5) todos os eleitores devem ser livres em votar segundo a própria opinião formada o mais livremente possível, isto é, numa disputa livre de partidos políticos que lutam pela formação de uma representação nacional; 6) devem ser livres também no sentido em que devem ser postos em condição de ter reais alternativas (o que exclui como democrática qualquer eleição de lista única ou bloqueada); 7) tanto para as eleições dos representantes como para as decisões do órgão político supremo vale o princípio da maioria numérica, se bem que podem ser estabelecidas várias formas de maioria segundo critérios de oportunidade não definidos de uma vez para sempre; 8) nenhuma decisão tomada por maioria deve limitar os direitos da minoria, de um modo especial o direito de tornar-se maioria, em paridade de condições; 9) o órgão do Governo deve gozar de confiança do Parlamento ou do chefe do poder executivo, por sua vez, eleito pelo povo (BOBBIO, 1998, p. 326-327).
Como podemos perceber, a concepção que temos (ou que deveríamos  ter) sobre o conceito de democracia é mais complexo do que podemos imaginar.
Através desta  concepção de democracia, é válido pressupor que em um regime democrático, os cidadão possuí direitos e deveres, um destes direitos do cidadão é a da livre expressão, mas o que é livre expressão? Em rápidas palavras a livre expressão pode ser caracterizada como um direito que o indivíduo possui para expressar as suas opiniões, atividades artísticas, científicas, intelectuais etc, sem sofrer nenhuma forma de censura por parte do Estado.
A partir desta breve apresentação do que é entendido como liberdade de expressão, é interessante nos questionar se essa liberdade de expressão possui alguma implicação ética em nossa sociedade, existe algum limite para essa concepção de liberdade?
O filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994) introduz o Paradoxo da tolerância, para questões de didatismo iremos recorrer a famosa ilustração do paradoxo.
O paradoxo da tolerância de Karl Popper nos mostra o perigo se partirmos do pressuposto de que a liberdade de expressão é ilimitada. Antes de adentrarmos no paradoxo propriamente dito, gostaríamos de chamar atenção que ao fazermos uma rápida digressão sobre o passado do filósofo austríaco, iremos descobrir que o filósofo além de presenciar os horrores da II Guerra Mundial (1939-1945) é de origem judia. Cabe destacar que no campo da filosofia, diversos filósofos como Hannah Arendt (1906-1975), Hans Jonas (1903-1993) e Theodor Adorno (1903-1969) irão chamar a atenção para os horrores da guerra e a implicação dela ao longo dos Séculos XX e XXI nos mais diversos campos do conhecimento, no entanto, neste momento, gostaríamos de chamar atenção para o campo da ética e da política.
Ao nos voltarmos para a história da democracia no Brasil, veremos que a democracia no Brasil é recente, possui aproximadamente 56 anos, desses 56 anos, também perceberemos que há tensões.
Nas últimas décadas no cenário político tem surgido uma série de discursos que possuem clara alusão a violência a democracia, ou seja, o discurso de ódio tem ganhado força cada vez mais, o curioso é que os "defensores" do discurso de ódio argumentam que apenas estão expressando as suas opiniões, em alguns casos até sugerem há respaldo jurídico para tal.
A partir disto é possível chegar à seguinte conclusão: o que realmente acontece é uma série de equívocos, uma nação que possua um regime democrático bem consolidado não tolera passivamente o discurso de ódio/discurso do intolerante, pois esse discurso corrói a democracia. O que fazer para eliminar o discurso de intolerância? 
Uma iniciativa razoável é a de conscientização dos limites éticos e jurídicos da liberdade de expressão dentro de uma democracia.

 
Leituras recomendadas:
 
Karl Popper - A sociedade aberta e seus inimigos, vols. 1-2.

Vídeos indicados:

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Lucrécio e o materialismo científico

 Inicialmente este pequeno ensaio foi concebido como trabalho de conclusão da disciplina Filosofia da natureza I, ministrado pelo Prof. Dr. Marco Antonio Valentim, disciplina ofertada no curso de graduação do curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Em um momento oportuno esse ensaio será reformulado, as críticas dos leitores serão levados em consideração.
Meus agradecimentos ao Prof. Marco por proporcionar aulas tão instigantes, e ao meu amigo Matheus Garcia pelas conversas tão enriquecedoras e divertidas.
Para Tawana Tábata

Neste ensaio apresentamos a relevância do poema de Lucrécio, Sobre a natureza das coisas, além disso, discorreremos sobre a contribuição deste filósofo para a consolidação do materialismo no campo da ciência da natureza, mais especificamente no campo da física, também faremos algumas considerações sobre a palavra “átomo” e a sua repercussão em seu pensamento e na própria filosofia atomista.

 

Mas o que um poeta romano do primeiro século a.C. poderia ter para nos contar hoje sobre a história do universo e de nosso planeta que os físicos e historiadores contemporâneos ainda não conhecem? (...) Muito da estrutura básica da cosmologia contemporânea, da física e da história, quer os cientistas o conheçam ou não, foi apresentado por Lucrécio. Os cientistas têm preenchido as notas de rodapé desde então.

                                                              Thomas Nail

 

            Assim como outras obras literárias, De rerum natura (séc. I a.E.C.)[1], escrito pelo filósofo e poeta romano Tito Lucrécio Caro proporcionou grande repercussão durante o período em que foi publicado e posteriormente ao longo da história da civilização ocidental. 

            Após a sua publicação notamos que a sua influência não foi apenas no campo da literatura, mas também no campo da filosofia e da ciência, chamamos a atenção para o campo da física. Na contemporaneidade filósofos como Gilles Deleuze (1925-1995), Karl Marx (1818-1883), Marco Antonio Valentim e Thomas Nail entre outros se debruçam sobre a filosofia de Lucrécio.

Assim, voltamos a Lucrécio hoje não como se ele fosse uma figura imutável esculpida em pedra, mas como se ele fosse um sopro de vida nova na vanguarda do século XXI. (...) Mas o que um poeta romano do primeiro século a.C. poderia ter para nos contar hoje sobre a história do universo e de nosso planeta que os físicos e historiadores contemporâneos ainda não conhecem? Por que fazer a Lucrécio nossas perguntas? É verdade que, em certo sentido, sabemos muito mais sobre a história material do universo hoje do que há dois mil anos. Entretanto, é crucial lembrar que uma das razões pelas quais sabemos tanto quanto atualmente é por causa de Lucrécio (...) (NAIL, 2021, p. 15). 

            Este ensaio tem como objetivo, mesmo que seja de maneira breve, apresentar a relevância e repercussão da obra de Lucrécio na contemporaneidade, mais especificamente no campo das ciências duras (na física). Ao desenvolver a sua reflexão sobre a natureza das coisas a partir de uma perspectiva materialista, Lucrécio não fundamenta sua teoria a partir de uma cosmologia divina, mas sim a partir de uma cosmologia da matéria (átomo e vazio).

            Deste modo, partimos do pressuposto que Lucrécio inaugura (ou propõe) o materialismo científico. Além deste tópico apresentaremos um fato curioso na obra do poeta, em momento algum Lucrécio utiliza a palavra “átomo” em sua obra, entretanto, veremos que em algumas traduções de língua moderna, alguns tradutores optaram por utilizar a palavra, a partir disso faremos algumas considerações.

            Segundo especialistas, além de ter sido influenciado pela filosofia epicurista, o poeta pode ser considerado como um dos mais influentes representantes desta escola durante o seu período. David Sedley (2018), chama a atenção para a influência do epicurismo no império romano, figuras públicas como Cícero (106-43 a.E.C.) e Mêmio (possivelmente Gaius Memmius) eram apreciadores do epicurismo (SEDLEY, 2018).  

            Inspirado pelo materialismo epicurista, Lucrécio rejeita as explicações sobre o mundo/natureza a partir de alguma intervenção dos deuses, assim como seu mestre Epicuro (341-270 a.E.C.), Lucrécio parte do pressuposto que  a vida humana (e não humana), os cosmos existem por acaso a partir da reunião dos átomos[2], ou seja,  para Epicuro e Lucrécio a vida não deve ser compreendida como uma dádiva dos deuses ou  que possua alguma intencionalidade. Ou seja, para estes filósofos a realidade, a natureza e o cosmo pode ser compreendida e explicada a partir do materialismo.

            Entretanto, mesmo que a vida seja um conglomerado de átomos, não significa que a vida não deve ser aproveitada, ou seja, Lucrécio também concorda com o epicurismo que devemos buscar a felicidade, não temer a morte e não acreditar na intervenção dos deuses[3]. Deste modo, é possível afirmar que através de sua poesia, Lucrécio possui a intenção de difundir o materialismo no território do império romano.

A teoria atômica desenvolvida na Escola epicurista chega pronta à pena de Lucrécio. O poeta não se incumbe de desenvolver os conteúdos filosóficos veiculados em sua obra, mas de difundi-los pelo mundo romano – o que não quer dizer que a empresa tenha sido menos árdua. O De rerum natura, sob esse ponto de vista, pode assumir as feições de obra missionária, cujo

desígnio é o de esclarecer e libertar à luz da razão. (...) A Criação não é obra divina; céu, terra, água, a vida vegetal e animal, tudo é consequência do eterno movimento de partículas infinitamente pequenas a que chamamos átomos (SIMÕES, 2017, p. 224).       

              A partir disso, percebemos que a obra de Lucrécio é detentora de conteúdo subversivo, isto é, o materialismo difundido pela sua poesia, questiona o papel dos deuses, assim como encoraja o leitor a não temer a morte. Além destas características a sua poesia também contribui para que a ciência ganhe notoriedade nos círculos da intelligentsia romana (SEDLEY, 2018).

            Ao longo do Livro I de DRN, Lucrécio discorre sobre a impossibilidade de algo vir do nada e da matéria existir na forma de pequenas partículas.

Tal é o princípio que fundamenta, princípio primeiro: coisa nenhuma jamais vem do nada por ato divino.

Naturalmente o medo domina todo os homens,

pois muitas coisas vê-se que ocorrem no céu e na terra

cujas causas não podem ver de maneira nenhuma,

pensam assim que acontecem por nume divino potente.

Quando tivermos visto nada poder ser criado vindo do nada

O que buscamos então percebemos mais perspicazes e de onde se possa tudo criar-se e de que modo tudo se faça sem o divino.

Pois se do nada viessem a ser, então todas espécies nasceriam de todas as coisas, sementes não tendo (DRN Livro I, versos 146-160, 2021, p. 60).

E o poeta continua, desta vez discorrendo sobre a matéria:

Vamos agora: já que ensinei que uma coisa não pode

ser criada do nada, ou pra lá as nascidas voltarem,

para que não desconfies, talvez, das coisas que digo,

por não poderem, aos olhos, discernir-se os primórdios,

é necessário, portanto, que confesses que aceitas

existirem nas coisas corpos que são invisíveis. (...)

Mas quais corpos primevos descolam a cada momento,

ínvia natureza nos impede de vermos.

Finalmente, o que quer que a natura e os dias às coisas

atribuam, as fazendo crescer paulatinas,

a acuidade dos olhos contemplar nunca pode;

nem todavia de tudo que idade que pobreza envelhece,

nem das rochas ao lado do mar pelo sal desgastadas,

nuncas poderás discernir o que perdem aos poucos.

A natura assim gere as coisas com corpos não vistos (DRN Livro I, versos 265-32, 2021 p. 70-72).

            A partir destes trechos e ao longo de sua poesia Lucrécio está descrevendo fisicamente a natureza, a realidade ao seu redor, os universos. Embora possua uma descrição poética, Lucrécio desenvolve a sua compreensão da física a partir do materialismo, ou seja, tudo que existe, tudo que observamos (e o que não conseguimos observar), tudo que sentimos (e o que não conseguimos sentir) a partir da matéria, corpos primordiais. Deste modo, percebemos as palavras “matéria”, “corpos primordiais” que podem ser facilmente substituídas pela palavra “átomo.”

            Curiosamente a única obra materialista que sobreviveu aos eventos e infortúnios da história foi De rerum natura, ou seja, mesmo que esta escola filosófica seja anterior a Lucrécio, na modernidade e na contemporaneidade Lucrécio é o mais importante representante desta filosofia (BATISTA; BATISTA; BRAGA; NETO, 2003, p. 19). Como já mencionado anteriormente, o filósofo de Roma é um importante contribuinte para o desenvolvimento e aprofundamento da física moderna e da física contemporânea. Lucrécio é fundamental para que a física moderna questione a legitimidade da física aristotélica[4], além de contribuir para a diversidade de teorias atômicas da química e de outras teorias desse campo (PORTO, 2012, p. 4061), além disso, o filósofo romano é considerado como o precursor da cosmologia quântica (CARROLL, 2008).

            Com a redescoberta da obra de Lucrécio, diversos pensadores propensos aos estudos científicos são influenciados, embora não tenham aceitado a teoria materialista como um todo, Galileu Galileu (1564-1642) Giordano Bruno (1548-1600) utilizam parte da teoria materialista para desenvolverem a sua teoria sobre o universo (PORTO, 2013, p. 4601.5-4601.6).

            Cabe mencionar também que assim como na antiguidade, após a sua redescoberta, a obra de Lucrécio gerou polêmicas, tanto no campo das ciências, assim como no campo da filosofia, entretanto, a partir do desenvolvimento da teoria cinética, a teoria dos átomos começou a ganhar legitimidade nas respectivas áreas do conhecimento (PORTO, 2013, p. 4601.9-4601.10). Também gostaríamos de chamar a atenção que a teoria dos átomos de Lucrécio foi aprofundado no campo da mecânica quântica, destacamos as propriedades ondulatórias da partículas, na qual as contribuições do físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961) foi de grande importância.

            Ao longo deste modesto ensaio tentamos esboçar a influência da escola materialista, cujo maior representante que possuímos conhecimento até o momento é Lucrécio, a partir da sua obra, percebemos a sua repercussão em diversas frentes, isto é, De rerum natura é fundamental para compreendermos a ruptura da explicação da natureza a partir de uma perspectiva divina para uma explicação mais atrelada a física, a existência da matéria primordial, que posteriormente será traduzido para átomo. Mesmo que a poesia de Lucrécio tenha sido escrito na antiguidade, ao longo da história da ciência, mais especificamente, a ciência contemporânea, percebemos a beleza, a riqueza e a complexidade de sua filosofia, todos estes tópicos mais que justificam a grandeza e a influência de Lucrécio.

           

Referências:

 

BATISTA, Rodrigo Siqueira; BATISTA, Romulo Siqueira; BRAGA, Elcio Andrade; NETO, José Abdalla Helayel. “O atomismo de Lucrécio: física e descontinuidade.” Physicae, v. 4, n. 1, p. 19-22, 2003. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/physicae/article/view/13465. Acessado em 3 de setembro de 2022. 

CARROLL, Sean. The first quantum cosmologist, 2008. Disponível em: https://www.preposterousuniverse.com/blog/2008/08/21/the-first-quantum-cosmologist/. Acessado em 3 de setembro de 2022.

KONSTAN, David. “Epicurus.” The Stanford encyclopedia of philosophy, 2018. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/epicurus/. Acessado em 25 de agosto de 2022.

LUCRÉCIO. Sobre a natureza das coisas. Tradução, notas e paratextos de Rodrigo Tadeu Gonçalves, Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2021.

NAIL, Thomas. “Lucrécio, nosso contemporâneo.” In: LUCRÉCIO. Sobre a natureza das coisas. Tradução, notas e paratextos de Rodrigo Tadeu Gonçalves, Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2021.  

O ÁTOMO DE SCHRODINGER. Disponível em: https://www.ifi.unicamp.br/~fauth/1OrigensMecanicaQuantica/3OatomodeSchrodinger/OatomodeSchrodinger.html. Acessado em 3 de setembro de 2022.

SEDLEY, David. “Lucretius.” The Stanford encyclopedia of philosophy, 2018. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/lucretius/. Acessado em 25 de Agosto de 2022.

PORTO, Claudio Maia. “O atomismo grego e a formação do pensamento físico moderno.” Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 35, n. 4, p.4061-4061.11, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbef/a/gZRXfzzcg7K6BprgxfLxRDR/?lang=pt. Acessado em 3 de setembro de 2022.

SIMÕES, Vivian Gregores Carneiro Leão. “Lucrécio. Da natureza das coisas. Tradução (do latim), introdução e notas de Manuel Gaspar Cerqueira. Lisboa, Relógio d’Água, 2015, 416 p.” Codex - Revista de estudos clássicos, v. 5, n. 1, p. 224-229, 2017. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/CODEX/article/view/10131. Acessado em 25 de agosto de 2022. 

SOCIEDADE BRASILEIRA DE RETÓRICA. Jornadas duplas de retórica: Dr. Rodrigo Tadeu Gonçalves (UFPR) e Dr. Marco Valentim (UFPR) - 26/04/2022. 1 vídeo (2h. 15 min. 26 seg.), 2022 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HcgyOS9A684. Acessado em 25 de agosto de 2022.

ULPIANO, Claudio. “Aula de 17/06/1992 – Lucrécio: verdadeiros e falsos infinitos.” Acervo Claudio Ulpiano. Disponível em: https://acervoclaudioulpiano.wordpress.com/2016/07/08/lucrecio-e-os-verdadeiros-e-falsos-infinitos/. Acessado em 1 de setembro de 2022.



[1] Ao longo do texto iremos adotar a seguinte padronização DRN Livro, versos.

[2] Como foi mencionado no corpo do texto, em momento algum do DRN, Lucrécio menciona a palavra “átomo”, se  retomarmos a língua original da obra, percebemos que o filósofo utiliza a palavra “rerum primordia” (DRN Livro I, verso 270, 2021, p. 35 ).

Na mais recente tradução para língua portuguesa, Rodrigo Tadeu Gonçalves (2022) relata os seus objetivos em traduzir a obra de Lucrécio o mais próximo possível do original, assim como relata a dificuldade em traduzi-lo (SOCIEDADE BRASILEIRA DE RETÓRICA, 2022). 

[3] Ao comentar sobre o processo da tradução de DRN, Rodrigo Tadeu Gonçalves, comenta sobre as diferenças metodológicas de Epicuro e de Lucrécio, enquanto o primeiro preferia escrever em prosa, Lucrécio optou por escrever a sua obra em forma de poesia, além disso, o tradutor também comenta sobre a ironia na escrita do poeta romano, se houver alguma possibilidade em admitir algum deus no materialismo, certamente esse deus seria Epicuro, segundo Lucrécio (SOCIEDADE BRASILEIRA DE RETÓRICA, 2022). 

[4] Além da distinção da física aristotélica e a física lucreciana, Claudio Ulpiano chama a atenção para a distinção de como os filósofos compreendiam por infinitos, enquanto Aristóteles compreende o infinito como infinitos potenciais Lucrécio compreende como infinitos atuais (ULPIANO, 1992).

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Monografia

 Divulgação da monografia de conclusão de curso em filosofia da estudante Stefany Sohn Stettler pela Universidade Federal do Paraná.
Boa leitura.

Olá, camaradas!

Meu nome é Stefany, estou me formando em Filosofia este ano e acabei de defender minha monografia, que é fruto de uma pesquisa que acontece desde 2019 sobre cinema de zumbis e filosofia, inspirada pela pandemia e pelo meu interesse no cinema de horror.
Minha monografia é proposta a partir da análise de alguns filmes e séries de zumbis, na crítica à filosofia moderna como postulada por Bruno Latuor e no conceito de Antropoceno, a era geológica pós-Holoceno na qual humanos são pensados como agentes geológicos.
Meus demais textos vocês podem encontrar neste link: https://ufpr.academia.edu/StefanySohn