sexta-feira, 13 de maio de 2022

Apartheid, perdão e ubuntu

 Inicialmente este pequeno ensaio foi concebido como trabalho de conclusão da disciplina História da filosofia contemporânea IV, ministrado pelo Prof. Dr. Antonio Edmilson Paschoal, disciplina ofertada no curso de graduação do curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná (UFPR). 
Este texto também é resultado (parcial) de algumas leituras e conversas que ocorreram em 2017-2019 com colegas a respeito da filosofia africana, meus agradecimentos ao Prof. Dr. Hector Guerra, professor de história da África no departamento de história da UFPR e ao Prof. Dr. Luis Thiago Freire Dantas (UERJ).

 

Resumo

Este ensaio tem como objetivo refletir sobre a ética contemporânea, isto é, retomaremos certas questões que foram levantadas durante o pós-apartheid, mais especificamente sobre o uso do conceito perdão durante a condução da Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR). “É possível perdoar os atos violentos que ocorreram contra a população negra durante o regime do apartheid?” Tal questão foi levantada pelos especialistas durante o processo de atuação da CVR.

Tomaremos como ponto de partida a reflexão sobre o uso do conceito perdão utilizada e proferida pela CRV. A partir deste levantamento sobre o uso do conceito, iremos apresentar a reflexão de Jacques Derrida (1930-2004) sobre a conclusão da CRV, segundo Derrida, há um equívoco no modo em que a CRV utiliza o conceito perdão,  o filósofo também critica a apropriação que a comissão faz para fundamentar o uso do conceito perdão através do conceito milenar ubuntu.

Deste modo, ao longo do ensaio será desenvolvido uma reflexão crítica sobre a conclusão da CRV através da filosofia derridiana e também será apresentada de maneira modesta um aspecto do conceito de ubuntu, mais precisamente, a perspectiva moral do ubuntu.

Palavras-chave: apartheid, moral, perdão, ubuntu 

 

Introdução

 

O regime do apartheid (1948-1994) foi um dos regimes mais violentos na história do século XX, a consolidação do regime é resultado de um projeto colonial, isto é, mesmo tendo alcançado a independência em 1931, a política interna da África do sul permanece como uma política colonizadora, tais características podem ser diagnosticadas através da tensão da segregação racial entre a população sul-africana. Através desta tensão segregacionista, em 1948, é implementado pelo então primeiro-ministro (e pastor protestante) Daniel François Malan (1874-1959) o infame regime de segregação racial, apartheid.

Neste ensaio abordaremos o período pós-apartheid, mais especificamente o período em que foi apresentado o resultado de trabalho da Comissão de Verdade e Reconciliação liderada pelo arcebispo anglicano Desmond Tutu (1931-2021). Segundo especialistas, a condução da CRV e a sua conclusão são memoráveis (CARMO; OLIVEIRA, 2015). Entretanto, daremos destaque ao debate em torno da conclusão dos trabalhos da CRV.

Ao mesmo tempo que o trabalho da comissão conduzida por Tutu tornou-se célebre no espaço público e jurídico, no espaço filosófico também ganhou notoriedade ao fazer uso do conceito perdão, além disso, levanta uma série de questões morais que são caras à filosofia contemporânea. Deste modo, este ensaio será divididos em três partes: I) o que foi o apartheid; II) O que compreendemos como perdão e o seu uso pela CVR e III) a partir da crítica de Derrida sobre a apropriação do conceito perdão pela CRV, tentaremos desenvolver a questão sobre o conceito de ubuntu através da perspectiva da moral.

 

Apartheid

O apartheid é um crime contra a humanidade.

                                  Maria Luci Buff Migliori

 

Para um desenvolvimento mais aprofundado sobre o pós-apartheid e o trabalho da Comissão de Verdade e Reconciliação, abordaremos rapidamente o contexto histórico do surgimento do apartheid e a sua repercussão.

A palavra apartheid é oriundo da língua africâner (ɐˈpɐrtɦəit) que para a língua portuguesa pode ser traduzida por “segregação”. A política de segregação-racial foi instaurada em 1948, pelo primeiro-ministro Daniel François Malan, integrante do Partido Nacional (em africâner: Nasionale Party, NP), cujo a majoritariedade dos integrantes são brancos, isto é, africânderes são descendentes de europeus que migraram para a África do Sul durante o período colonial, é pertinente mencionar que a população branca durante o período é minoritária, aproximadamente 20% da população sul-africana é branca (NEXO JORNAL, 2018).

Entretanto mesmo sendo um grupo minoritário, através das leis instauradas pelo regime do apartheid, o Partido Nacional proibiu que houvessem casamentos interraciais, isto é, negros não poderiam casar com brancos e vice-versa (assim como a relação sexual interracial era considerado como crime), a população negra não poderiam andar na mesma calçada que um branco caminha, assim como o negro também não pode frequentar o mesmo espaço que o branco frequenta,a título de exemplo: a universidade.

Além destas restrições foram criados os bantustões, isto é, guetos criados pelo regime do apartheid para realocar, em muitas situações de maneira violenta, a população negra, o negro era permitido sair de seu bantustão para trabalhar, ou seja, o negro só poderia ir para um bairro branco apenas quando era solicitado, portando um passaporte que especificasse o motivo de estar no bairro, que neste caso era o trabalho (NEXO JORNAL, 2018).

Deste modo, a partir da instauração do apartheid e de suas restrições a população negra, torna-se explícito a negação aos direitos humanos aos moradores dos bantustões, ou seja, através de uma série de leis instauradas pelo regime o sul-africano negro não é visto como cidadão (humano), portanto, não merece receber um tratamento igual a um cidadão sul-africano branco (VITURIANO, 2016, p. 20).

Entretanto, a população negra, através de protestos e manifestações irão combater o regime segregacionista e violento do apartheid, personalidades negras contra o regime surgem, entre eles os jovens Nelson Mandela (1918-2013) e Steve Biko[1] (1943-1977), sendo o último brutalmente assassinado pela polícia que o mantinham em custódia.

            Com o surgimento do Congresso Nacional Africano, CNA, e o protagonismo de Nelson Mandela o conflito entre a resistência negra e o regime do apartheid cada vez mais se intensifica. Em 1962, Nelson Mandela é preso inicialmente na ilha Robben, inicialmente Mandela seria detido por 5 anos na prisão, entretanto, em um novo julgamento, o jovem advogado defensor dos direitos humanos seria condenado à prisão perpétua por traição à pátria (VITURIANO, 2016, p. 26).

No entanto, a partir da década de 1990 política do apartheid começa a enfraquecer, com a prisão de Mandela a pressão internacional contra o regime aumenta. Em 1990, após 27 longos anos de espera Nelson Mandela finalmente é libertado de seu encarceramento, em dezembro de 1993, Mandela recebe o Premio Nobel da Paz, em 1994, o mesmo é eleito democraticamente como o primeiro presidente negro da África após o infame 46 anos de instauração do regime segregacionista do apartheid.  Entretanto, o presidente eleito precisa lidar com o legado do apartheid.

            Como presidente da nação, Nelson Mandela trabalha em torno da reconciliação, isto é, a partir de seus ideais de democracia, igualdade e justiça e sob a liderança do bispo anglicano Desmond Tutu, é criado a Comissão da Verdade e Reconciliação, que posteriormente seria celebrado e citado como referência pelas demais nações democráticas.

 

O perdão

Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor: até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo até sete, mas, até setenta vezes sete.

                                       Mateus 18: 21-22

 

Nenhum governo pode perdoar. (Silêncio.) Nenhuma comissão pode perdoar. (Silêncio.) Somente eu posso perdoar. (Silêncio) E não estou disposta a perdoar.

                                           Jacques Derrida

 

Como mencionado anteriormente, como presidente de uma nação, Nelson Mandela precisa lidar com o legado de um regime violento e segregacionista. Uma maneira de superar este legado e criar um novo legado para a África do Sul  é através dos trabalhos da Comissão da Verdade e Reconciliação liderada por Desmond Tutu.

Criada em 1995, a CVR tem como finalidade investigar e investigar os inúmeros casos de violação aos direitos humanos 1960-1994 que ocorreram durante o período vigente do apartheid[2].

Dentro da Comissão de Verdade e Reconciliação, o Comitê de Violação de Direitos Humanos ficou encarregado de investigar o passado e realizar o recolhimento de testemunhos de vítimas e perpetradores, registrando e posteriormente difundindo a informação; o Comitê de Anistia teve a responsabilidade de receber e apreciar os pedidos para anistiar os agressores; e, por último, o Comitê de Reparação e Reabilitação foi destinado a definir medidas concretas de apoio às vítimas, servindo de base para elaborar as recomendações ao novo governo (CARMO e OLIVEIRA, 2015). 

Além de trazer a tona os atos hediondos  cometidos pelo regime do apartheid, a CVR tem como objetivo de mostrar para o restante do mundo a maneira que irá lidar com este legado assombroso. Em 1998, Desmond Tutu entrega ao presidente Nelson Mandela 5 volumes, resultando aproximadamente 3.500 páginas do relatório final da CVR.                  

            Ao perpassar rapidamente sobre o contexto do surgimento e a conclusão da CVR, nos deparamos com o conceito perdão, mais especificamente a apropriação do conceito perdão pela comissão coordenada por Desmond Tutu. Mas antes de nos deter na questão, cabe o seguinte questionamento: o que significa a palavra perdão?

            Ao consultar um dicionário comum de língua portuguesa nos deparamos com as seguintes proposições: 1) Remissão de culpa, dívida ou pena = desculpa; 2) absolvição, indulto; 3) benevolência, indulgência, e, 4) fórmula que exprime um pedido de desculpas (PRIBERAM, 2022).    

            Por mais que as definições deste dicionário não possua uma precisão, é possível perceber que o ato de perdoar possui alguma relação com a teologia judaico-cristã[3] e com o direito.  

O território do perdão se confronta com um espaço mais amplo que o do Direito, que é o da ética (..) Ao lado do campo da ética, no nicho de intersecção do humano e do divino, o lugar do perdão se imbrica com aquele do pecado, da ofensa a Deus e ao próximo e, portanto, com a tradição religiosa, notadamente, no Ocidente, a judaico-cristã e seu modelo teológico. Enfim, a ideia de perdão se depara com fenômenos tão díspares como o crime, a culpa, o pecado, o sofrimento, a morte, todos situados no plano do caráter enigmático do mal, do mal cometido e do mal sofrido. Haveria, em princípio, em todos estes casos sempre uma espécie de dívida a ser paga, em consequência de fatos passados  (MIGLIORI, 2007, p. 19-20).

A partir das considerações de Migliori sobre as interseções entre as áreas do conhecimento em torno do conceito de perdão dificulta chegar a uma conclusão definitiva ou satisfatória. No entanto, Migliori apresenta possíveis modos de distinguir o conceito de perdão nas respectivas áreas. Segundo Migliore, devido ao conceito de perdão estar próximo da teologia judaico-cristã, o direito não se ocupa diretamente com o conceito, entretanto, é possível encontrar algo que aproxima se do perdão: a liberação.

A existência e liberação de uma dívida a ser paga sugerem, de imediato, um exercício de avizinhamento inicial entre a ideia de perdão e noções básicas no campo das relações privadas (civis) do direito das obrigações, na medida em que este último lida com conceitos de aplicação mais corrente e concreta da ideia de crédito e débito e encontra uma expressão bem construída pelos romanos, nas obrigações de dar, fazer e não fazer, nas quais se podem pesquisar elementos da ideia de perdão (MIGLIORI, 2007, p. 21).

Sobre a perspectiva teológica do conceito perdão, Migliori chama atenção para a etimologia em hebraico[4].

(...) a palavra kappara vem da raiz kappar, que significa “cobrir”, no sentido de uma reparação, de uma expiação. As três consoantes da raiz kappar dão também kippér, que significa apaziguar e absolver, apagar uma falta (...) (MIGLIORE, 2007, p. 43).

            Como Migliori chama atenção, tentar apresentar de forma satisfatória o que compreendemos quando nos deparamos com o conceito perdão não é uma tarefa fácil, pois o conceito apresenta diversos níveis de profundidade. Entretanto, mesmo sendo um conceito complexo, problemas relacionados à moral surgem. Neste momento retomamos a repercussão da CVR no âmbito filosófico a partir das críticas de Jacques Derrida.

            Em seu texto intitulado O perdão, a verdade, a reconciliação: qual gênero? (2005), Derrida problematiza o processo de cristianização de África do Sul, isto é, para o filósofo franco-magrebino, desde a sua libertação da prisão da ilha Robben, Nelson Mandela ao discursar sobre a derrota do regime do apartheid  e o processo de reparação ao povo sul-africano negro, Mandela desenvolve um repertório de reconciliação, isto é, Mandela professa a paz entre o povo branco e negro, e nesse discurso de reconciliação nota-se a influência do cristianismo, sobretudo o anglicanismo e o calvinismo (DERRIDA, 2005, p. 48). A partir disto, Derrida faz a seguinte pergunta: como perdoar o imperdoável?

            Estando na coordenação de atuação da CVR, Desmond Tutu, segundo Derrida, apresenta uma possível solução: o perdão e a reconciliação entre a população sul-africana (DERRIDA, 2005, p. 72-73). A partir da perspectiva de reconciliação da CVR, reforçamos a problematização de Derrida: qual é a legitimidade da CVR liderada por Tutu? Para dar ênfase ao problema levantado pelo filósofo mencionamos o famoso exemplo de Timothy Anton Ash em um artigo para o New York Review of Books.

Convida-se uma mulher negra – cujo marido tinha sido sequestrado e morto – a vir escutar o testemunho dos assassinos. Indagaram-lhe se está disposta a perdoar (...) Nenhum governo pode perdoar. (Silêncio.) Nenhuma comissão pode perdoar. (Silêncio.) Somente eu posso perdoar. (Silêncio) E não estou disposta a perdoar (ASH apud DERRIDA, 2005, p. 74-75).

 O trecho selecionado apresenta o quão sensível é o trabalho da CVR, assim como apresenta o quão traumático é para as vítimas que sobreviveram a um período violento. Deste modo chegamos à seguinte conclusão: mesmo sendo laureado pela comunidade global[5], o trabalho da CVR possui limites morais por não comportar uma série de diversidades culturais que perpassa toda a África do Sul, deste modo abrindo oportunidades para elaboração de problemas filosóficos.   

 

Ubuntu

 

            Em diversos momentos Derrida, além de problematizar a apropriação do conceito perdão, o filósofo também problematiza a cristianização do conceito ubuntu feito pela CVR.

A palavra abuntu (fellowship: confraria, comunidade, co-cidadania) é a que foi utilizada pelo discurso oficial, no final do apartheid, para traduzir a missão da Comissão Verdade e Reconciliação, para traduzir a “reconciliação mesma. Ora, dentre todas as reprovações feitas a essa Comissão presidida pelo bispo anglicano Desmond Tutu, o qual não fez pouco para cristianizar sua linguagem, até mesmo seu espírito e a sua axiomática, houve esta: considerar como evidente a tradução dos idiomas africanos. Essas não são apenas questões de linguagem. É o caso de todas as genealogias culturais e simbólicas que trabalham as palavras. Reprovam-lhe, portanto, ter traduzido as onze idiomas africanos naquele que então dominava, o inglês, ou seja, também cristão (DERRIDA, 2005, p. 50).

Para compreender a crítica de Derrida a deturpação feita pela CVR, é pertinente conhecer a etimologia da palavra ubuntu e a sua repercussão filosófica.

Segundo Cunha Júnior (2010), a etimologia da palavra ubuntu está intrinsecamente relacionada à cultura/filosofia bantu[6], seguindo a apresentação de Cunha Júnior, a filosofia do ubuntu pode ser encontrada através da famosa formulação “Eu, nós, existimos porque você e os outros existem.” (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 26).  Desta maneira fica claro que a filosofia bantu, isto é, o ubuntu busca uma harmonia coletiva com a sociedade e com a natureza, segundo a filosofia africana todos que habitam na/com a natureza são entidades vivas.

(...) o Ubuntu representa a existência respeitosa e equilibrada entre os seres da natureza. No ubuntu repousa a comunidade e suas relações sociais baseadas na tradição, na ética social e no reconhecimento de todos como indispensáveis. A identidade e a personalidade dos indivíduos é parte do Ubuntu. Este ubuntu é a aplicação do que conceituo totalidade das relações humanas e das sociedades existentes (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 36-37).    

Como bem aponta Derrida, a apropriação do ubuntu pela CVR é problemático, pois, a cosmovisão bantu[7] (a qual o ubuntu está inserida) diverge da cosmovisão cristã. Segundo Dirk Louw (2010) o ubuntu além de apresentar um cuidado com a natureza e as entidades vivas, também possui um cuidado com os os não humanos e com os mortos (LOUW, 2010b), ou seja, o ubuntu além de estar relacionado a ancestralidade, carrega um ethos.

            Sendo assim, notamos que tanto a ancestralidade quanto o ethos são características do ubuntu. Mesmo sendo o ubuntu um conceito ainda desconhecido para o Ocidente, para Louw (2010a), o ubuntu tem muito a ensinar, seja através de seu ethos, seja no campo da política, isto é, através do ethos solidário proposto pelo o ubuntu contribui para a materialização de certos ideais da democracia, como a efetivação dos direitos humanos a redução da desigualdade social e a harmonia com a natureza.

 

Conclusão

 

Como mencionado anteriormente, este ensaio teve como objetivo apresentar algumas reflexões da filosofia contemporânea em torno dos eventos que ocorreram no período pós-apartheid, isto é, a partir das problematizações levantadas por Jacques Derrida sobre a condução da CVR e da apropriação equivocadas que o mesmo fez dos conceitos de perdão e ubuntu. Também buscamos apresentar de maneira introdutória a contribuição da filosofia bantu através do ubuntu. Mesmo sendo apresentado de maneira modesta, é visível as nuances e complexidade que está em torno do ubuntu, no entanto, mesmo sendo ainda desconhecido ao Ocidente, isto é, para a filosofia ocidental, o ubuntu é um conceito crucial para compreendermos e lidarmos com eventos presentes que ocorrem na sociedade contemporânea.

 

Referências

 

BIKO, Steve Bantu. A definição de consciência negra, p. 1-5, 1971. Disponível em: https://afrocentricidade.files.wordpress.com/2010/01/a-definic3a7c3a3o-da-conscic3aancia-negra-steve-biko.pdf. Acessado em 4 de abril de 2022. 

CARMO, Erinaldo Ferreira do; OLIVEIRA, Érica Patrícia Barbosa de. “Um estudo da comissão de verdade e reconciliação na África do Sul.” Revista Jus Navigandi, ano 20, n. 4215, 2015. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/29685/um-estudo-da-comissao-de-verdade-e-reconciliacao-na-africa-do-sul. Acessado em 4 de abril de 2022.

CUNHA JÚNIOR, Henrique Antunes. “Ntu: introdução ao pensamento filosófico bantu.” Revista Educação em Debate, v. 1, n. 59, p. 25-40, 2010. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/15998. Acessado em 7 de abril de 2022. 

DJALO, Mamadu. Filosofia bantu: uma leitura introdutória. 2017, 63 f.  Monografia – Curso de Humanidades, Instituto de Humanidades e Letras, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. Disponível em: https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/handle/123456789/639. Acessado em 9 de abril de 2022.

DERRIDA, Jacques. “O perdão, a verdade, a reconciliação: qual gênero?” In: NASCIMENTO, Evando (Org.). Jacques Derrida: pensar a desconstrução, p. 45-92. Tradução de Evando Nascimento. São Paulo: Ed. Estação liberdade, 2005.

DICIONÁRIO ONLINE PRIBERAM. Perdão. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/perd%C3%A3o. Acessado em 5 de abril de 2022.

LOUW, Dirk. “Power sharing and the challenge of ubuntu ethics.” In: DU TOIT, Cornelius Willem (Ed.). Power sharing and African democracy: interdisciplinary perspectives. Pretoria: Research Institute for Theology and Religion: Unisa Press, p. 121-137, 2010a. Disponível em: https://uir.unisa.ac.za/handle/10500/4316. Acessado em 9 de abril de 2022.

                       . “Ser por meio dos outros: o ubuntu como cuidado e partilha.” Revista do Instituto Humanitas Unisinus - IHU ONLINE, n. 353, 2010b. Disponível em: https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/3687-dirk-louw. Acessado em 9 de abril de 2022.

MIGLIORI, Maria Luci Buff. Horizontes do perdão: reflexões a partir de Paul Ricoeur e Jacques Derrida. 2007. 263 f. Tese (Doutorado em Filosofia) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/handle/handle/11758. Acessado em 5 de abril de 2022.   

NEXO JORNAL. As origens e o legado da luta contra o apartheid na África do Sul. 1 vídeo (09 min. 40 seg.), 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=d7elBP-bCIQ&t=155s. Acessado em 4 de abril de 2022.

PASCHOAL, Edmilson Antonio. “Fios da memória na teia do esquecimento.” Philósophos – Revista de filosofia, v. 26, n. 1, p. 11-52, 2021. Disponível em:  https://revistas.ufg.br/philosophos/article/view/69246. Acessado em 5 de abril de 2022.

TORTATO, Amanda Corrêa. “Lei da anistia: Justiça e perdão em Jacques Derrida.”

Revista Ágora, n. 28, p. 61-74, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/index.php/agora/article/view/21623. Acessado em 7 de abril de 2022.   

VITURIANO, Francisca Maria da Conceição. Entendendo o apartheid e a figura de Nelson Mandela. 2016, 43 f. Monografia do Curso de Especialização em Política de Igualdade Racial da Diretoria de Educação a Distância da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira – UNILAB. Disponível em: https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/handle/123456789/383. Acessado em 4 de abril de 2022. 

WACHHOLZ, Wilhelm. “Assim como nós perdoamos”... o desafio do perdão cristão.” Estudos teológicos, v. 55, n. 2, p. 361-373, 2015. Disponível em: http://periodicos.est.edu.br/index.php/estudos_teologicos/article/view/2544. Acessado em 7 de abril de 2022.


[1] Após o assassinato brutal de Biko, o movimento anti-apartheid transformou-o em um mártir da resistência. Biko foi fundamental para a elaboração do conceito de consciência negra durante o período de luta contra o apartheid. “1- Ser negro não é uma questão de pigmentação, mas o reflexo de uma atitude mental; 2- Pela mera descrição de si mesmo como negro, já se começa a trilhar o caminho rumo à emancipação, já se esta comprometido com a luta contra todas as forças que procuram usar a negritude como um rótulo que determina subserviência” (BIKO, 1971, p. 1).

[2] Por questão de espaço não abordaremos o processo que se deu ao longo da atuação da CVR, indicamos a leitura do artigo de Ângela Marques Filipe, “O processo de reconciliação na África do Sul.” Disponível em: http://www.dhnet.org.br/verdade/mundo/textos/ciari_africa_do_sul_processo_reconciliacao.pdf.  

[3] Paschoal (2021), aprofunda a reflexão em torno do conceito do perdão em torno do apartheid que perpassa pela perspectiva hegeliana e a sua influência na filosofia derridadiana. Além de refletir sobre o conceito do perdão, o filósofo também chama a atenção para o conceito de graça. As considerações sobre os dois conceitos, segundo o autor, permite uma compreensão mais aprofundada sobre as distinções que há sobre eles, assim como proporciona uma investigação minuciosa sobre o tema   (PASCHOAL, 2021, p. 19).

[4] Migliore vai desenvolver de maneira a relação entre a teologia judaico-cristã com a filosofia (ética) a partir das considerações de Paul Ricoeur (1913-2005) ao longo do capítulo 4 de sua tese. 

Ainda sobre o conceito de perdão no cristianismo, Wachholz (2015) a partir de uma perspectiva reformista, isto é, luterana reflete sobre o desafio do ato de perdoar para um cristão (WACHHOLZ, 2015, p. 361). 

[5] No Brasil existem trabalhos que de alguma maneira foram influenciados pelos trabalhos da CVR. Isto é, tomando como ponto de partida o trabalho da CVR na África do Sul os trabalhos de MIGLIORI (2007), PASCHOAL (2021) e TORTATO (2018) em as suas mais diversas perspectivas do conhecimento: do direito, da filosofia e da história, traçam paralelos com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) lidaram com os crimes praticados pelos militares durante o período da ditadura militar no Brasil e a sua repercussão. 

[6] Louw, dedica uma pequena sessão de seu artigo para comentar sobre a suposta origem e nuances do ubuntu no continente africano. As suas considerações divergem com as considerações de Cunha Júnior  (LOUW, 2010a, p. 122). 

[7] Para uma introdução à filosofia contemporânea bantu indicamos a leitura de DJALO (2017).   

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Artigo - Filosofia da mente, dualismo e zumbis

Divulgação do artigo "Filosofia da mente, dualismo e zumbis." (2022), escrito pelo estudante Leonardo Gomes, publicado no Cadernos Pet de Filosofia (UFPR).
Agradecimentos à Profa. Dra. Débora de Sá Ribeiro Aymoré pela orientação, apoio e incentivo durante a construção deste ensaio.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Monografia

Divulgação da monografia de conclusão de curso em filosofia do estudante Leonardo Gomes pela Universidade Federal do Paraná.
Agradecimentos à Profa. Dra. Débora de Sá Ribeiro Aymoré.
Boa leitura aos interessados.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Filosofia medieval e do renascimento

A primeira versão deste texto foi preparado como material didático, para aula de filosofia do curso pré-vestibular popular bairro 23, meus agradecimentos à instituição. 
 
Filósofos medievais: Averróis (1126-1198); Avicena (980-1037); Boécio
(480-525 d.C.); Guilherme Ockham (1285-1347); Santo Agostinho (354-430
d.C.); São Tomás de Aquino (1225-1274).
 
A filosofia desenvolvida durante o medievo (do séc. V ao séc. XV)
possui uma estreita relação com o cristianismo, ou seja, grande parte dos
filósofos da época se debruçaram em algum debate de natureza religiosa, isto
é, sobre a existência de Deus e as suas implicações sobre a natureza e a
realidade do homem. Alguns dos tópicos debatidos na filosofia medieval
eram:
1. A existência de Deus (comprovar a existência desta entidade a partir
de argumentos racionais, isto é, de uma forma coerente e satisfatória)
2. O que é o bem/mal? (se tudo que Deus cria/criou é perfeito, porque o
mal existe?)
3. O que é o livre-arbítrio? (se Deus existe é possível afirmar que tal
entidade não interfere ou não interfere nas escolhas que nós fazemos?)
4. O que é o tempo?
Os filósofos medievais podem ser divididos em duas grandes ramificações:
I) a escolástica e II) a patrística.
A escolástica contribuiu para a ampla formação de sacerdotes e a
criação das primeiras universidades no continente europeu, um importante
filósofo escolástico foi Santo Agostinho. As reflexões desenvolvidas por

estes filósofos foram influenciados pela filosofia aristotélica. É importante
mencionar que os mouros (grupo muçulmano que viveu na Europa durante
o medievo, sendo estes um grupo importante para compreender as
motivações da igreja católica invadir Jerusalém, deste modo, culminando nas
Cruzadas) pois estes preservaram alguns dos escritos da filosofia aristotélica
e também eram grandes estudiosos deste.
Já a patrística é uma vertente filosófica que começa a ser desenvolvida
a partir da consolidação do catolicismo no império romano, a partir deste
evento histórico, os filósofos/teólogos percebem a necessidade em trazer a
filosofia mais próximo da fé, ou seja, a filosofia desenvolvida pelos
patrísticos contribuiu para a fundamentação teológica do catolicismo. Um
importante representante da patrística foi São Tomás de Aquino. Além de
ser influenciado pela filosofia de Platão, o neo platonismo de Plotino (205-
270 d.C.) também contribuiu para as reflexões da patrística.
Um dos principais objetivos da filosofia medieval era de que a fé
(religião) e razão (filosofia) caminhassem de mãos dadas. Por um longo
período da história a filosofia medieval foi predominante no continente
europeu, porém com o advento do período renascentista, a filosofia medieval
foi perdendo o protagonismo, ou seja, o argumento de que a fé e a razão
deveria caminhar de mãos dadas não era o suficiente, deste modo, começa a
surgir o período renascentista.
O renascimento (início do séc. XIV ao séc. XVII) pode ser
caracterizado como o período de grande avanço para a ciência,cultura e
política na civilização europeia, também é durante o renascimento que
surgem os grandes embates entre a ciência e a instituição religiosa
(catolicismo). Sobre este período podemos mencionar os seguintes nomes:
Erasmo de Roterdã (1466-1536); Galileu Galilei (1564-1642) Leonardo da
Vinci (1452-1519), Nicolau Copérnico (1473-1543) e Nicolau Maquiavel
(1469-1527). Tais personalidades foram de grande valia para o

desenvolvimento do período renascentista em suas respectivas áreas do
conhecimento.
Durante este período temos invenções de aparatos tecnológicos e teorias
como:
1. a luneta (aparelho desenvolvido por Galileu para estudar os corpos
celestes, tais como as trajetórias de Júpiter e Vênus)
2. o globo terrestre (durante este período não havia o conhecimento sobre
a existência do novo mundo, por isso não havia menção sobre o
continente americano)
3. o microscópio (aperfeiçoado pelo cientista holandês Antoin van
Leeuwenhoek (162-1723), o aperfeiçoamento do microscópio
contribuiu para os estudos da biologia)
4. teoria do heliocentrismo (teoria desenvolvida por Copérnico,segundo
esta teoria, o Sol não seria o centro do universo, além disso o planeta
Terra gira em torno do Sol. A teoria de Copérnico iria substituir a
teoria geocentrismo
5. leis da gravitação (leis da física desenvolvida pelo físico inglês Isaac
Newton (1647-1727)
6. imprensa (criado por Gutemberg invenção que contribuiu para a
ampliação e divulgação de livros)
Além da inovação científica, também houve uma inovação nas artes como
a criação das telas de arte, o perspectivismo. Também houve o
desenvolvimento da teoria filosófica do humanismo, teoria que tinha como
argumento central de que o homem (civilizado/europeu) seria importante,
isto é, o centro dos eventos e fenômenos que ocorrem no mundo.
Na campo político temos as teorias do filósofo florentino Nicolau
Maquiavel (1469-1527), em o seu pequeno (porém, denso) livro
O príncipe,
Maquiavel apresenta os seus argumentos sobre a política (como um líder de

Estado/governo deveria ou não agir na política, Maquiavel também é tido
como o primeiro cientista político moderno.
Tanto as reflexões desenvolvidas pelos medievais, quanto a criação ou
desenvolvimento de teorias e aparatos tecnológicos que ocorreram no
renascimento irão repercutir cientificamente, culturalmente, filosoficamente
no período moderno e no contemporâneo.

 
Para assistir: 
 
Joana D'Arc, 1999.
Monty Phyton: em busca do cálice sagrado, 1975.
O nome da rosa, 1986.
O sétimo selo,  1956.
Robin Hood, 2010.

Para assistir (youtube):

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Se a liberdade é inalcançável porque devemos acreditar nela?

 Agradeço aos amigos Giulia e Murilo sobre seus comentários sobre o tema.
 
Liberdade, certamente é um dos conceitos mais difundidos em toda a história da humanidade, entretanto o que é liberdade? O que é ser livre? Eu, você somos livres? Quais são os limites da liberdade?
Ao darmos atenção a essas provocações percebemos a importância deste conceito para a sociedade. Ao longo da história da civilização ocidental, pensadores tentaram definir o que é este conceito, seja através de um ponto de vista, metafísica, política ou até mesmo teológica, e, quais seriam as implicações deste conceito na sociedade. 
A trilogia cinematográfica Matrix, a seu modo, abordou a questão sobre a liberdade. No primeiro filme, somos apresentados ao jovem programador (e hacker) Thomas Anderson, de alguma forma, o jovem percebe que há algo de errado no mundo, deste modo, o personagem toma conhecimento sobre a matrix, um sistema de inteligência artificial que usa vidas humanas como bateria. Com ajuda de um grupo da resistência humana liderados pelo enigmático Morpheus, Thomas Anderson é liberto da matrix. Ao estar livre da matrix, Thomas Anderson (a partir deste momento será chamado de Neo) percebe que tudo o que ele conhecia não passava de uma ilusão programada pela matrix. Essa cena do longa é uma clara alusão à alegoria da caverna, célebre passagem do livro VII da República escrita pelo filósofo ateniense Platão (427 a.C. - 347 a.C.).
Estando livre da matrix, Neo abraça a causa da resistência humana que tem como objetivo acabar de vez com a inteligência artificial, consequentemente, a humanidade estará livre. Entretanto, no terceiro filme Matrix Revulutions, mais especificamente no final do longa, notamos algo peculiar: em uma praça a Oráculo encontra-se ao lado do Arquiteto, o suposto criador da matrix. Nesta cena, a partir do diálogo entre os dois podemos fazer a seguinte interpretação: os humanos estão livres, entretanto, tal liberdade não passa de uma ilusão, segundo o Arquiteto e a própria Oráculo, tudo ocorreu como previsto. Seria a liberdade uma ilusão e tudo que existe está determinado?
Comumente a liberdade é tida como sinônimo de utopia, isto é, mesmo sendo inalcançável, é tido como um ideal a ser alcançável. Ao aceitarmos esse pressuposto, podemos afirmar que a liberdade é usada como um instrumento político, isto é, além de ser utópico, a liberdade pode ser alienante.
Além destas provocações é interessante vermos qual é a posição da ciência a respeito da liberdade, mais especificamente, a neurociência e a filosofia da mente. Entretanto, para darmos continuidade é interessante apresentarmos mesmo que de maneira breve as definições sobre livre-arbítrio e determinismo*.
Determinismo: Doutrina segundo qual tudo que acontece tem uma causa. A explicação habitual dessa ideia consiste em defender que, para qualquer acontecimento, existe um estado anterior relacionado a ele de tal maneira que não poderia (sem violar uma lei da natureza) existir, sem que existisse o acontecimento.
Livre-arbítrio:  O problema consiste em reconciliar a consciência cotidiana de nós mesmos como agentes, com a melhor teoria que a ciência oferece sobre nós.
O filósofo estadunidense Donald Davidson (1917-2003) parte do pressuposto de que a liberdade é uma expressão da razão, portanto há uma correspondência com a natureza, isto é, para Davidson, a razão é uma atividade mental, essa  posição do filósofo é uma resposta ao reducionismo**.
Se adotarmos uma postura mais alinhada às ciências cognitivas, iremos compreender que todas as nossas atividades, sejam elas individuais ou sociais estão relacionada às redes neurais, ou seja, todas as nossas ações são previamente analisadas e determinadas pelo nosso cérebro. Além disso, destacamos a importância da percepção sensorial, isto é, mesmo que as nossas ações sejam articuladas através de alguma atividade mental, sentidos como visão, olfato e tato são relevantes para nos adaptar-nos e interagimos com a respectiva realidade***. 
No entanto, a questão sobre a liberdade permanece, somos livres para tomar alguma decisão? Talvez seja justamente podermos ponderar as nossas ações que nos permita uma idealização de que somos livres.

* Os trechos usados são verbetes que se encontram no Dicionário Oxford de Filosofia.
** Como o presente texto não possui a pretensão em aprofundar-se no tema abordado, mas sim de introduzi-los, não daremos continuidade a posição filosófica de Davidson, para os interessados no assunto recomendamos a dissertação de Andrea Schimmenti.
*** A partir de uma perspectiva epistemológica, alguns filósofos da  mente debatem sobre a precisão da nossa percepção sobre a realidade, recomendamos a leitura do texto de Luiz Henrique de Araújo Dutra.
 
Para assistir (filmes)

The Marix,1999.
The Matrix Revulutions, 2003.

Para assistir:

 
Para ler:

Daniel Dennett. A liberdade evolui. E o determinismo?

segunda-feira, 10 de maio de 2021

O caso Guerra dos Mundos de Orson Welles

 Esse texto é resultado de uma conversa com a estudante secundarista Bianca de Asevedo, grato pela conversa.
 
Na noite do dia 30 de outubro de 1938, algo extraordinário/aterrorizante ocorre nos Estados Unidos, o mundo está sendo atacado por marcianos!
O que era para ser uma simples adaptação da obra de H. G. Wells (1866-1946), War of the Worlds, traduzido para o português Guerra dos Mundos (1898), para o programa de rádio da CBS, ganhou notoriedade por causar pânico nas casas dos estadunidenses. 
Produzido e dirigido pelo até então desconhecido Orson Welles (1915-1985) para o seu programa de rádio semanal, na qual o jovem apresentava  adaptações de obras literárias, entretanto, de modo inesperado o jovem ganha notoriedade, desde então, a partir da repercussão de sua adaptação para o programa de rádio, o mesmo tem sido objeto de estudo entre os especialistas, pois é considerado como a grande fake news da história contemporânea. 
A narrativa de Guerra dos Mundos começa com uma suposta invasão alienígena, nada detém as forças invasoras, nem mesmo as forças amadas, o que resta para a humanidade é a destruição e extermínio. Entretanto de forma inesperada os invasores são derrotados. Embora essa breve apresentação da obra de Wells pareça simples, foi essa narrativa que causou pânico nos ouvintes da rádio. Após a tamanha onda de histeria e pânico, Welles pede desculpas em rede nacional, segundo ele, além de não imaginar que a sua adaptação iria causar tamanho alvoroço, não era sua intenção causar histeria entre os seus ouvintes.
Ao tomarmos conhecimento sobre a façanha de Welles, podemos caracterizar tal feito como um fenômeno de transmissão de fake news. Pensadores como Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) nos advertem sobre os meios de comunicação em massa, segundo estes pensadores a cultura de massa é alienante, ou seja, a cultura de massa não contribui para o desenvolvimento crítico do indivíduo.   Ao voltarmos ao nosso tempo, vemos que o fenômeno da fake news continua a pleno vapor, deste modo, podemos fazer a seguinte questão: mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico e informacional, como é possível a proliferação de fake news?
Desde o surgimento dos meios de comunicação em massa notamos a circulação de informações falsas, a partir disso surgem novas questões: o que é informação? como verificamos se tal informação é verdadeira ou falsa? Uma possível solução sobre tais questões é a emancipação, ou seja, o desenvolvimento da análise crítica, deste modo, cabe incentivar os meios que proporcionam o indivíduo a emancipação, seja através, da cultura e da educação.
 
Para ouvir:

 
Para ler:
 
Theodor Adorno & Max Horkheimer. Dialética do Esclarecimento.