“Que ideia, se implementada, representaria a maior ameaça ao bem-estar da humanidade?” Esta foi a pergunta feita pelos editores da revista Foreign Policy na edição de setembro/outubro a oito proeminentes intelectuais da área política, entre eles Francis Fukuyama, professor de economia política internacional na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e membro do Conselho Presidencial de Bioética.
A resposta de Fukuyama? O transhumanismo, “um estranho movimento de libertação” cujos defensores têm objetivos muito mais ambiciosos do que os ativistas dos direitos civis, feministas ou defensores dos direitos homoafetivos. Segundo ele, esse movimento quer “nada menos do que libertar a espécie humana de suas limitações biológicas.”
Mais precisamente, os transhumanistas defendem um investimento maior em pesquisas para aumentar radicalmente a expectativa de vida saudável e favorecem o desenvolvimento de métodos médicos e tecnológicos para aprimorar a memória, a concentração e outras capacidades humanas. Os transhumanistas propõem que todos tenham a possibilidade e a liberdade de usar esses procedimentos para aprimorar as várias dimensões do seu bem-estar cognitivo, emocional e físico.
Contudo, segundo os transhumanistas, a escolha de se valer ou não dessas opções de aprimoramento deve, em geral, caber ao indivíduo. Os transhumanistas estão preocupados com o fato de que o prestígio do Conselho Presidencial de Bioética esteja sendo usado para promover uma agenda bioconservadora limitadora, a qual é diretamente hostil ao objetivo de permitir que as pessoas (como indivíduos e não grupo social) melhorem suas vidas por meio do aprimoramento de suas capacidades biológicas.
Por que Fukuyama considera o projeto transhumanista, de trabalhar para tornar as opções de aprimoramento universalmente disponíveis, a ideia mais perigosa do mundo? Sua animosidade contra a posição transhumanista é tão forte que ele chega a desejar a morte de seus adversários: “os transhumanistas”, escreve ele, “são praticamente o último grupo que eu gostaria de ver viver para sempre.” Por que exatamente é tão perturbador para Fukuyama contemplar a sugestão de que as pessoas usem a tecnologia para se tornarem mais inteligentes ou para viverem vidas mais longas e saudáveis?
Resistências intensas têm acompanhado frequentemente avanços tecnológicos ou médicos que nos obrigam a reconsiderar alguns aspectos da nossa visão de mundo. Assim como a anestesia, os antibióticos e as redes globais de comunicação transformaram fundamentalmente nossa percepção da condição humana, também podemos antecipar que nossas capacidades, esperanças e problemas mudarão se as tecnologias mais especulativas discutidas pelos transhumanistas se concretizarem. Além de um vago sentimento de inquietação, que todos podemos compartilhar em diferentes graus, que argumento específico Fukuyama apresenta para justificar a renúncia aos muitos benefícios de permitir que as pessoas melhorem suas capacidades básicas?
A objeção de Fukuyama é que a defesa da igualdade de direitos legais e políticos é incompatível com a aceitação do aprimoramento humano. “Subjacente a essa ideia de igualdade de direitos está a crença de que todos possuímos uma essência humana que supera as diferenças manifestas na cor da pele, na beleza e até mesmo na inteligência. Essa essência, e a visão de que os indivíduos têm, portanto, um valor inerente, está no cerne do liberalismo político. Mas modificar essa essência é o cerne do projeto transhumanista.”
O seu argumento consiste, portanto, em três pressupostos: (1) existe uma “essência humana” única; (2) apenas os indivíduos que possuem essa essência misteriosa podem ter valor intrínseco e merecer direitos iguais; e (3) as melhorias defendidas pelos transhumanistas eliminariam essa essência. A partir daí, ele conclui que o projeto transhumanista destruiria a base dos direitos igualitários.
O conceito de “essência humana” é, obviamente, profundamente problemático. Os biólogos evolucionistas observam que o patrimônio genético humano está em constante mudança e dizem que nossos genes dão origem a um “fenótipo ampliado” que inclui não apenas nossos corpos, mas também nossos artefatos e instituições. Nos últimos vinte anos, os etólogos revelaram o quanto somos semelhantes aos nossos grandes parentes primatas. Um conceito denso de essência humana tornou-se, sem dúvida, um anacronismo. Mas podemos deixar essas dificuldades de lado e nos concentrar nas outras duas premissas do argumento de Fukuyama.
A afirmação de que apenas as pessoas que possuem a essência humana podem ter valor intrínseco é equivocada. Somente os mais insensíveis negariam que o bem-estar de alguns animais não humanos é importante, pelo menos até certo ponto. Se um visitante do espaço sideral chegasse à nossa porta e tivesse consciência e capacidade moral, assim como nós, humanos, certamente não negaríamos seu status moral ou valor intrínseco apenas porque ele não possui a tal da “essência humana.” Da mesma forma, se algumas pessoas modificassem sua própria biologia de uma forma que alterasse o que Fukuyama considera ser sua “essência”, será que realmente gostaríamos de privá-las de sua posição moral e direitos legais? Excluir pessoas do círculo moral simplesmente porque elas possuem uma “essência” diferente “do resto de nós” é semelhante a excluir pessoas com base em seu gênero ou etnia.
O progresso moral nos últimos dois milênios consistiu, em grande parte, em aprendermos gradualmente a superar nossa tendência de fazer discriminações morais com base em motivos fundamentalmente irrelevantes. Devemos ter em mente essa lição duramente apreendida quando abordamos a perspectiva de pessoas tecnologicamente modificadas. As democracias liberais falam de “igualdade humana” não no sentido literal de que todos os seres humanos são iguais em suas diversas capacidades, mas que são iguais perante a lei. Não há razão para que os seres humanos com capacidades alteradas ou aprimoradas não sejam igualmente iguais perante a lei, nem há motivo para supor que a existência dessas pessoas deva minar séculos de refinamento jurídico, político e moral.
A única abordagem defensável para basear o status moral na essência humana é definindo “essência” de forma muito ampla; digamos, como “possuir a capacidade de agir moralmente”. Mas se usarmos essa interpretação, a terceira premissa de Fukuyama deixa de se sustentar. Os aprimoramentos defendidos pelos transhumanistas — maior longevidade saudável, melhor memória, maior controle sobre as emoções, etc. — não privariam as pessoas da capacidade de agir moralmente. Na verdade, esses aprimoramentos protegeriam e expandiriam o alcance da ação moral.
Portanto, o argumento de Fukuyama contra o transhumanismo é equivocado. Entretanto, Fukuyama está certo em chamar a atenção para as implicações sociais e políticas do uso crescente da tecnologia para transformar as capacidades humanas. De fato, precisamos nos preocupar com a possibilidade de estigmatização e discriminação, seja contra ou a favor de indivíduos tecnologicamente aprimorados. A justiça social também está em jogo e precisamos garantir que as opções de aprimoramento sejam disponibilizadas da forma mais ampla e acessível possível. Esse é um dos principais motivos que levaram ao surgimento dos movimentos trans(h)umanistas. De maneira geral, os trans(h)umanistas buscam promover as ideias de liberdade morfológica, cognitiva e reprodutiva, com amplo acesso a opções de aprimoramento. Apesar dos exageros retóricos ocasionais de alguns de seus defensores, o transhumanismo possui uma visão positiva e inclusiva de como podemos abraçar eticamente novas possibilidades tecnológicas para levar uma vida mais do que boa.
O único perigo real representado pelo transhumanismo é que tanto a esquerda quanto a direita possam considerá-lo muito mais atraente do que o bioconservadorismo reacionário defendido por Fukuyama e alguns outros membros do Conselho Presidencial.
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