domingo, 8 de junho de 2025

Por uma ciência transhumanista: estamos próximos de alcançá-la? (TRADUÇÃO)

 
Esta divulgação de tradução é resultado da pesquisa em desenvolvimento ao lado da minha pesquisa de mestrado em filosofia intitulado: "A controversa interpretação sobre o conceito de Übermensch na filosofia transhumanista" na universidade Federal do Paraná.
 
Chris Willmott - Professor associado do Departamento de Biologia Molecular e Celular da Universidade de Leicester - Reino Unido. Conduz pesquisas sobre resistência a antibióticos. Seu trabalho atual se concentra principalmente em bioética, pedagogia e representação da ciência na mídia. Contato: cjrw2@le.ac.uk.  
 
Publicado originalmente na Metode Science Studies Journal v. 12, p. 161-167, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.7203/metode.12.20710
Para Tawana Tábata
 

Resumo: O transhumanismo tem por objetivo utilizar a ciência e a tecnologia para elevar os seres humanos para além das limitações da sua condição natural. Através dos recentes avanços científicos, pela primeira vez, intervenções genéticas possíveis foram apresentadas para a evolução dirigida de seres humanos. Separadamente, as inovações eletromecânicas, incluindo a miniaturização de componentes e os aprimoramentos em materiais biocompatíveis, proporcionaram avanços nas interfaces cérebro-máquina (ICM) que potencializam uma dimensão cibernética, na qual os dispositivos mecânicos estariam sob o controle direto da mente (consciência). Este artigo fornece informações importantes em torno destes avanços recentes, dando ênfase na edição do genoma e nos usos terapêuticos dos ICMs nos quais a mesma tecnologia pode ser empregada para aprimoramento.

Palavras-chave: ampliação; ciborgue; CRISPR; edição genômica; interface cérebro-máquina

 

Introdução

 

O que começou como um movimento periférico para desenvolver os seres humanos além das restrições naturais da espécie Homo sapiens, tornou-se, nos últimos anos, cada vez mais popular. Esta tendência pode ser relacionada ao surgimento de tecnologias que começam a tornar viável a mudança da forma humana de maneiras que seriam improváveis ou impossíveis por meio da evolução “cega”. Fundamentalmente, há duas dimensões nas quais a natureza humana poderia ser alterada pela ciência: a humano-animal (biológica) e a humano-máquina (eletromecânica). Cada uma delas será considerada individualmente, começando pela biológica.

 

Caminhos biológicos para o aprimoramento humano

 

A genética apresenta um papel fundamental em nossas vidas. Não abordaremos a história das tentativas de direcionar propositalmente a composição genética dos indivíduos, mas é necessário mencionar duas abordagens, mesmo que seja somente para destacar suas limitações. Em primeiro lugar, passaram-se mais de 30 anos desde o uso pioneiro do Diagnóstico Genético Pré-implantacional (PGD) para selecionar embriões que demonstraram estarem livres de alguma mutação hereditária conhecida, potencialmente em combinação com características adicionais que os tornariam futuros doadores adequados de células-tronco para o tratamento de um irmão doente. Embora o termo “bebê geneticamente modificado” seja amplamente utilizado para mencionar as crianças nascidas por meio de PGD, ele nunca foi uma descrição apropriada e precisa, visto que o procedimento se limitou a selecionar a combinação de genes reunidos naturalmente; isto é, o procedimento de PGD nunca pôde introduzir novos genes intencionalmente.

Um grande passo para a alteração deliberada do DNA de um indivíduo veio na forma de uma segunda tecnologia: a terapia gênica. O objetivo desta estratégia é o de superar as doenças resultantes de duas cópias defeituosas de um gene por meio da adição de uma cópia complementar funcional. Embora isso pareça relativamente simples, o controle da realidade se mostrou mais complexo do que se esperava. Por exemplo, o próprio processo de integração do novo DNA em um cromossomo existente (a fim de facilitar a herança estável do gene extra) poderia causar danos adicionais e gerar novos problemas. Dadas essas limitações, é provável que o escopo dessa abordagem esteja restringido ao uso terapêutico e não ao aprimoramento humano.

A capacidade real de introduzir recursos adicionais em seres humanos por meio de seus genomas surge em decorrência do sistema CRISPR, ou mais precisamente CRISPR-Cas9, para edição do genoma. Houve algum sucesso na alteração de genomas de outras espécies anteriormente com o uso de ferramentas conhecidas como nucleases de dedo de zinco (ZFNs) e nuclease efetora semelhante ao ativador de transcrição (TALENs) (Gaj et al., 2013). Contudo, destacamos que o uso do CRISPR não é nada trivial, isto é, os ZFNs e os TALENs são consideravelmente mais complexos, caros e ineficientes, portanto, eles rapidamente saíram da corrida para aprimorar os seres humanos quando o último método foi identificado.

Não é exagero afirmar que o CRISPR seja um divisor de águas; ele permite alterações hereditárias nos seres humanos e confere plausibilidade à noção do transhumano biológico e de bebês geneticamente modificados.

Uma das principais dimensões da aplicação do CRISPR é o reconhecimento de que ele pode ser usado para gerar quebras de DNA de fita dupla em um ponto predeterminado em quase todos os genomas (o CRISPR foi originalmente identificado como um mecanismo de defesa em bactérias, no qual o DNA de vírus invasores, como um bacteriófago, é reconhecido de forma específica à sequência). Uma molécula de RNA é usada para direcionar uma enzima cortadora de DNA chamada de Cas9 (proteína número 9 associada ao CRISPR) para a posição em um cromossomo onde você decidiu introduzir um corte. É importante ressaltar que o fato de ser necessário somente projetar uma molécula curta de RNA para alterar o local da quebra do DNA, ao invés de reconstruir a própria enzima, é um fator crucial que distingue a CRISPR-Cas9 das ZFNs e das TALENs. O contraste é equivalente em termos de complexidade, ao mudar a música que você está ouvindo para colocar um CD diferente em vez de reconstruir o seu HiFi (alta fidelidade) do início.

            A quebra de uma fita dupla no DNA de uma célula é uma grande ameaça à sua viabilidade contínua. Se a clivagem do DNA fosse o fim da história (como seria para as bactérias que se defendem contra vírus), isso não ofereceria nenhum potencial para a introdução de novos genes. Para isso, é necessário subverter os sistemas de reparo da célula. Como vários processos podem contribuir naturalmente para a quebra do DNA, o corpo tem sistemas ativados para amenizar o dano. Um desses mecanismos envolve a recombinação homóloga (RH), também conhecido como reparo dirigido por homologia. O RH aproveita o fato de haver dois conjuntos de nossos cromossomos e realiza a restauração da sequência danificada, copiando a seção equivalente do outro cromossomo. Para modificar intencionalmente ou introduzir um gene totalmente diferente, como seria necessário para o aprimoramento, o mecanismo de reparo precisa receber um modelo rival que possa ser enganado para usar em vez da segunda cópia natural.

            Pesquisadores de todo o mundo estão empregando o CRISPR e métodos relacionados para modificar diversos organismos. O CRISPR é usado extensivamente com células humanas. De modo geral, esse trabalho é realizado em linhas de células cultivadas, tanto para fins de pesquisa básica quanto, quando há expectativa de uso terapêutico, para permitir que sejam feitas verificações apropriadas antes de qualquer consideração sobre a transferência dessas células para um paciente (Wang et al., 2014). Tais aplicações demonstraram, sem sombra de dúvida, que o sistema CRISPR funciona. No entanto, ainda há motivos significativos para precaução. É possível, por exemplo, acabar com o mosaicismo: uma população mista de células em que ambas as cópias de um gene foram alteradas, algumas em que uma foi alterada e outra não, e outras em que não ocorreram alterações. Também existem possíveis problemas com “efeitos fora do alvo”, nos quais a Cas9 corta o DNA em locais errados, causando alterações não intencionais no genoma.

            Os ajustes do método CRISPR convencional que reduzem algumas dessas características indesejáveis estão sendo desenvolvidos. Por exemplo, foram projetadas mutações no Cas9 que utilizam o direcionamento específico de sequência do sistema CRISPR-Cas, mas restringem a clivagem a uma fita do DNA (um cenário muito menos arriscado) e, ao mesmo tempo, introduzem novas capacidades para alterar o DNA (Platt, 2019).

            A despeito das fragilidades predominantes, a CRISPR já foi empregada para alterar o genoma humano hereditário em pelo menos uma ocasião. Em novembro de 2018, o Dr. He Jiankui anunciou que havia modificado geneticamente meninas gêmeas, alterando uma proteína chamada CCR5, explorada pelo HIV para entrar nas células. Ele usou a CRISPR-Cas9 para alterar o gene da CCR5 nas meninas, introduzindo uma mutação que criou uma versão não funcional dessa proteína e que, portanto, deveria protegê-las contra o vírus.

            A implantação de um embrião geneticamente modificado no útero de uma mulher continua sendo ilegal em todo o mundo. A comunidade científica internacional e os bioeticistas, portanto, sentiram que He Jiankui havia sido prematuro ao cruzar este limite. As autoridades chinesas concordaram, condenando-o a três anos de prisão (Regalado, 2019). Embora esse seja o primeiro exemplo conhecido em que alguém alterou intencionalmente o genoma humano hereditário, a simplicidade do CRISPR torna altamente plausível que tentativas de realizar outras alterações genéticas já estejam em andamento em algum lugar do mundo.

            Este pode ser um procedimento para criar transhumanos? Talvez não inicialmente, mas o sistema CRISPR-Cas9 e as tecnologias relacionadas têm o potencial não somente de mexer com os genes humanos existentes, mas também de fornecer genes derivados de outros organismos ou até mesmo sequências totalmente artificiais. Com exceção de certas limitações de tamanho, a princípio deveria ser possível integrar qualquer gene ao genoma do receptor, uma vez que a quebra de alvo tenha sido gerada. Poderiam ser introduzidos novos atributos, incluindo ampliações radicais, um termo usado para definir mudanças literalmente sobre-humanas (por exemplo, a capacidade de voar) além das ampliações extraordinárias, isto é, a capacidade de realizar alguma tarefa humana rotineira de forma não natural (por exemplo, conseguir correr a 60 km/h) (Shook & Giordano, 2016).

            Se algo não puder ser alcançado em uma rodada de alterações, talvez seja possível executar várias etapas para adicionar mais alterações progressivamente. Esse procedimento já está sendo feito no caso de “humanização” de órgãos de suínos, a fim de torná-los menos propensos a provocar rejeição quando transplantados em um receptor humano (Begley, 2017). As lições aprendidas durante esses procedimentos podem orientar futuras tentativas de alterar diretamente o genoma humano. É importante observar também que, com uma combinação adequada de RNA guia (gRNA) e modelos de DNA, seria possível para a CRISPR alterar vários genes simultaneamente. Porém, é evidente que os problemas de mosaicismo em potencial aumentam significativamente se o único resultado aceitável for a edição correta em vários locais ao mesmo tempo.

 

Percursos eletromecânicos para o aprimoramento humano

 

Para a segunda dimensão do processo de aprimoramento, vamos considerar a situação atual das intervenções eletromecânicas. É possível fazer uma distinção entre abordagens não invasivas, isto é, aquelas que permanecem externas ao corpo, e aquelas que envolvem penetrar literalmente a pele (invasiva). Como deve ser evidente, as abordagens não invasivas constituem a “parte mais superficial” do espectro homem-máquina. Para muitos, isso não seria considerado verdadeiramente transhumanista, no entanto, é no mínimo um alerta sobre até que ponto a tecnologia já desempenha um papel em nossa vida biológica. Podemos trazer como exemplo a utilização dos dispositivos vestíveis, tais como os Fitbits (Smartwatchs), para registrar dados biométricos que influenciam nossas escolhas de estilo de vida subsequentes. Um próximo passo seria o uso eletivo de métodos de estimulação elétrica cerebral, como a estimulação magnética transcraniana (EMT) e a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC ou tDCS), visando melhorar o humor, a memória ou a aquisição de linguagem (Yazdi, 2020).

O fato de mudar o foco para alterações invasivas representa inevitavelmente o cruzamento de um limite ideológico e físico significativo. Em um nível, a inserção de tecnologia no corpo implica o risco potencial de infecção, mas também representa um compromisso mais profundo com a alteração. A inserção de chips de identificação por radiofrequência (RFID) que podem se comunicar por meio de dispositivos externos, armazenar números de PIN e outras informações eletrônicas ou acionar a abertura de portas tem benefícios tangíveis, por exemplo, para deficientes físicos. Por outro lado, também há uma comunidade de entusiastas de modificações corporais (grinders biohackers) que simplesmente querem ultrapassar os limites da experiência humana. Por exemplo, é provável que os ímãs sejam incorporados para permitir que o usuário tenha uma experiência maior de campos magnéticos por motivos sensoriais e não médicos.

 

Conexão com a rede

 

Um passo maior é dado quando as alterações invasivas envolvem a interação direta de um dispositivo eletromecânico com o sistema nervoso central (SNC) do receptor. Essa conexão pode ser feita pela coluna vertebral, por um nervo periférico ou diretamente com o cérebro. Tais interfaces neurais não são somente o tema de cenários futuros. Os implantes cocleares já superam as deficiências do processo auditivo acústico normal, passando sinais elétricos diretamente para o nervo auditivo, e a estimulação cerebral profunda, por exemplo, para tratar distúrbios de movimento, envolve o envio de impulsos para eletrodos implantados no cérebro.

No contexto transhumanista, os desdobramentos significativos envolvem o controle de membros protéticos neurais e aspectos mais amplos das interfaces cérebro-máquina (BMI ou interface cérebro-computador – ICC). Assim como nas inovações anteriores, as aplicações terapêuticas predominam atualmente, mas é fácil ver como os avanços em próteses poderiam ser utilizados para o aprimoramento humano. Em um estudo inovador, foram implantados eletrodos no córtex motor primário de uma mulher tetraplégica (Collinger et al., 2013). A partir de cabos conectados ao seu crânio, ela conseguiu operar um membro protético simplesmente pensando no movimento pretendido.

Em outros locais, os pesquisadores trabalham em dispositivos hápticos que transmitem informações sensoriais como toque, pressão e posição do membro para o cérebro por meio de micro estimulação intracortical. Em um estudo, um homem com lesão na coluna vertebral foi solicitado a descrever os sentidos que ele experimentou (embora como fantasma) com uma combinação de estímulos fornecidos por meio de eletrodos implantados em seu córtex somatossensorial primário (S1) (Salas et al., 2018). Uma segunda equipe obteve uma sensação limitada de toque e pressão no cérebro de um homem paralisado, quando conectou uma mão robótica à sua região S1 (Flesher et al., 2016). A ambição final destes estudos é obter um sistema de circuito fechado, ou seja, bidirecional, combinando as informações de entrada sensorial e a resposta motora. Isso permitiria a “evolução” das habilidades motoras finas.

Cabe reiterar que, até este ponto, a pesquisa se concentrou na reabilitação. Contudo, o fato de grande parte do financiamento para esse trabalho ter origem na Agência de Projetos de Pesquisa para o Avanço da Defesa dos EUA é um indicador de que inovações desse tipo têm potencial tangível para fins de aprimoramento, por exemplo, o controle de membros sobre-humanos para super-soldados. Avanços mais abrangentes em relação aos ICMs incluem a “cognição aprimorada”, que permite que alguém acesse instalações de computação remota diretamente de sua mente. Isso permite que eles realizem cálculos matemáticos complexos “em sua cabeça” ou concedam uma percepção aprimorada de seus arredores, com a capacidade de arquivar rotineiramente os dados coletados (Roelfsema, Denys, & Klink, 2018). Como alternativa, deve ser possível fazer o download da fluência linguística instantânea ou da capacidade de realizar alguma tarefa.

O desenvolvimento de BMIs não depende somente da compreensão do cérebro, mas também de inovações cibernéticas. Dentre eles, estão o aprimoramento da velocidade de transferência de informações (Lebedev, Opris, & Casanova, 2018), bem como os avanços na ciência dos materiais para proporcionar uma conexão estável e eficaz entre o wetware orgânico do cérebro e o hardware tecnológico.

A experiência com os implantes cerebrais existentes destacou uma série de obstáculos que precisam ser enfrentados. Estão incluídos: danos aos tecidos ao redor dos eletrodos, degradação dos próprios eletrodos, perda de sinal devido ao micro deslocamento das conexões na interface e o desencadeamento de respostas imunológicas (Polikov, Tresco, & Reichert, 2005). A biocompatibilidade e a longevidade dos eletrodos são uma das principais prioridades. A estabilidade, as dimensões e a natureza baseada em carbono dos nanotubos de grafeno os tornam particularmente atraentes para uma série de aplicações biomédicas, inclusive para ICMs (Rauti et al., 2019).

            O processo de desenvolvimento de interfaces cérebro-máquina é uma área de interesse ativo para o empresário Elon Musk (Waldert, 2016). Sua empresa Neuralink é uma das várias organizações que, segundo informações, estão próximas de realizar testes de ICMs em humanos. A miniaturização tem sido uma das principais prioridades, sendo que os fios nos quais os eletrodos para o ICM da Neuralink são agrupados são aparentemente tão pequenos que é necessário um robô especializado para posicioná-los no cérebro do receptor, evitando danos aos vasos sanguíneos. Os especialistas críticos argumentam que a programação (agenda) promovida por Elon Musk é irreal e que ele não está considerando dificuldades fundamentais, como a arquitetura exclusiva do cérebro de cada pessoa (Corbyn, 2019).

            Qualquer avanço nessas áreas reforçaria claramente as inovações discutidas anteriormente com relação à operação de membros protéticos “inteligentes”, mas Musk é transparente quanto ao seu desejo de ir além das aplicações terapêuticas e alcançar a simbiose com a IA. Neste sentido, um IMC estável e eficaz é a porta de entrada para a criação de ciborgues completos, nos quais o cérebro é o único remanescente orgânico de um indivíduo que já foi humano. Elon Musk também imagina um mundo no qual você poderia arquivar versões de sua memória da mesma forma que salvaria versões de um documento. É preciso reforçar que ainda não é possível fazer isso, mas a ciência que pode alcançar esse objetivo está definitivamente progredindo.

            Outros buscariam ir ainda mais longe: cortar qualquer vínculo com o “Eu” orgânico e carregar essencialmente a consciência humana em computadores como uma “emulação do cérebro inteiro” (Tirosh-Samuelson, 2018). Embora esse ser não tivesse mais nenhuma matéria biológica, seria pós-humano, ainda assim teria havido um tempo em que esses pensamentos e memórias estavam ligados a uma pessoa física. Em contraste com um androide, um “ser” que permanece inteiramente máquina, mas que manifesta características humanas.

 

Ciborgues... e quanto aos androides?

 

            Apesar de os termos serem usados, às vezes, como se fossem intercambiáveis, ciborgues e androides são, de fato, entidades diferentes, sendo que os últimos são robôs antropomórficos totalmente artificiais. Diversos desenvolvimentos recentes têm visto crescentes apelos para que os androides terem direito à personalidade. A título de exemplo, em 2017, a Arábia Saudita concedeu cidadania a um robô chamado Sophia e o Parlamento Europeu debateu a atribuição de responsabilidade caso o robô de uma empresa seja considerado responsável por qualquer dano à propriedade de terceiros (Giger et al., 2019).

            Como um androide nunca existiu em uma forma biológica incorporada, ele é inevitavelmente, em certa medida, um “falso humano”, não um transhumano ou mesmo um pós-humano. Portanto, considero que esse ser está fora do escopo de nossa pesquisa atual.

 

Conclusão

 

            A previsão do prazo e da importância das inovações é notoriamente problemática. A Lei de Amara (conforme citado em Brooks, 2017, p.79) afirma que “tendemos a superestimar o efeito de uma tecnologia no curto prazo e a subestimar o efeito no longo prazo”.  As metas do transhumanismo ainda não foram alcançadas. Porém, os desenvolvimentos recentes em campos tão diversos quanto as interfaces cérebro-máquina e a edição do genoma avançaram de forma inesperadamente rápida e oferecem as indicações mais fortes de que a evolução além das restrições naturais do Homo sapiens é viável.

 

Referências

 

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BROOKS, R. (2017). The seven deadly sins of AI predictions. MIT Technology Review, 120 (6), p. 79–86. Disponível em: https://www.technologyreview.com/2017/10/06/241837/the-seven-deadly-sins-of-ai-predictions.

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quarta-feira, 14 de maio de 2025

Manifesto pós-humanista (TRADUÇÃO)

 
Esta divulgação de tradução é resultado da pesquisa em desenvolvimento ao lado da minha pesquisa de mestrado em filosofia intitulado: "A controversa interpretação sobre o conceito de Übermensch na filosofia transhumanista" na universidade Federal do Paraná.
 
Robert Pepperell, professor de belas-artes na Universidade Metropolitana Cardiff (RU). 
Contato: rpepperell@cardiffmet.ac.uk
 
Publicação original disponível em: https://www.intertheory.org/pepperell.htm.
Para Tawana Tábata.
 
I. Declarações gerais
 
1. Está claro que os humanos não são mais as coisas mais importantes do universo. Este é um fato que os humanistas ainda não aceitaram.
 
2. Todo o progresso tecnológico da sociedade humana é direcionado para a transformação da espécie humana como a conhecemos atualmente.
 
3. Na Era pós-humana, muitas crenças se tornam redundantes, principalmente a crença nos seres humanos.
 
4. Os seres humanos, assim como os deuses, só existem enquanto acreditamos que eles existam.

5. O futuro nunca chega. 
 
6. Os humanos não nascem todos iguais, mas é muito perigoso não fingir que são.
 
7. Na Era pós-humana, as máquinas não serão somente máquinas.

8. Uma imperfeição dos seres humanos é que eles precisam que os outros lhes digam o que eles já sabem. Só assim eles acreditarão.
 
9. Os pós-humanistas não se deixam cair na armadilha de imaginar uma sociedade em que tudo funcionará bem. As teorias econômicas e políticas são tão fúteis quanto as previsões meteorológicas de longo prazo.

10. Surfe ou pereça. Você não pode controlar uma onda, mas pode surfá-la.
 
11. Agora percebemos que o conhecimento, a criatividade e a inteligência humanos são, em última análise, limitados.

12. As máquinas complexas são uma forma emergente de vida.

13. Uma máquina complexa é uma máquina que não compreendemos ou controlamos totalmente.

14. Conforme os computadores se desenvolvem para serem mais parecidos com os humanos, os humanos passam a se simpatizar mais dos computadores.

15. Se pudermos pensar em máquinas, então as máquinas podem pensar; se pudermos pensar em máquinas que pensam, então as máquinas podem pensar em nós.
 
II. Considerações sobre a consciência, filosofia e seres humanos 

Se a consciência (humana) é uma propriedade que emerge de um conjunto específico de condições, para sintetizá-la não precisamos remodelá-la de “cima para baixo”. Precisamos somente recriar as condições a partir das quais ela pode emergir. Para tanto, é necessário compreender quais são essas condições.
 
1. A consciência (humana) não se restringe exclusivamente ao cérebro.

2. A consciência (humana) é a função de um organismo, não de um órgão.

3. Não é possível entender a consciência estudando somente o cérebro (humano).  

4. A mente (cérebro) e o corpo (humano) funcionam juntos para produzir a consciência. Se um deles estiver ausente, a consciência é interrompida. Não existe pensamento puro isolado de um corpo. Para funcionar, o cérebro deve estar conectado a um corpo, mesmo que esse corpo seja artificial. A consciência é um efeito que surge por meio da cooperação entre o cérebro e o corpo; pensamos com todo o nosso corpo.
 
5. A consciência (humana) só pode ser considerada uma propriedade emergente. Nesse sentido, é como ferver: se houver calor, gravidade e pressão do ar suficientes, a água em uma chaleira começará a ferver. Podemos ver o que é a ebulição, podemos reconhecê-la como algo a que damos um nome, não a consideramos misteriosa, mas não podemos isolá-la das condições que a produziram. Da mesma forma, a consciência é uma propriedade que emerge de um determinado conjunto de condições.  

6. Dizer que o fluxo de consciência não é uma função exclusiva do cérebro (humano) não nega que o cérebro tenha um papel importante a desempenhar.
 
7. Os corpos humanos não possuem limites.

8. Não é possível estabelecer uma divisão finita entre o ambiente, o corpo e o cérebro. O ser humano é identificável, mas não definível.

9. A consciência (humana) e o ambiente (realidade) não se separam, eles são contínuos. 
 
10. Não há nada externo a um ser humano, porque a extensão de um ser humano não pode ser fixada.
 
11. Se aceitarmos que o cérebro e o corpo (humano) não podem ser absolutamente separados, e que o corpo e o ambiente não podem ser absolutamente separados, então ficamos com a conclusão aparentemente absurda, mas logicamente consistente, de que a consciência e o ambiente não podem ser absolutamente separados.   

12. Inicialmente, tínhamos Deus, os seres humanos e a natureza. Os racionalistas dispensaram Deus, mantendo os seres humanos em conflito perpétuo com a natureza. Os pós-humanistas dispensam os seres humanos, deixando apenas a natureza. As distinções entre Deus, a natureza e a humanidade não representam nenhuma verdade eterna sobre a condição humana. Ela somente reflete os preconceitos das sociedades que mantiveram as distinções.

13. As visões filosóficas, idealistas e materialistas pressupõem uma divisão entre o que pensa e o que é pensado - entre a mente interna (cérebro) e a realidade externa (ambiente). Se essa divisão for removida, as duas visões se tornarão redundantes.

14. Os idealistas acham que as únicas coisas que existem são as ideias; os materialistas acham que a única coisa que existe é a matéria. É preciso lembrar que as ideias não são independentes da matéria e a matéria é apenas uma ideia.

15. A maioria dos problemas filosóficos são debates sobre a linguagem. Eles surgem devido às suposições equivocadas a) de que a linguagem é consistente e b) de que, pelo fato de uma palavra existir, deve existir uma “coisa” que ela representa e c) de que as coisas representadas devem, em si mesmas, ser consistentes.

16. A lógica é uma ilusão da imaginação humana. A verdade e a falsidade não existem na natureza - a não ser no pensamento humano.
 
III.  Considerações sobre a ciência, a natureza e o universo
 
1. A ciência jamais alcançará seu objetivo de compreender a natureza última da realidade. É uma busca fútil, embora muitos cientistas ainda não reconheçam isso. O(s) universo(s) sempre será(ão) mais complexo(s) do que jamais compreenderemos.

2. O pós-humano abandona a busca pela natureza definitiva do universo e sua origem (economizando muito dinheiro no processo).

3. O pós-humano percebe que as perguntas definitivas sobre a existência e o ser não precisam de respostas. A resposta para a pergunta “Por que estamos aqui?” é não haver resposta. 

4. Para conhecer a natureza última do universo, seria necessário saber tudo sobre o universo, tudo o que aconteceu e tudo o que acontecerá. Se uma coisa não fosse conhecida, isso implicaria que todo o conhecimento do universo é parcial, potencialmente incompleto e, portanto, não é definitivo.

5. Nenhum modelo científico pode ser completo, mas sempre será parcial e contingente. Para qualquer modelo ser completo, ele teria de considerar todos os fatores influentes, por mais insignificantes que sejam. Como isso é impossível, o cientista precisa decidir arbitrariamente sobre quais fatores ignorar. Tendo ignorado alguns fatores, seu modelo está incompleto, embora isso não signifique que não seja útil.
 
6. O pós-humano reconhece que os seres humanos têm uma capacidade finita de entender e controlar a natureza.

7. Todas as origens são fins e todos os fins são origens. A teoria do caos tem sido frequentemente ilustrada com a imagem do bater de asas de uma borboleta causando uma tempestade no lado oposto do globo. Embora isso possa ilustrar a sensibilidade dos sistemas aos estados iniciais, não considera o que levou a borboleta a bater as asas - uma rajada de vento?

8. A lógica que parece consistente na escala humana não pode necessariamente ser aplicada à escala microcósmica ou macrocósmica.
 
9. Nossa compreensão sobre o universo é limitada pelo nível de resolução com o qual conseguimos visualizá-lo. O conhecimento depende dos dados - os dados variam conforme a resolução.

10. Os cientistas privilegiam a ordem em detrimento da desordem, supondo que estão descobrindo gradualmente as leis essenciais da natureza. Esse é um erro fundamental; a natureza não é essencialmente ordenada ou desordenada. O que percebemos como informação regular e padronizada classificamos como ordem; o que percebemos como informação irregular e sem padrão classificamos como desordem. A aparência de ordem e desordem implica mais sobre a maneira como processamos as informações do que a presença intrínseca de ordem ou desordem na natureza. 

11. A ciência funciona com base em uma ordem universal intrínseca. Ela pressupõe que todos os fenômenos estão sujeitos a leis físicas e algumas dessas leis são bem compreendidas, outras parcialmente compreendidas e outras desconhecidas. O pós-humano aceita que as leis não são coisas intrínsecas à natureza, nem são coisas que surgem puramente na mente, impostas à natureza. Isso reforçaria a divisão entre a mente e a realidade que já abandonamos. A ordem que comumente percebemos ao nosso redor, bem como a desordem, não é uma função exclusiva do universo ou de nossa consciência, mas uma combinação de ambos, já que não podem ser realmente separados.

12. Tudo o que existe em qualquer lugar é energia. Além do fato de que todos os processos materiais são movidos por energia, a energia tem duas propriedades principais:
A) Ele se manifesta em uma variedade infinita de formas.
B) Ele se transforma perpetuamente.
 
13. A percepção da matéria é uma ilusão gerada por interações entre sistemas energéticos no nível humano de resolução.

14. Os seres humanos e o ambiente (natureza) são expressões diferentes de energia; a única diferença entre eles é a forma que a energia assume. 

15. O pós-humano está totalmente aberto às concepções de “paranormalidade”, “imaterialidade”, “sobrenatural” e “ocultismo”. O pós-humano não aceita que a fé em métodos científicos seja superior à fé em outros sistemas de crença.
 
IV. Considerações sobre (des)ordem e (des)continuidade 

1. Ordem e desordem são qualidades relativas, não absolutas. A prova de que ordem e desordem são qualidades relativas está no fato de que elas definem uma à outra.

2. Qualquer coisa que percebemos pode ser considerada como contendo diferentes graus de ordem e desordem. A percepção de ordem e desordem em alguma coisa depende do nível de resolução a partir do qual ela é vista.

3. O que percebemos como ordenado e desordenado geralmente é determinado culturalmente. Os lógicos afirmam haver maneiras matemáticas de definir desordem, entropia e complexidade - maneiras que são independentes da subjetividade humana. Embora essas definições possam ser úteis em determinadas aplicações, elas permanecem abertas à interpretação relativista.

4. Em termos pós-humanos, as aparentes distinções entre as “coisas” não são o resultado de divisões inatas na estrutura do universo, mas sim resultado conjunto de:
A) a maneira pela qual os processos sensuais (e sensoriais) em entidades vivas operam. 
B) a variedade de maneiras pelas quais a energia se manifesta no universo.
 
5. As maneiras pelas quais as manifestações de energia são percebidas por um observador sempre podem ser descritas com duas qualidades simples: continuidade e descontinuidade. A continuidade é a não interrupção do espaço-tempo. Descontinuidade é uma ruptura no espaço-tempo. Ambas as qualidades podem ser identificadas em todos os eventos, dependendo de como eles são vistos. Mais importante ainda, ambas são experimentadas simultaneamente.

6. As manifestações de energia não devem ser consideradas intrinsecamente contínuas ou descontínuas, isto é, não há qualidades absolutas de energia. Os estados energéticos aparecerão como contínuos ou descontínuos para um observador, dependendo de sua posição visual. A qualidade da (des)continuidade é sensível ao contexto.

7. O que distingue as coisas umas das outras são as descontinuidades percebidas que elas apresentam. A diferença nas manifestações de energia entre um filósofo e uma cadeira permite que cada um deles seja distinguido.

8. O nível de complexidade em um sistema não pode ser definido em termos objetivos (ou seja, absolutos). A complexidade é uma função da cognição humana, não uma propriedade intrínseca de qualquer coisa que possamos observar.
 
V. Considerações sobre pensamento, significado e ser 

Enquanto os modelos sobre como o cérebro pode funcionar apresentarem falhas (baseados em suposições falaciosas), a criação de uma consciência sintética será impraticável.
 
1. O pensamento humano é algo que ocorre em cooperação com o corpo humano. Não é necessário identificar precisamente onde ele ocorre porque não ocorre precisamente em nenhuma “parte”.

2. É tentador pensar nos pensamentos como blocos de dados no cérebro. Isso seria um erro, por reforçar uma visão estática da atividade mental. Um pensamento é um caminho através do meio cognitivo. Pense da seguinte forma: tomando o mapa do metrô de Londres como uma analogia de como a mente funciona, algumas pessoas diriam: “Cada uma das estações no mapa representa um de nossos pensamentos e as linhas representam as ligações entre eles. As linhas são o que nos permite ir de um pensamento a outro”. O pós-humano argumenta que “um pensamento não é uma estação no mapa, mas a rota de uma estação para outra”. Ou seja, um pensamento é acionado no processo de viagem, em vez de ser um destino específico.
 
3. Uma vez que um pensamento é detectado, seja qual for o motivo, ele consiste em um processo de viagem pelo meio cognitivo que sustenta a mente. Um pensamento não existe a menos que esteja sendo pensado; caso contrário, ele permanece um campo de potencialidade ou obstáculo A viagem provável que um pensamento pode fazer após ativado define seu caminho. Pensamentos semelhantes seguirão caminhos semelhantes. 

4. Os caminhos podem ser criados de várias maneiras, incluindo experiência direta, aprendizado, cognição prévia e o próprio ato de pensar.  Em termos neurofisiológicos, os caminhos incluem, mas não se restringem a, conexões entre neurônios e a probabilidade de disparo. Além disso, o tecido neural não é uma substância estática. Ele muda continuamente em resposta à estimulação e à ativação e é tão propenso à adaptação quanto a pele ou os músculos.
 
 5. O caminho que um pensamento percorre não é unilinear da maneira como normalmente pensamos em caminhos. Um pensamento pode seguir muitas rotas diferentes simultaneamente. A ocorrência de um pensamento específico pode exigir a combinação de muitos pensamentos diferentes.

6. O fato de que pensamentos diferentes podem estar em caminhos diferentes, cada um dos quais é distinto enquanto que cada pensamento é distinto, mostra como podemos imaginar coisas que nunca vimos. É improvável que tenhamos visto uma “garota com olhos de caleidoscópio”, mas podemos imaginar como ela é fazendo uma imagem composta dos componentes, ou seja, percorrendo vários caminhos de pensamento distintos ao mesmo tempo.
 
7. A atividade do pensamento é regulada pela condução da energia no meio cognitivo. Esse meio não difere de qualquer outro sistema por representar um processo específico de transformações de energia. Quando dois pensamentos são contínuos (por exemplo, “azul” e “céu” na frase “O céu é azul”), o caminho entre cada um desses pensamentos está bem estabelecido e será necessária pouca energia para passar de um para o outro. Quando dois pensamentos não estão bem conectados (por exemplo, entre 'myrrh' e 'capstan' na frase 'The myrrh-capstan'), é necessária mais energia para fundir os pensamentos, por terem conexões menos bem estabelecidas.

8. As ideias que podem passar de uma para outra com relativamente pouco esforço (energia) podem ser consideradas contínuas. As ideias que exigem grande esforço para se deslocar entre elas podem ser consideradas descontínuas.

9. A presença ou ausência de “significado” é determinada pela quantidade de energia necessária para passar de um conceito a outro. O significado difícil surge da coexistência de conceitos que são semanticamente distantes, ou seja, quando não há uma conexão bem estabelecida entre eles. Entretanto, o caminho entre conceitos que têm pouca ou nenhuma conexão pode ser muito difícil de percorrer. Por exemplo, a frase “Echoes the wasp's virile down-plate” (Ecoa a placa inferior viril da vespa), embora não seja sem sentido, é certamente incômoda de montar pelo padrão da maioria das frases.

10. Para manter um senso de ser, o ser humano tenta estabelecer continuidade em resposta aos estímulos que recebe do ambiente. Esses estímulos são estáveis e instáveis, pois o ambiente apresenta quantidades diferentes de cada um deles. O desenvolvimento de caminhos de pensamento estáveis que correspondem a estímulos estáveis gera um senso de ordem. Com o tempo, essa estabilidade se transforma em um senso de ser. 
 
11. Se o senso de ordem não fosse perpetuamente ameaçado pela recorrência de estímulos aleatórios, não haveria compulsão para reafirmar a ordem. Da mesma forma, como os seres humanos são continuamente confrontados com estímulos aleatórios, é necessário continuar reafirmando a ordem (mantendo o significado) para que não nos dissolvamos no caos e, assim, percamos nosso senso de existência.

12. Em termos pós-humanos, não é importante como esse processo de ser ocorrerá. O mesmo efeito pode ser alcançado de várias maneiras diferentes. É verdade que podemos aprender com o humano o que é necessário para o ser, mas isso não significa que essa seja a única maneira de implementá-lo.
 
VI.  Considerações sobre incerteza 

1. O humanismo foi caracterizado pela certeza sobre o funcionamento do universo e o lugar dos seres humanos dentro dele. A era pós-humana é caracterizada pela incerteza sobre o funcionamento do universo e sobre o que é ser humano.
 
2. Na Era pós-humana, surgem perguntas que não nos incomodavam na Era humanista - O que é um ser humano? Tal entidade existe? 

3. Historicamente, poderíamos dizer que a Era pós-humana, a Era da incerteza, nasceu no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, pois foi nessa época que fomos apresentados à física quântica e ao cubismo. As consequências de ambos deixaram uma coisa clara: nas palavras de Heisenberg, “Não existem coisas, apenas probabilidades”.
 
4. A incerteza está se tornando familiar. Há incerteza sobre o emprego vitalício, sobre a teoria política e econômica, sobre o que está acontecendo com o meio ambiente, sobre se o progresso científico é sempre benéfico e sobre aonde a tecnologia está nos levando.

5. O que podemos dizer que é certo? Somente aquilo que temos de aceitar como certo por algum outro motivo.

6. Em termos pós-humanos, a incerteza não é nada a temer. O mundo sempre foi tão incerto quanto é agora. O que mudou é que agora é muito mais difícil impor autoridade, pois o aumento do fluxo de informações diminui a autoridade: há mais informações, portanto, há menos falsa sensação de certeza. A certeza, assim como a crença, só surge na ausência de informações completas.

7. A incerteza é certa. 

VII.  Considerações sobre a arte e e criatividade
 
A produção e a apreciação da arte é uma faculdade particularmente humana. Ela é frequentemente citada pelos humanistas como a mais alta expressão do pensamento humano e o que mais nos distingue das máquinas. Portanto, seria justo admitir que a Era pós-humana não pode começar plenamente até que tenhamos enfrentado esse desafio dos humanistas. Para desenvolver uma máquina que possa produzir e apreciar a arte, precisamos primeiro ter uma compreensão mais clara do que ela é. 

1. O que é arte? Uma definição útil é que ela descreve qualquer mercadoria do mercado de arte. Devemos distinguir entre um objeto de arte e um objeto esteticamente estimulante. Um objeto de arte é uma mercadoria negociada no mercado de arte. Um objeto estético é aquele apreciado por sua qualidade estética. Algo pode ser tanto um objeto de arte quanto um objeto estético, como as “Íris” de Van Gogh. Algo pode ser um objeto estético sem ser arte, como um pôr do sol ou uma íris.

2. Muitas pessoas acham que grande parte da arte moderna não é arte porque consideram que ela não tem valor estético, embora tenha preços altos no mercado de arte. Elas estão simplesmente confundindo o valor artístico e o valor estético de um objeto. Esses dois valores são bastante distintos, mas, é claro, estão ligados. “A arte é uma mercadoria como qualquer outra”, disse Daniel Kahnweiler, negociante de Picasso. A arte é uma mercadoria estética. 

3. Para ficar claro, o mercado de arte pode ser definido como um conjunto identificável de instituições e organizações comerciais que coletivamente financiam, promovem e vendem arte.

4. A arte deve ser (e sempre foi) elitista e exclusiva para manter seu valor financeiro e prestígio. Muitos artistas modernos usam o elitismo estético para garantir a exclusividade que, por sua vez, assegura a manutenção dos valores. Portanto, a arte funciona para distinguir as pessoas ricas das mais pobres.

5. A boa arte é esteticamente estimulante, a arte ruim é esteticamente neutra.

6. Os critérios que determinam se algo é esteticamente estimulante ou esteticamente neutro estão parcialmente sujeitos a mudanças sociais.

7. A boa arte sempre contém um elemento de desordem (descontinuidade), a arte ruim simplesmente reforça uma ordem preexistente.
 
8. A boa arte promove a descontinuidade, a arte ruim impõe a continuidade.

9. A descontinuidade produz experiências esteticamente estimulantes, a continuidade produz experiências esteticamente neutras.

10. A descontinuidade é a base de toda criação, mas a descontinuidade não tem sentido sem a continuidade.

11. Uma experiência estética rica é gerada pela percepção, simultaneamente, da continuidade e da descontinuidade no mesmo evento.  

12. Todo design estimulante se baseia no equilíbrio dos quocientes relativos de ordem e desordem no objeto. Isso também se aplica à composição de música e literatura. No entanto, esses julgamentos não podem ser feitos isoladamente do fato de que os valores de ordem e desordem são, na maioria, prescritos por acordo social.

13. A arte pós-humana usa a tecnologia para promover a descontinuidade. As sociedades saudáveis toleram a promoção da descontinuidade, por entenderem que os seres humanos precisam se expor a ela, apesar de si mesmos. As sociedades não saudáveis desencorajam a promoção da descontinuidade.
 
14. A criatividade não consiste na produção de algo completamente novo. A criatividade consiste na combinação de coisas que já existem, mas que antes eram consideradas separadas. A criatividade e a apreciação estética são ambas funções da capacidade humana de modificar as conexões em seus caminhos de pensamento, ou de fazer com que elas sejam modificadas.

15. O processo de estímulo estético é intensificado quando os conceitos são forçados a se unir a partir de locais relativamente diversos de forma descontínua. A quantidade de energia necessária para contemplar diversos conceitos produz o ímpeto físico de excitação conhecido por aqueles que apreciam arte. 

VIII.  Considerações sobre seres sintéticos
 
Já dispomos de máquinas que podem aprender, mas suas habilidades são atualmente limitadas pelo fato de serem lógicas. A lógica é um sistema idealizado e autorreferencial desenvolvido pela imaginação humana. Como existem poucas coisas menos lógicas em termos de comportamento do que os seres humanos, qualquer máquina que se limite a usar a lógica como base jamais apresentará características humanas. 

1. Atualmente, o resultado dos computadores é previsível. A era pós-humana começará de fato quando o resultado dos computadores for imprevisível.

2. A maioria das máquinas de inteligência artificial é hermeticamente fechada. Elas são limitadas pela complexidade dos cálculos que nossas máquinas podem realizar. Elas são sensíveis somente a um número finito de estímulos, e o quociente de aleatoriedade que as invade é relativamente pequeno.

3. O pensamento humano não é um sistema hermético e linear. Como sabemos que o cérebro (logo, a consciência humana), o corpo e o ambiente não podem ser separados, não podemos descartar o impacto de qualquer estímulo ambiental no processo de pensamento, por menor que ele possa parecer.
 
4. O que é essencial para o funcionamento da consciência humana é que a mente receba uma entrada contínua de estímulos aleatórios do ambiente. A mente humana evoluiu para absorver o inesperado - o estímulo descontínuo.
 
5. A compulsão de afirmar a ordem diante de estímulos aleatórios contribui para o nosso senso de existência. Portanto, se quisermos criar qualquer inteligência sintética que tenha um senso de ser como o que reconhecemos em nós mesmos, ela deverá ser sensível ao mesmo nível de interrupção aleatória que os humanos. Ela deve ter a compulsão de reafirmar o significado diante de estímulos estáveis e instáveis, além de ser capaz de se adaptar e aproveitar as possibilidades criativas oferecidas por estímulos não lineares.

6. Se quisermos produzir uma inteligência sintética que demonstre criatividade, precisaremos que ela possa estabelecer conexões entre seus pensamentos de forma descontínua. Isso será alcançado tornando-a perpetuamente sensível a estímulos aleatórios.
 
7. Se quisermos produzir uma inteligência sintética que demonstre apreciação estética, ela deverá poder perceber a continuidade e a descontinuidade simultaneamente, sem travar. Embora isso possa causar excitação na máquina, ainda não se sabe até que ponto seria prazeroso.

8. Os humanistas se viam como seres distintos em uma relação antagônica com o ambiente que os cercava. Os pós-humanos, por outro lado, consideram seu próprio ser como incorporado em um mundo tecnológico ampliado.