domingo, 18 de outubro de 2026

Cyberpunk 2077 e a filosofia: uma interpretação transumanista

Este ensaio é uma transcrição de uma apresentação realizada no I Colóquio de Filosofia da Tecnologia e Ficção Científica, que ocorreu em 16 de abril de 2025 na Universidade Federal do Ceará. Meus agradecimentos à comissão organizadora.

Para Débora de Sá Ribeiro Aymoré - in memoriam e Tawana Tábata.

 

Introdução

Este ensaio pretende fomentar e incentivar o diálogo entre áreas que, em um primeiro momento, são tidas como distintas: o videogame como um artefato cultural e a filosofia. Para o desenvolvimento deste ensaio, propomos algumas reflexões de caráter epistemológico e ético-político a partir do célebre jogo eletrônico de RPG de ação de mundo aberto Cyberpunk 2077 (2020), bem como o DLC Phantom Liberty (2023), dirigido por Adam Badowski e Konrad Tomaszkiewicz e desenvolvido pela CD Projekt Red. Tendo apresentado os objetivos deste ensaio, gostaríamos de chamar a atenção para alguns aspectos, pois partimos do pressuposto de que permitirá uma melhor compreensão para o nosso propósito.

Comumente, a ficção científica é tida como um gênero que busca refletir sobre o futuro da humanidade, assim como os rumos de alguma sociedade; entretanto, partimos do pressuposto de que a ficção científica não reflete sobre o futuro, mas sim sobre o tempo presente, como o caso de quando se comenta sobre o progresso tecnológico, mais precisamente sobre o desenvolvimento acelerado e tecno-otimista sobre os objetos tecnocientíficos já existentes.

Neste ensaio, reforçamos o diálogo promissor que há entre o gênero de ficção científica e a reflexão filosófica. Analisaremos o RPG eletrônico Cyberpunk 2077 e a sua expansão, a partir da apresentação da história do jogo, adentraremos aos problemas filosóficos propriamente ditos, apresentaremos e aprofundaremos as questões que o jogo apresenta em torno do que compreendemos como o transumanismo extropiano é apresentado ao ao público em geral por meio da representação estética e da sua narrativa, também chamamos a atenção de como o argumento ético a favor da utilização do aprimoramento humano que sobreponha a condição natural humana a partir de uma condição pós-humana. 

Cyberpunk

Para adentrarmos no tópico central desta sessão, é necessário contextualizarmos a gênese e a repercussão do subgênero1.

O subgênero de ficção científica cyberpunk, surgido em meados das décadas de 1980-1990, será extremamente popular entre o público. Suas histórias são ambientadas em computadores ou em ambientes digitais, retrospectivamente, marcam claramente o início de uma aceitação mais generalizada dos temas e imagens da ficção científica em culturas para além do seu público inicial. Profundamente influenciado pela New Wave, porém mais interessado nos cenários midiáticos privatizados das novas tecnologias digitais do que em encontros surrealistas com substâncias que alteram a consciência, o cyberpunk deslocou o imaginário da ficção científica para um novo espaço interior, por trás da tela do console (Vint, 2021, p.56 - trad. nossa).

O subgênero cyberpunk surgirá e receberá notoriedade a partir da publicação de algumas obras seminais produzidas por uma geração de escritores de ficção científica durante as décadas de 1980-1990, nas quais se destacam Bruce Bethke, Bruce Sterling, Neal Stephenson, Pat Cadigan e William Gibson.

A palavra “cyberpunk” foi utilizada pela primeira vez no título da short-story2 de Bruce Bethke, publicada na revista Amazing Scientific Fiction Stories (1983). O termo buscava sintetizar duas ideias centrais que perpassam por todo o subgênero: cyber, como ideia de alta tecnologia (implantes cibernéticos, biotecnologia, tecnologia digital); e punk, inspirado no movimento sociocultural homônimo, marcado pela iconoclastia e rebeldia (Aranha, 2019, p. 256). Contudo, mesmo com a relevância do conto de Bethke, será William Gibson que consolidará o subgênero na literatura de ficção científica produzida em língua inglesa e no imaginário social a partir da publicação do clássico Neuromancer ([1984] 2016), o primeiro livro da sua icônica trilogia Sprawl.

Ao tomarmos contato com o universo cyberpunk, somos apresentados à célebre sentença “high tech, low life” (“alta tecnologia, baixa qualidade de vida”). A expressão resume a tensão existente entre avanço tecnológico e precarização das condições de existência humana, característica do gênero. Entretanto, para não cairmos na mera repetição, complementamos com uma proposta de definição sobre o cyberpunk e a sua repercussão sugerida por Valerii Kushnarov (2023):

[...] É uma manifestação cultural de massa, movimento cultural-ideológico, além de ser uma tradução e compreensão sobre a intersecção de ideias e significados de protesto, devido ao seu pluralismo de gêneros e segmentos (ficção científica, indústria cinematográfica, música, design, videogames, moda, ideologia, etc.), e também às lógicas do tecnodeterminismo, continua sendo um importante fator de transformação do espaço cultural-artístico no século XXI [...] (p. 40, trad. nossa).


A partir da definição proposta por Kushnarov, percebemos que os atributos mencionados são de fácil identificação nas narrativas cyberpunk, sobretudo por meio da narrativa estética (literária, audiovisual e musical). Kurshnarov continua:

[...] O cyberpunk apresenta um enredo comum e indispensável ao (sub)gênero, na qual está inserido em um espaço semiótico específico que inclui dois componentes: I) baixos padrões de vida (exploração sexual ou revolução sexual, revolta de classes, uso de drogas e cultura, crítica à corrupção corporativa, periferias, guerras entre gangues, criminalidade e anarquia) e II) tecnologias emergentes (transumanismo, cultura hacker, inteligência artificial, paisagens urbanas hiperfuturistas e outros avanços tecnológicos, por exemplo, na arquitetura, dispositivos e dispositivos bélicos [...] (p. 42-43, trad. nossa).

Ainda sobre o modo de vida e a sua estética, o cyberpunk busca descrever e representar o pessimismo e a marginalidade (contracultural) existentes na sociedade (digital) contemporânea, que se desenvolveu a partir das últimas duas décadas do séc. XX, bem como as primeiras décadas do novo milênio. Em outras palavras, as narrativas cyberpunk se passam em uma realidade distópica, ou seja, o cyberpunk é a antítese do otimismo e da visão utópica, como aquelas encontradas na série televisiva de Gene Roddenberry (1921-1991), Star Trek (1966-1969), por exemplo. Desta maneira, é possível concluir que o subgênero cyberpunk é a representação estética e ético-política do capitalismo tardio.

Para além das características mencionadas que nos conduzem a alguma reflexão, a questão sobre o dualismo cartesiano (corpo-mente/mente-máquina) também costuma ser abordada nas narrativas cyberpunk. Em geral, as aventuras do protagonista são ambientadas no ciberespaço, ou seja, a fronteira entre o real e o virtual não está delimitada. Outra característica está na interação entre a consciência humana e o sistema de computador; tal procedimento é conhecido como transferência de consciência - mind uploading.

Uma possível técnica para a realização do upload da consciência seria por meio de um escaneamento interno realizado no cérebro humano por nanotecnologia (nanorobôs) capazes de extrair informações provavelmente inacessíveis às máquinas de ressonância magnética craniana comuns (Kurzweil, 2018, p. 227). Para que o upload da consciência ocorra, é necessário que a coleta de informações de uma pessoa considere as suas características permanentes e não as temporárias, pois o estado consciente, emocional e cognitivo de uma pessoa está sempre em transformação. Por essa razão, é necessário escanear características dos indivíduos que permanecem mesmo diante das mudanças, pois, caso contrário, a informação coletada sobre um determinado momento em que um indivíduo se encontrava pode não refletir suas características reais (Kurzweil, 2018, p. 228).

Tendo apresentado brevemente a gênese do cyberpunk e suas principais características, passaremos a examinar sua influência nos videogames, sobretudo a repercussão de Cyberpunk 2077 e a sua contribuição para a consolidação do transumanismo no imaginário social.

 

O transumanismo nos videogames

 

Para adentrarmos na relação entre o cyberpunk e o transumanismo e a sua influência para a consolidação no imaginário popular a partir dos videogames, iremos nos debruçar sobre o que é o trans(h)umanismo3.

A palavra “transhumanism” é mencionada e utilizada pela primeira vez no livro New bottles for new wine (1957), do biólogo britânico Julian Sorell Huxley (1887-1975). Na obra, Huxley expressa seu entusiasmo em relação ao progresso científico de seu tempo.

Uma nova compreensão sobre o universo é originária do conhecimento acumulado dos últimos cem anos – por psicólogos, por biólogos e pelos demais cientistas, como os arqueólogos, os antropólogos e os historiadores. Esse conhecimento (re)definiu a responsabilidade e o destino do homem – ser um agente para que o resto do mundo alcance as suas potencialidades inerentes de uma forma o mais completa possível. É como se o homem tivesse sido promovido subitamente para gerente-diretor do maior empreendimento de todos, o empreendimento da evolução – o homem foi promovido sem nenhum aviso ou sem que ele possuísse algum interesse pelo posto. Desta maneira, não houve nem a possibilidade de rejeitar o cargo, quer queira ou não [...] O seu destino é inevitável, quanto mais rápido ele perceber isso e começar a se convencer sobre o seu novo propósito, melhor será para os envolvidos (espécie humana) (Huxley, 1957, p. 13-14 - trad. nossa)4.

Ao expor o seu entusiasmo sobre o progresso científico, Huxley especula sobre o próximo passo da evolução da espécie humana, o transhumano:

A espécie humana pode, se quiser, transcender a si mesma - não apenas esporadicamente, um indivíduo aqui de uma forma, um indivíduo ali de outra forma, mas em sua totalidade, como humanidade. Precisamos de um nome para essa nova concepção. Talvez transhumanismo sirva: o homem continua sendo homem, mas transcende a si, realizando novas possibilidades de e para sua natureza humana (Huxley, 1957, p. 17 - trad. nossa, grifo do autor).

As passagens selecionadas evidenciam que, desde a sua gênese, o termo “transhumanism” está ligado a especulações sobre o futuro da humanidade a partir do progresso científico — especulações que ganharam ainda mais força com o advento da tecnociência, sobretudo no que diz respeito ao aprimoramento humano. A partir da consolidação da tecnociência, isto é, com os avanços nas áreas da bioengenharia, da biomedicina, da biotecnologia, da ciência cognitiva, da criogenia, da inteligência artificial, da nanotecnologia e das demais áreas do conhecimento, nas décadas finais do século XX, o trans(h)umanismo como o conhecemos começa a ser difundido.

O trans(h)umanismo deve ser compreendido como a materialização da promessa do progresso tecnocientífico: por meio de avanços significativos em áreas como bioengenharia, biomedicina, nanotecnologia e outras áreas do conhecimento. Para prosseguirmos, vejamos a definição da palavra “transhumanism” apresentada no influente documento Transhumanist FAQ,  redigido por Nick Bostrom:

O transhumanismo é um modo de pensar sobre o futuro baseado na premissa de que a espécie humana, em seu estado atual, não representa o final do nosso desenvolvimento, mas que representa uma fase inicial, na qual definimos da seguinte maneira: 1) O transhumanismo é um movimento intelectual e cultural que defende a possibilidade e a viabilidade de alterar fundamentalmente a condição humana por meio da aplicabilidade da razão, sobretudo, a partir do desenvolvimento e da disponibilização ampla de tecnologias que visam extinguir o envelhecimento e que proporcionem o aumento significativo das capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas; 2) O transhumanismo é um campo de pesquisa sobre os estudos de ramificações, das promessas e dos riscos potenciais das tecnologias que nos permitem superar as limitações humanas significativas, bem como o estudo de questões éticas relacionadas ao desenvolvimento e uso dessas tecnologias (Bostrom, 2003, p. 4 – trad. nossa).

A partir dessa definição inicial, constatamos a complexidade que há em torno da palavra “transhumanism.” Por ora, chamamos a atenção para três características  relevantes: 1) o trans(h)umanismo é um movimento ideológico, ou seja, o progresso tecnocientífico possui uma agenda política a ser alcançada - esta agenda pode variar quando analisamos cada vertente trans(h)umanista; 2) o trans(h)umanismo é uma vertente filosófica de seu próprio tempo, isto é, da contemporaneidade; e 3) o trans(h)umanismo é a materialização do discurso tecno-otimista e tecnofílico.

A última década do milênio passado foi fundamental para a divulgação do trans(h)umanismo. Personalidades como Anders Sandberg, Aubrey de Grey, David Pearce, David Wood, James Hughes, Max More, Natasha Vita-More, Nick Bostrom, Ray Kurzweil, Stefan Lorenz Sorgner e Zoltan Istvan são tidas como fundamentais para a consolidação das mais variadas vertentes trans(h)humanistas.

Em 1998, foi publicado um dos mais importantes documentos para compreendermos a gênese e a repercussão do trans(h)umanismo: a Declaração transhumanista. Vejamos os primeiros tópicos da Declaração:

  • A humanidade será profundamente impactada pela ciência e pela tecnologia no futuro. Vislumbramos a possibilidade de aprimorar o potencial humano, superando o envelhecimento, as limitações (anomalias) cognitivas, o sofrimento involuntário e o nosso confinamento no planeta Terra.

  • Para nós, a humanidade ainda não alcançou a sua plenitude, pois alguns cenários possíveis só serão possíveis de serem atingidos quando houver a possibilidade real de que a condição humana seja totalmente aprimorada.

  • É necessário que haja incentivo e investimento em pesquisas que contribuam para uma compreensão mais detalhada. É preciso que possuam deliberações minuciosas sobre a melhor maneira de reduzir os riscos e acelerar as aplicações benéficas. Também é necessário haver espaços nos quais a comunidade científica e a sociedade possam discutir de maneira construtiva e democrática, nos quais as decisões responsáveis possam tornar-se realizáveis (Bostrom et al. 2013, p. 54 - tradução nossa).

A partir destes tópicos, vislumbramos quais são as pretensões do movimento. Ainda no mesmo ano, David Pearce e Nick Bostrom fundaram a World Transhumanist Association (WTA), uma organização internacional não-governamental que trabalha pelo reconhecimento do trans(h)umanismo no ambiente universitário a partir de estudos científicos, publicações de artigos, livros e seminários, sendo estes comumente de natureza interdisciplinar e de políticas públicas.

O discurso tecno-otimista do trans(h)umanismo se apoia em algumas promessas, como a cura de doenças, a erradicação de anomalias genéticas, mas não apenas a elas. As pesquisas buscam encontrar um meio de reverter a nossa condição biológica de envelhecimento, ou seja, o trans(h)umanismo visa à desaceleração ou até mesmo à anulação do envelhecimento biológico.

A condição trans(h)umana afirma que o envelhecimento é uma doença, que o aprimoramento, o prolongamento do corpo e do cérebro são fundamentais para prevalecer, e que o bem-estar é essencial para prosperar em ambientes seguros e saudáveis. A compreensão destes aspectos é central para a cosmopercepção e a filosofia trans(h)umanista, bem como defender o uso ético da ciência e da tecnologia para mitigar e intervir eficientemente no processo de envelhecimento e recuar da responsabilidade genética ao avançar da liberdade genética (Vita-More, 2020 - trad. nossa).

Assim, é por meio desse discurso tecno-otimista em torno do progresso tecnocientífico que os entusiastas do trans(h)umanismo se orientam e, para materializar tais promessas, eles se debruçam sobre o conceito de aprimoramento humano (human enhancement).

Segundo o trans(h)umanismo, o aprimoramento humano é o próximo estágio evolutivo da espécie humana, estágio este que não ocorre apenas de forma biológica, mas sim em decorrência da interação intensa entre o organismo vivo e a tecnologia. Como resultado desta interação surgiria, então, o pós-humano. A título de contextualização, apresentaremos um pequeno esboço a respeito da “retórica” trans(h)umanista em favor do aprimoramento humano:

As possibilidades de aprimoramento que estão sendo discutidas na contemporaneidade abrangem desde o prolongamento radical da expectativa de uma vida (pós-)humana saudável, a erradicação de doenças, a extinção do sofrimento desnecessário além do aprimoramento capacidades cognitivas/intelectuais, físicas e emocionais. Os trans(h)umanistas concebem a natureza humana como um projeto em andamento, isto é, mesmo sendo incompleto é possível aprendermos a configurar da maneira que desejamos. O humano em seu estágio atual não precisa ser ponto final evolutivo. Os trans(h)umanistas acreditam que, por meio do uso responsável da ciência, da tecnologia e de outros métodos racionais, conseguiremos nos tornar pós-humanos, isto é, seres com capacidades muito maiores do que as dos seres humanos atuais (Bostrom, 2003, p. 1-2, trad. nossa).


Como mencionado, o trans(h)umanismo desempenha um papel significativo na consolidação de determinadas representações do subgênero cyberpunk no imaginário social. A título de exemplo, no campo literário, o já mencionado Neuromancer ([1984] 2016), de William Gibson, é considerado uma obra fundamental para a consolidação do subgênero. Na sétima arte, o longa-metragem Blade Runner – O caçador de androides ([1982] 2007), dirigido por Ridley Scott e adaptado do célebre romance de Philip K. Dick (1928–1982), Androides sonham com ovelhas elétricas? ([1968] 2014), ocupa posição semelhante, ao mesmo tempo em que proporciona ao espectador uma experiência estético-existencial. Para além da perspectiva ocidental, a produção japonesa também oferece importantes contribuições para a compreensão do cyberpunk. Nesse contexto, destacam-se o mangá Akira (1982–1990) bem como a sua adaptação para a animação cinematográfica com o mesmo título ([1988] 2008), ambos de Katsuhiro Otomo, que oferecem novas perspectivas acerca das relações entre cyberpunk, transumanismo e horror corporal5.

Essa relação entre o subgênero de ficção científica e o transumanismo extropiano torna-se ainda mais explícita quando voltamos nossa atenção para os videogames, nos quais Cyberpunk 2077 se destaca não apenas pela estética e pela representação de tecnologias de aprimoramento humano, mas também pela problematização de suas implicações sobre a condição (pós-)humana.


Cyberpunk 2077 e o transumanismo extropiano


Inspirado na franquia Cyberpunk 2020 ([1988] 1990), criada por Mike Pondsmith, Cyberpunk 2077 é um jogo eletrônico de RPG de ação e mundo aberto, desenvolvido para ser jogado em primeira pessoa. Ambientado em um futuro distópico, o jogo se passa na metrópole fictícia de Night City, Califórnia6. Na qual o jogador irá assumir o corpo de V (Vincent ou Valerie), um mercenário que, contra a sua vontade, acaba recebendo um “biochip” cibernético que contém o engrama do lendário Johnny Silverhand. À medida que a consciência de Johnny começa a sobrepor-se à de V, ambos cooperam para encontrar uma maneira de separar suas consciências para salvar a vida de V. Ao longo da jornada, os personagens são perseguidos pela Arasaka, uma poderosa megacorporação tecnológica que exerce grande influência sobre Night City.

Mesmo que implicitamente ao personagem V, identificamos elementos que remetem à crescente possibilidade de incorporação do aprimoramento humano ao imaginário social, bem como a pressupostos associados ao transumanismo extropiano. No que diz respeito à justificação filosófica do aprimoramento humano, chamamos a atenção para o bioeticista Julian Savulescu. O filósofo irá problematizar que, se a engenharia genética já pode ser empregada para fins terapêuticos, já não seria possível recorrer a ela também para corrigir características consideradas indesejáveis na espécie humana? (Vrpo Extra, 2016). Essa posição parte do pressuposto de que a natureza humana é imperfeita e de que as intervenções tecnológicas poderiam contribuir para superar determinadas limitações biológicas (Vrpo Extra, 2016).

Em outra perspectiva, ao analisarmos V, identificamos elementos que podem ser interpretados à luz de determinados pressupostos do transumanismo extropiano; esses pressupostos são expressos através das mecânicas de personalização e aprimoramento do personagem. Diversos aspectos de sua constituição são personalizáveis pelo jogador, incluindo o rosto, o cabelo, a voz, o design corporal, as vestimentas, bem como a sua história de origem. Além disso, o desenvolvimento do personagem envolve diferentes atributos: I) Corpo, II) Inteligência, III) Reflexos, IV) Habilidade Técnica e V) Moral; o que permite que o jogador direcione suas capacidades de V de acordo com seu estilo de jogo. Essa possibilidade de alternância dialoga com os diferentes arquétipos de personagens, como Netrunner, especializado em hacking; Techie, associado à tecnologia; e Solo, voltado ao combate.

O sistema de progressão do personagem proporciona o desenvolvimento de habilidades relacionadas ao combate corpo a corpo, ao uso de lâminas e armas de fogo, ao hacking, à engenharia e ao atletismo, entre outros aspectos. Por fim, a possibilidade de adquirir e instalar implantes de cyberware por meio dos profissionais conhecidos como medicânicos que por meio de procedimentos especializados corrobora para o aprimoramento das capacidades do personagem por meio de intervenções tecnológicas em seu corpo; ou seja, as mecânicas de personalização e aprimoramento de V podem ser interpretadas como uma representação de ideais associados ao transumanismo extropiano, sobretudo no que diz respeito à possibilidade de superar limitações corporais (naturais) por meio da tecnologia; em outras palavras, a progressão de V está alinhado a superação do humano, como defendido pelos transumanistas extropianos. Para darmos continuidade à interlocução entre Cyberpunk 2077 e o transumanismo extropiano, discorreremos brevemente sobre o transumanismo extropiano.

O transumanismo extropiano é tido como a vertente mais radical do movimento, tanto no nível filosófico quanto teórico-científico e político-ideológico7. Seu principal representante é Max More, que possui formação em filosofia, com ênfase em filosofia da mente pela University of Southern California8. Além de seu entusiasmo pelo transumanismo, More atuou como CEO da Alcor Life Extension Foundation (2010-2020), foi investidor da Singularity University e é membro da Humanity+.

Em 1990, na sexta edição da Extropian Magazine, Max More publica o seu manifesto intitulado Princípios extropianos, no qual o futurista apresenta a sua compreensão sobre o conceito de extropia. Chamamos a atenção para quatro características do seu manifesto:

1. EXPANSÃO ILIMITADA – em busca de mais inteligência, mais sabedoria e poder individual, uma vida útil ilimitada e a superação dos limites naturais, biológicos, psicológicos e sociais para atingir a autorrealização. Ao dissolver tais limites, apenas resta o progresso, o progresso individual e social.

2. AUTORREALIZAÇÃO – tanto a autorrealização moral, quanto a autorrealização cognitiva conduzem à avaliação crítica de todas as presunções e propostas. Assumir o controle da sua própria vida. A ampliação biológica e neurológica. As condições para a autotransformação envolvem a ordem espontânea:

rejeição ao controle central e a liberdade máxima sustentável. Incentivo à diversidade e à exploração de possibilidades.

3. OTIMISMO DINÂMICO – a promoção de uma atitude positiva e empoderadora em torno do nosso futuro individual, global e de todas as criaturas inteligentes.

4. TECNOLOGIA INTELIGENTE – afirmação do papel da ciência e de seus desdobramentos, a tecnologia guiada pelos valores extropianos, através da realização do valor positivo e dinâmico do extropianismo (More, 1990, p. 17 – trad. nossa).

Para Max More, a efetivação do seu projeto transumanista exige a ruptura com qualquer forma de humanismo, já que, no seu entendimento, o humanismo e suas limitações éticas impõem barreiras ao progresso evolutivo da espécie humana. Dadas as características dessa vertente, é importante ressaltar a precisão terminológica, isto é, a retirada do “h” não é gratuita. Aqui, o transumano é entendido como a superação e substituição do humano enquanto espécie9. Neste sentido, André Vaccari irá discorrer sobre o rompimento com o humanismo. O filósofo chama a atenção de que a ruptura ético-política, isto é, o abandono do Argumento da Beneficência10 por parte dos transumanistas do Vale do Silício, neste sentido, o filósofo destaca:

[...] No entanto, o fracasso não é necessariamente racional. Ou seja, o Argumento da Beneficência não é abandonado por causa das suas inconsistências lógicas ou pela falta de fundamento. A história por trás da virada é complexa [...] é pelo apelo da tecnofilia e do tecnoutopismo transumanistas para a ideologia do empreendedorismo e do marketing de novas tecnologias (Vaccari, 2020, p. 186 – grifos do autor).


Vaccari continua:

A chave para compreender o transumanismo em sua versão do Vale do Silício está

na combinação da narrativa da evolução direcionada, com uma visão para uma visão particular da evolução da tecnologia. A naturalização da tecnologia como entidade autônoma, indiferente à agência e aos propósitos humanos, é a pedra fundamental do transumanismo renovado. É também a chave para entender o tecno-fetichismo que muitos críticos detectam na ideologia californiana (Vaccari, 2020, p. 198-199).

Partindo desta breve contextualização sobre um desencadear de eventos, sendo eles ideológicos, econômicos e éticos, que corroboraram para a ruptura do “transhumanismo” para “transumanismo”, concluímos que, mesmo aparentando uma ruptura inofensiva, há desdobramentos profundos. Mesmo que de maneira implícita, é possível fazer algumas aproximações sobre o projeto ético-estético-político transumanista extropiano com o Cyberpunk 2077 e na sua expansão Phantom Liberty, sobretudo quando percebemos que há um enaltecimento sobre a condição pós-humana de V e, eventualmente, o seu retrocesso à condição humana.

Em Phantom Liberty, ainda acompanhamos a jornada de V e Johnny Silverhand em busca pela cura. Em a esta busca, o personagem embarca em uma série de eventos envolvendo espionagem e conspiração política, envolvendo a tentativa de assassinato da presidente dos NUSA - New United States of America, Rosalind Myers. O personagem interage com novos personagens, como Alena Xenakis, Kurt Hansen, Song So Mim e Solomon Reed, bem como conhecemos novas regiões de Night City, Pacifica e Dogtown.

Cyberpunk 2077 e Phantom Liberty oferecem ao jogador o total de 6 finais principais, bem como alguns finais secretos. Como o objetivo deste ensaio é apresentar uma análise filosófica sobre como o discurso transumanista extropiano está no jogo, nos interessa chamar a atenção para o final intitulado “A Torre”, que se encontra na DLC.

Após os acontecimentos de Phantom Liberty, V é contatado por Reed. V finalmente consegue a sua cura, porém, tal procedimento é demasiado invasivo. A cirurgia de V é um sucesso, porém o personagem retrocede à sua condição humana, isto é, V está impossibilitado de acessar qualquer tipo de implante biotecnológico e está fadado a viver como uma pessoa comum de Night City. Embora o tom deste final seja trágico/pessimista, este final é comum ao subgênero.

Ao longo da sessão anterior e da presente, procuramos apresentar alguns aspectos em que o trans(h)umanismo é representado na mídia de videogames. Também buscamos apresentar em nossa análise como é possível identificar alguns elementos constitutivos do projeto ético-estético-político do transumanismo extropiano ao longo da narrativa de Cyberpunk 2077 e Phantom Liberty. Em outras palavras, assim como as demais vertentes trans(h)umanistas11, o transumanismo extropiano é um movimento ideológico que possui uma agenda política própria, que pode ser alcançada por meio da sua repercussão cultural no imaginário social contemporâneo por meio deste subgênero da ficção científica.

Conclusão

Ao longo deste ensaio, tivemos como objetivo contribuir para o diálogo entre o subgênero de ficção científica, o cyberpunk, o progresso tecnocientífico e o discurso tecno-otimista do transumanismo extropiano e a sua representação na mídia de videogame, mais precisamente, em Cyberpunk 2077 e Phantom Liberty e a filosofia contemporânea; diálogo este que consideramos pouco difundido entre a comunidade filosófica brasileira. Ao nos dedicarmos a análise do videogame desenvolvido pela CD Projekt Red, identificamos uma rede de complexidade que existe quando nos debruçamos sobre o trans(h)umanismo como um todo, desta maneira, compreendemos que este ensaio teve como objetivo rejeitar a caricaricaturização que os discursos bioconservadores propagam sobre o movimento trans(h)umanista, pois estes não consideram a diversidade de vertentes trans(h)umanistas, assim como as suas próprias complexidades/particularidades existentes no movimento; bem como as suas implicações estéticas, éticas e epistemológicas. Compreendemos que, por meui desta análise, somos convidados a refletir a respeito da necessidade de uma reformulação ou uma nova compreensão sobre os tijolos elementares da matéria que compõem a contemporaneidade, quiçá novos paradigmas que contemplem os fenômenos promovidos pela tecnociência.

 

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1 Embora compreendamos a relevância do romantismo gótico, da New Wave, do rock, da música eletrônica e das subculturas punk e hacker, devido o recorte epistemológico deste ensaio não iremos nos debruçar sobre o que pode ser denominado como proto-cyberpunk, desta maneira, sugerimos as leituras do trabalho pioneiro de André Lemos (2002), ao propor um diálogo profícuo entre as áreas das ciências sociais com a comunicação irá discorrer como a subcultura hacker será relevante para a consolidação da cibercultura e os seus desdobramentos no imaginário social contemporâneo, seja do ponto de vista ético-político e estético. Adriana Amaral (2005), que, a partir da metodologia arque-genealógica, irá se debruçar sobre as complexidades sociológicas, epistemológicas, estéticas e morais existentes no subgênero/subcultura cyberpunk. Lisa Yaszek (2020), por sua vez, chama a atenção para um tema ainda pouco abordado nos estudos de ficção científica e cyberpunk: a contribuição das autoras. Neste trabalho em específico, a autora propõe uma periodização histórica de um proto-cyberpunk feminista, dos anos 1818 a 1979.

2 Chamamos a atenção para a utilização do vocábulo “short-story.” Embora seja um termo incomum na literatura brasileira, o conceito deve ser compreendido como uma narrativa menor do que uma novela, que tenha entre 2.000 e 15.000 palavras. Segundo ele, a short-story possui influências realistas, mas também surrealistas. É um gênero literário que difere do conto e da novela, tipicamente na língua inglesa. No Brasil, não há correlato para o termo, uma vez que as características do conto são diferentes (Amaral, 2005, p. 36).

3 Ao consultar a literatura em língua portuguesa, é possível identificar três opções de tradução: “transhumanismo”, “transumanismo” e “trans-humanismo.” Desse modo, gostaríamos de justificar a nossa compreensão e os usos dos termos. “Transhumanismo”, tradução literal do vocábulo, a utilização do “h” significa que ainda há uma continuidade com o humanismo. “Transumanismo” por sua vez, é tido como uma vertente radical (inumana), pois não está comprometida com os ideais humanistas. Embora compreendamos as razões pelas quais alguns estudiosos prefiram “trans-humanismo”, preferimos não utilizar. “Trans(h)umanismo” para não ficar distinguindo de qual vertente estamos falando (com ou sem “h”), optamos pelo (h), pois nos permite falar das diversas vertentes de maneira mais geral. Justificamos essas diferenciações a partir dos trabalhos de Antonio (2018) e Vaccari (2020).

4 Trabalhos recentes problematizam a originalidade de Huxley sobre a palavra “transhumanism” (More, 2013; Tibaldeo, 2024 e Vita-More, 2020). Argumenta-se que a palavra pode ser encontrada na obra monumental de Dante Alighieri (1265-1321), na Divina Comédia ([1321] 2017), mais especificamente no Paraíso, na qual o poeta utiliza a palavra “trasumanar” ou “transumanare” (Alighiere, 2017, v. 70-72, p. 404). Jelson Oliveira (2018) também chama a atenção para a influência que Teilhard de Chardin (1892-1964) exerceu sobre Huxley a partir do seu livro The phenomenon of man (1958). Huxley é tido como fundamental para a recepção da obra de Teilhard de Chardin na Inglaterra. A edição inglesa possui uma introdução do biólogo inglês (cf. Oliveira, 2018, p. 359).

5 Brown (2010) e Central Pandora (2024).

6 Night City é uma metrópole estadunidense localizada no Estado Livre da Califórnia do Norte, controlada por corporações – legislações locais e nacionais não possuem jurisdição na região. Além disso, há conflitos internos constantes entre as gangues e outras entidades que procuram dominar a cidade. Night City depende da robótica para todos os aspectos diários, como coleta de resíduos, manutenção e transportes públicos. A internet usada na metrópole é administrada pelo exército e corporações.

7 Desde a sua criação, o transumanismo extropiano está alinhado ao libertarianismo de direita, sendo essa a ideologia predominante no Vale do Silício. Como não teremos a oportunidade de aprofundar este tópico, sugerimos a leitura de Barbrook e Cameron ([1995] 2018). Para uma compreensão sobre as implicações ético-políticas do extropianismo, ver Bour (2022) e Thomas (2024).

8 More (1995).

9 Segundo Vaccari (2020), essa ruptura com o humanismo possui um caráter político-econômico. Isto é, para angariar financiamento e obter a visibilidade necessária à sua divulgação pela mídia, o movimento transhumanista teria abandonado o seu humanismo original e aderido à ideologia libertária predominante no Vale do Silício (Vaccari, 2020, p. 187-203).

10 O argumento da beneficência é um argumento normativo consequencialista: devemos alcançar a pós-humanidade como um objetivo valioso em razão de suas consequências benéficas. O sujeito racional assente às razões (“apoio reflexivo”). Essas razões são duas: a pós-humanidade é valiosa e é por isso que aqui é entendida como benéfica, embora outras razões possam ser concebidas e é factível [...] (Vaccari, 2020, p. 189–190, grifos do autor). Embora não haja espaço para aprofundarmos o argumento da beneficência neste ensaio, sugerimos a leitura de Vaccari (2019; 2020), na qual irá se debruçar sobre essa questão ao apresentar suas objeções ao argumento ético empregado pelos trans(h)umanistas.

11 Devido ao recorte epistemológico deste ensaio, não iremos nos aprofundar sobre as principais vertentes trans(h)umanistas. Sugerimos a leitura de Gomes (2026).